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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

CTO de Alcoólicos Anônimos, lancemos as iscas somente!

ROTEIRO SUGERIDO PARA ALCOÓLICOS ANÔNIMOS NOS TRABALHOS DA CIP


1 - Devemos, antes de tudo, nos colocar no lugar dos receptadores. Quero dizer, temos que ter a sensível medida de suas condições de ouvintes, leigos ou não, que em sua grande maioria desconhece por completo todo o conteúdo informativo que abordaremos na ocasião da CIP. Além do mais, temos que obstruir por meio de informações claras as barreiras naturais que se opõem ao propósito único dos nossos trabalhos, quais sejam: pré-conceitos, estigma, negação, desconhecimento, vergonha, equívocos, ironia.

2 - É necessário ganhar a confiança e a solicitude dos interessados logo no início do trabalho. Pensem: alguns desses ouvintes estão curiosos; muitos outros nos assistem contrariados ou com má vontade; e há os que estão ali de bom grado, esses já estão do nosso lado.

2.1 - Devemos nos apresentar com humildade, confiança e como alcoólicos RECUPERADOS ou como EX-BEBEDORES PROBLEMA. Não podemos oferecer dúvidas quanto a isso. Afirmar que há dez anos não bebemos e apesar de todo esse tempo continuamos em recuperação é, no mínimo, incoerente, contraditório e pavoroso. Não podemos deixar brechas desnecessárias para indagações e mais resistências.

IMPORTANTE: Diferenciarmos o apropriado no comportamento e nos objetivos das informações nas situações das comissões, diferentemente daquilo que se estabelece no espaço de um grupo diariamente. Vale a pena ressaltar que o caráter de todo e qualquer trabalho das comissões deverá sempre limitar-se ao informativo, evitando as intenções de caráter educativo ou preventivo.

2.2 - É preciso dizer-lhes que estamos ali para solicitar sua ajuda e compreensão diante do nosso papel informativo e de relações públicas. Devemos confirmar que os integrantes da equipe não possuem qualquer qualidade oratória, que não somos profissionais, que estamos ali nos expondo por dever e responsabilidade quanto ao fornecimento ao maior número possível de interessados as mesmas informações que nos fizeram parar de beber. Que desejamos, na verdade, convencê-los a se tornarem potências difusoras de nossa mensagem ao alcoólico que ainda sofre. A única razão de nossa existência.

O 1° aspecto de nossas intenções: Alcançar o Alcoólico Indiretamente.

3 - Toda condução dos trabalhos deve ter como objetivo atingir nosso alvo, o alcoólico que ainda sofre, INDIRETAMENTE. Isso deve ficar bem estabelecido logo no início, pois não estamos ali para constranger ninguém. Nossa preocupação é abastecer os ouvintes com informações práticas que estejam ao alcance de todos; informações que os identifiquem com o provável alcoólico de suas relações. Comecemos afirmando que todos os presentes são conhecedores de alguém em suas famílias, no ambiente de trabalho, na vizinhança, ou quem sabe entre seus amigos, num grau distante ou próximo, que carregaram ou ainda carregam o drama do alcoolismo em suas vidas. Agindo assim, faremos se sentirem também um pouco responsáveis e cooperativos.

4 - "Garanto aos senhores e senhoras..." A atenção será obtida a partir daí. Cabe a nós, então, mantê-los interessados até o final dos trabalhos. Não precisamos repetir mecanicamente preâmbulo algum. Todo o preâmbulo será conferido junto ao escopo informativo do trabalho. Há alguns pontos do preâmbulo que só fazem sentido para nós, membros familiarizados. São esses pontos que devemos abordar o mais claramente possível, explicando as razões e os porquês.

5 - Preparado o terreno a partir da apresentação dos seus integrantes e a confirmação do caráter de nosso trabalho junto a eles, começamos a efetivar o conteúdo informativo.

5.1 - Iniciamos afirmando que Alcoólicos Anônimos é para todos. Não queremos que ninguém fique de fora dos nossos quadros de membros. Temos todas as amostras de nossa sociedade: culturas e raças diferentes; orientações sexuais diversas; homens e mulheres de poder e força; pessoas obscuras e anônimas; apenados e santos padres; agnósticos, religiosos e ateus; os intelectuais estão com a gente e os iletrados também. Enfim, todos os humanos! Até mesmo eu, pois a doença do alcoolismo é imparcial e democrática. Também é necessário esclarecer que não há taxas e nem mensalidades; que somos AUTOSSUSTENTÁVEIS através de nossas próprias contribuições voluntárias; que Alcoólicos Anônimos é inteiramente de graça!

5.2 - Já que afirmamos que o alcoolismo é uma doença, devemos dizer que como tal está catalogada pela OMS. É igualmente relevante abordarmos a origem de Alcoólicos Anônimos, informando que foi criado em 1935, nos Estados Unidos, durante a Grande Depressão, no pós-guerra, a partir da necessidade de dois homens desesperados pelo alcoolismo encontrar uma solução para suas condições aflitivas. Também é importante mencionar que, passados quatro anos desse primeiro encontro, foi lançado o livro Alcoólicos Anônimos, o qual fez surgir diversos grupos em todo território americano e, mais tarde, fora dele.

5.3 - Temos que ressaltar que, segundo Alcoólicos Anônimos, a doença do alcoolismo se manifesta no indivíduo a partir de uma combinação explosiva: a obsessão pelo beber aliada à compulsão orgânica. Esses dois fatores, somados, determinam a ocorrência da doença. Devemos esmiuçar, com ilustrações próprias, sucintas e evitando ao máximo qualquer ação sensibilizatória, como essa doença se manifestava em nossas vidas; elevar os nossos fundos de poço até o nível que os atinja, sem, no entanto, ir tão fundo. Devemos mencionar os aspectos da doença e afirmar que não há cura, mas sim, recuperação, pois caso houvesse cura, poderíamos apreciar qualquer bebida sem a perda do controle, isto é, o fator orgânico não seria mais acionado. É ainda necessário informar sobre o aspecto progressivo e primário da doença, aspecto diferenciador entre o alcoólico moderado e o desesperado, determinante para sua estória de vida cheia de riscos.

5.4 - É importante relatarmos as características comportamentais desse sujeito alcoólico: o quanto se ressente ao ser criticado ou aconselhado pela sua maneira de beber; o desejo que possui de controlar o uso do álcool, o que intensifica o fator obsessivo; a insistência em negar sua condição de alcoólico, comprometendo cada vez mais sua saúde; os riscos provocados pelo descontrole; as justificativas e racionalizações que cria para continuar bebendo; o quanto aborrece seus familiares pela sua maneira de beber.

O 2° aspecto de nossas intenções: Uma Olhar Compreensivo.

6 - Devemos apresentar uma VISÃO COMPREENSIVA do ser humano enfermo, estigmatizado e incompreendido. Estimular um olhar que toda sociedade deveria possuir para o bom entendimento do que se passa com esse indivíduo, a fim de ajudá-lo. Existem momentos mais adequados para tratar do assunto com o alcoólico que sofre? Sim, o momento em que ele busca o isolamento empurrado pelo remorso ocasionado pela última bebedeira. Em muitos casos, esse é o momento mais indicado. Vejamos: esse momento é delicado e íntimo. Somente alguém muito confiável pode assumir esse papel (cônjuges, filhos, pais e amigos, a princípio). Devemos também levar em consideração que tal oportunidade pode levar meses para ocorrer, e que o interessado em ajudar o alcoólico deve ser paciente e amoroso, devendo evitar discussões ou críticas. É necessário recomendar essa pessoa de confiança ao Ala-Anon para que se familiarize com toda a problemática.

6.1 - É necessário enfatizar que ninguém nesse mundo é capaz de mudar o alcoólico. Tal atitude é responsabilidade do próprio e é intransferível. Nós que estamos de fora só conseguiremos acender seu desejo de recuperação e apoiá-lo nessa trajetória. É preciso confirmar que o sujeito não tem culpa por ter se tornado alcoólico, mas que possui, sim, responsabilidades pelo fato ter ocorrido com ele. Ninguém deseja tornar-se doente por mais que tenha contribuído para isso. O mesmo ocorre com um hipertenso ou diabético: um exagera no sal e o outro no açúcar, mas nenhum deles desejou que isso os tornar-se um problema.

7 - Por que encaminhar o indivíduo adoecido a um grupo de Alcoólicos Anônimos? O que o grupo oferece que nós outros não conseguimos? Vamos tentar responder a essas indagações extraindo o que há de mais comum em nossas reuniões e nos aproximando o máximo possível do ideal. Temos que vender o melhor peixe! A meu ver, o que atrai realmente o indivíduo para junto de nós é a sensação de pertencer. Seu instinto social, até o momento em total desordem, começa a ser preenchido. A lacuna da solidão e do isolamento vai deixando de existir, fornecendo-lhe segurança, autoestima e esperança. Acredito que todo o resto das virtudes que um grupo possui só colabora para que essa sensação de pertencimento seja fortalecida cada vez mais. Vamos a elas: a afinidade quanto ao propósito; a identificação pelos sentimentos; a compreensão pelas semelhantes experiências; a segurança do anonimato; um ambiente fraterno e propício à recuperação; um lugar livre de julgamentos ou condenações; a liberdade de escolha. Não há imposições e, sim, recomendações. Na verdade, um genuíno movimento de compaixão é o que nos move. A transmissão integral é estabelecida dessa forma, e, só acontece no grupo.

Enfim, esses são os elementos que me vieram à cabeça nesse momento em que escrevo. É importante não romantizar muito, sob o risco de o discurso parecer uma farsa. Sejamos honestos: entre o ideal e o real há uma grande distância. O peixe talvez seja o melhor, mas não é tão grande!

8 - Devemos demonstrar de forma sintética o (programa), nosso método de recuperação. Nunca devemos esmiuçar o passo a passo dos 12 passos. É importante darmos relevo aos princípios espirituais, à necessidade de combater o egoísmo com atitudes positivas, à relevância da aquisição de novos valores e ao exercício de novos hábitos como, por exemplo, o inventário de si mesmo (autoexame). Lembremo-nos: em relação aos 12 passos, não temos meios de abordá-lo. Essa é uma atribuição somente dos grupos e não da *CIP. Quem seguir por esse caminho correrá riscos devido à subjetividade do programa.

9 - Devemos abolir a discussão sobre teorias teológicas ou despertares espirituais. Recordemos que não somos nem seita nem religião, e abraçamos os adeptos de todos credos e também os que não possuem credo algum. Lembremos que respeitamos todos os pontos de vista, mas que, certamente, nas reuniões de A.A. todos ouvirão falar em Deus ou em um Poder Superior, conforme qualquer um desejar e se desejar!

10 - Devemos apresentar sucintamente o funcionamento de nossa irmandade (sociedade) em todo o mundo, sob os dois legados - UNIDADE e SERVIÇO - e sua aceitação em diversas culturas e línguas. É importante mencionar a forma de obter nossas obras literárias, fornecer nossos dados de contato e informar sobre tudo o que possa ser útil ao atendimento do pedido de ajuda de todo e qualquer candidato à recuperação.

11 - A exposição deve ser finalizada com um último agradecimento, colocando-nos à disposição para responder  às questões formuladas pelos ouvintes e esclarecer tudo o que seja possível. Caso sejam solicitadas informações que não possamos atender nesse momento, é importante responder de forma verdadeira. Quanto às indagações teológicas e científicas, o melhor é nos abstermos. Esse mérito não é nosso! Afirmemos que não temos meios para responder a essas questões e que deixaremos o contato de alguém capacitado para fazê-lo.

Não há bicho de sete cabeças algum! Todos com um mínimo de boa vontade poderão fazer esse papel com total qualidade. Não precisamos ser experts ou doutores para relatar de forma bastante natural e verdadeira o que se passa conosco. E façamos isso com as nossas palavras. Lancemos as iscas somente! Lembremos de tratar esse modesto material como um roteiro sugerido e facilitador. Certamente, existem ou existirão outros roteiros com o mesmo intuito de facilitar o acesso de todos à produção dos trabalhos de *CTO, contribuindo para a ampliação das tarefas e a abrangência da mensagem, resultando, quem sabe, numa maior eficiência dos trabalhos. Mas isso, somente o tempo e o nosso bom Deus poderão confirmar.

*Comitê Trabalhando com Outros
*Comissão de Informação Pública

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Sejam todos bem-vindos com suas colaborações de qualquer natureza, excetuando tudo que infrinja as regras do bem proceder. Lembramos sempre que nenhum dos seus membros fala "em nome de" A.A., mas, no máximo, "de" A.A. As opiniões dos alcoólicos recuperados baseiam-se sempre na propriedade de suas experiências pessoais.