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sexta-feira, 13 de junho de 2025

O QUE SERIA “FICAR BRANCO COMO A NEVE”, PARA ALCOÓLICOS ANÔNIMOS?

Sexto Passo de Alcoólicos Anônimos







A expressão usada por Bill, no sexto passo: … “mas nunca nos deixará brancos como a neve…”, é sempre retirada do seu contexto, fazendo com que muitos acreditem que nunca ficaremos brancos como a neve. Mas será isso mesmo?

Para entendermos que no sexto passo há um precedente aberto para acreditarmos que poderemos sim nos tornar brancos como a neve é preciso analisarmos a situação num contexto muito mais amplo, e isso vai nos arremeter ao que nos é sugerido desde o quarto passo, “fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”.

O ensaio começa dizendo que “A criação nos deu os instintos por alguma razão, sem eles não seríamos seres humanos completos”. Em seguida, é relatado a função de tais instintos, que seria o combustível para buscarmos abrigo, prestígio social, por reprodução, segurança financeira…, coisas PERFEITAMENTE naturais e necessárias, dadas a nós por Deus. Sendo assim, tais instintos, usados para esse fim, se tornam o padrão ideal de Deus para nós, seres humanos.

Contudo, os instintos são os depositários de toda sorte de desejos nos seres humanos. Tais desejos, em algum momento excedem suas funções originais e passam a escravizar a nós seres humanos. Passamos a viver, em dado momento, apenas segundo os excessos, perdendo de vista o padrão ideal de Deus para nós.

Ao refletirmos sobre os excessos, nos conscientizamos de que desejamos mais do que o necessário para nossa sobrevivência. Então compartilhamos com outra pessoa e passamos a desejar eliminar esses excessos é quando vem o sexto passo, “prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse nossos defeitos de caráter”. Os defeitos de caráter são os excessos do padrão normal dos instintos que Deus nos deu, que serviriam apenas para nos motivar a viver.

Mas ainda no sexto passo é dito “visto que nascemos com uma abundância de desejos naturais é normal que eles se excedam e passem a nos dominar. Mais adiante, o texto diz que não há notícias em canto algum de que Deus tenha eliminado totalmente os instintos de um ser humano. Se Ele fizesse, seria o mesmo que eliminar a motivação para viver de um ser humano, logo, os instintos são uma parte intrínseca de nós.

Então vem a famosa expressão: “Se pedirmos, Deus certamente perdoará nossos defeitos de caráter, MAS NUNCA NOS TORNARÁ BRANCOS COMO A NEVE, mas o texto não se encerra aí, ele continua ... sem a nossa ajuda”... Fica claro que tudo depende de nós.

Ora, se você tem um presente ele é seu, mas se resolve dar a alguém, você dá a quem você quiser e uma vez dado, quem recebe faz o que quiser com aquele presente, pois agora é seu. Mas se posteriormente depois de ter usado o presente inadequadamente quiser recorrer àquele que lhe deu para fazer um conserto, aquele que deu pode tranquilamente providenciar o conserto do presente. Os instintos foram dados a nós por Deus e depois que os recebemos, fizemos uso deles como melhor nos aprouve.

A decisão de trazer os instintos à sua função natural, que é apenas o de dar motivação para viver, conforme Deus pensou para nós, é nossa. Deus está pronto para nos tornar brancos como a neve, mas os instintos já foram dados a nós e agora a prerrogativa de pedir para corrigir é nossa. Assim como quando entramos no quanto de nosso filho e enxergamos ali uma tremenda bagunça e não ousamos arrumar conforme o padrão que pensamos do quarto para ele, pois isso pode chatea-lo, também arrumamos com o maior zelo possível, dentro do padrão que pensamos pra ele, se ele nos pedir.

Assim também funciona em relação aos nosso instintos, se pedirmos Deus certamente trará nossos desejos ao padrão que Ele pensou para nós seres humanos. A medida de Deus para nós, seres humanos, é uma medida proporcional ao que precisamos para viver neste mundo.

O nosso erro de interpretacão neste texto é que não o lemos dentro de um padrão humano, mas sim, fazendo uma relação com o padrão de perfeição de Deus para Ele, Deus. Deus é um ser espiritual no sentido exato da palavra, é superior ao ser humano e Sua perfeição é uma coisa, totalmente diferente da perfeição que ele deseja para nós aqui na terra.

Ficar branco como a neve, para nós, humanos, é tão somente usar os nossos desejos instintivos apenas como motivação para dar sentido à vida, tal sentido é expresso lá no início do quarto passo: motivação para construir abrigo, ter um pouco de prestígio na comunidade, construir uma família e se manter neste padrão.

Caso algum desejo insista em exceder sua função pensada por Deus para nós, podemos recorrer ao Criador, que Ele certamente perdoará nossas negligências.

Carlos S

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Os livros fundamentais de Alcoólicos Anônimos

 Livro: Os doze passos e as doze tradições de Alcoólicos Anônimos

Salve, salve, companheirada..!

Agradeço ao Companheiro Francisco pelas imagens do nosso acervo intelectual, um tesouro que pertence à humanidade. Esses livros não são apenas papel e tinta; são a diferença entre a vida e a morte para o verdadeiro alcoólico. Eles carregam a sabedoria de quem já caminhou pela escuridão e encontrou a luz. E, no entanto, no Brasil, esse patrimônio inestimável foi sequestrado por uma lógica mercantilista que envergonha os princípios que deveriam nortear nossa irmandade.

JUNAAB e o Poder Legal
Usurparam nosso patrimônio intelectual. Sim, usurparam. Transformaram um bem coletivo, que deveria ser acessível a todos, em uma mercadoria. Enquanto milhares de alcoólicos desesperados lutam para encontrar um sentido para suas vidas, nossos livros fundamentais são vendidos como produtos em prateleiras, inacessíveis para muitos em um país tão desigual como o nosso. Isso não é apenas um desvio de propósito; é uma traição aos princípios de AA.

Nosso desenho original, estabelecido por Bill W. e Dr. Bob, é claro: o autossustento. Recuperamo-nos para, então, assumir a responsabilidade por nossa existência coletiva. Nossa estrutura deve ser mantida por doações voluntárias e anônimas, não pela exploração comercial de um patrimônio que pertence a todos. Taxar esses livros com fins lucrativos é imoral. É elitizar o acesso a uma mensagem que deveria ser universal. É negar esperança a quem mais precisa.

Mas vamos além. Existem dois poderes em AA: o poder legal e o poder tradicional. O poder legal, representado por entidades como a JUNAAB, deve ser subsidiado majoritariamente pelas contribuições voluntárias do poder tradicional — os grupos e seus membros, que são a verdadeira força motriz de nossa irmandade. No entanto, entre 2014 e 2015, o poder legal se instalou em uma propriedade alugada no bairro do Tatuapé, em São Paulo, a um custo que foge completamente da nossa realidade arrecadatória. Uma máquina superestimada, que nos oferece um serviço subestimado. E o resultado? Uma política de preços das nossas obras completamente comprometedora.

A lógica, a grosso modo, é essa: viver de aparências. É como ter um dono de uma Mercedes-Benz na garagem de casa, mas sem poder tirá-la de lá porque o cartão de crédito tem o limite de um trabalhador operário de fábrica. É um absurdo. Enquanto isso, nossos livros, que deveriam ser reproduzidos com um lucro mínimo apenas para garantir sua continuidade e manutenção, são vendidos a preços que excluem aqueles que mais precisam.

E o que fazemos? Nossos livros ficam fechados, negligenciados, esquecidos. A maioria dos veteranos e grupos parece ter se acomodado a essa realidade. Nos últimos dez anos, vimos algumas mudanças, mas são lentas, insuficientes. Em AA, o bom sempre foi inimigo do melhor. E enquanto nos contentamos com o mínimo, a mensagem libertadora dos livros fundamentais — sim, estou falando de "Alcoólicos Anônimos" e "Os Doze Passos e as Doze Tradições", não do "Viver Sóbrio" — continua distante da maioria. A leitura, quando existe, é superficial. A compreensão, débil. E assim seguimos, distantes do ideal que Bill W. vivenciou naquela cozinha humilde, ao lado de seu padrinho Ebby T., que lhe transmitiu a mensagem dos Grupos Oxford. Esse relato histórico, descrito por Bill W. no último parágrafo do primeiro capítulo de "Alcoólicos Anônimos", é um testemunho poderoso de como a recuperação começa com a partilha desinteressada de uma mensagem de esperança.

Mas eu digo: chega. Chega de negligência. Chega de comodismo. Chega de permitir que um patrimônio que é nosso seja explorado por interesses que não são os nossos. É hora de colocar essa locomotiva nos trilhos. Uma nova geração está chegando, cheia de brilho e sede de sentido. Eles merecem mais do que migalhas. Merecem acesso pleno à mensagem que pode salvar suas vidas.

Não se iludam: a mudança começa conosco. Precisamos estudar, compreender e aplicar os livros fundamentais em nossas vidas. Precisamos exigir que nosso patrimônio seja tratado com o respeito que merece. E, acima de tudo, precisamos honrar o legado de nossos precursores, garantindo que a mensagem de AA seja acessível a todos, sem distinção. Porque, no fim das contas, não se trata apenas de livros. Trata-se de vidas. E vidas não têm preço.

sábado, 4 de novembro de 2017

Muito prazer, meu nome é Mudança. Você vai me aceitar no seu grupo de A.A.??

por H.C.

Essa pergunta tem como base a experiência relatada no livro "Os 12 Passos e As 12 Tradições" ocorrida em 1937, quando só existiam 2 grupos e que contribuiu para o nascimento da 3ª Tradição de AA.


"....o senhor permitirá que eu faça parte do seu grupo? Sou vítima de uma outra dependência ainda mais estigmatizante do que o próprio álcool...". 
O episódio narrado na 3ª Tradição, um inesperado pedido de ingresso, trouxe grande divergência de opiniões naquele grupo. Mas por fim, o ingressante foi aceito. 
Naquele momento, aconteceu uma ruptura num sistema pré estabelecido: alcoólicos anônimos, que servia apenas à alcoólicos puros, mudaria sua estrutura para aceitar alcoólicos com outras dependências nas mais variadas condições sociais.
Co-fundador de Alcoólicos Anônimos

Desde o nascimento das 12 Tradições de A.A. muitas coisas mudaram conforme a profecia do Dr. Bob. Mas a essência de A.A. não mudou. São exemplos disso: Os 12 Passos e as 12 Tradições; os Três Legados; Oração da Serenidade; a ideia do plano das 24 horas (só por hoje) e etc..

Ainda que não sejam todas ideias originais, foram incorporadas progressivamente nas estruturas básicas de A.A., não devendo ser alteradas sob a pena de colocar a própria irmandade em risco, conforme experiências mal sucedidas em grupos anteriores. E a irmandade somos nós. Eu e você. Acho que é daí que surgem as dúvidas sobre o que deve ser mantido e o que deve ser mudado dentro de um grupo.
Existe uma diferença entre mudar a essência de AA e o que podemos fazer para melhorar a prática dos Três Legados. Percebo que a essência de AA é imutável.
Quando digo "só por hoje" ao invés de dizer "mais 24h" estou mudando uma estrutura básica. Consequentemente estou alterando a essência de AA. Isso deve ficar no campo pessoal. Fale assim quem bem o quiser.
Mas quando sugiro uma mudança na estrutura de um grupo, com o objetivo responsável de aprimorar e promover a prática dos Três Legados, estarei navegando dentro da essencial, saudável e inevitável mudança profetizada pelo Dr. Bob.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Alcoólicos Anônimos: autossuficiente!?

70 anos de A.A. no Brasil

Nossa 7ª Tradição começa com uma sugestão aparentemente simples: "Todos os grupos de A.A. deverão ser absolutamente autossuficientes, rejeitando quaisquer doações de fora." Essa tradução, presente nas edições brasileiras sob o controle da JUNAAB (Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil), com permissão da AAWS (Alcoholics Anonymous World Services, Inc.), carrega consigo uma palavra que, ao longo dos anos, tem gerado discussões e mal-entendidos: "autossuficiência".

Mas o que realmente significa ser autossuficiente? E, mais especificamente, "absolutamente autossuficiente"? A tradução conjuga o verbo "dever" no futuro, sugerindo uma meta a ser alcançada, enquanto o original em inglês, "ought to be self-supporting", indica uma condição presente, já neste instante, e não mais adiante! Essa pequena diferença temporal pode parecer insignificante, mas reflete uma contradição profunda no significado do termo.

Autossuficiência, em seu sentido mais literal, significa bastar-se a si mesmo. No contexto da 7ª Tradição, ela se refere ao sustento material dos grupos, que deve vir exclusivamente dos próprios recursos de seus membros, sem depender de doações externas, que, consequentemente, esbarra diretamente nas nossas relações humanas com profissionais contempladas na 8ª Tradição, e, indiretamente, na 9ª Tradição. No entanto, essa ideia de autossuficiência, quando mal interpretada, pode se tornar uma armadilha perigosa. Ela sugere uma independência que vai em desencontro aos princípios espirituais de A.A., que pregam justamente o contrário: a dependência de um Deus, na forma em que O concebíamos e o apoio mútuo entre os membros.
"Absolutamente" o advérbio ratifica a recomendação de recusa de quaisquer donativos materiais, mesmo aquelas doações que simulam concessões inofensivas.
Vejamos um exemplo prático. Imagine um grupo de A.A. que aluga um espaço em uma igreja católica por um valor simbólico, digamos, R$ 50,00 mensais, para realizar suas reuniões uma vez por semana. À primeira vista, pode parecer uma solução prática e inofensiva. No entanto, essa prática esbarra em questões delicadas. Primeiro, porque não há um contrato que defina claramente os direitos e deveres das partes envolvidas. Segundo, porque essa proximidade com instituições religiosas pode criar barreiras para aqueles que não se identificam com a fé católica ou com qualquer outra religião. O ideal seria que os grupos de A.A. mantivessem uma distância saudável de igrejas e outras instituições religiosas, garantindo que o programa seja acolhedor para todos, independentemente de suas crenças ou descrenças. ─ Diz a profecia, que: “A verdadeira liderança de A.A. se encontra do lado fora”. ─ Torço para que eu veja essa profecia se realizar ainda nesta vida.

Aqui, é importante ressaltar que o problema não está no valor pago, mas na falta de um contrato e na possibilidade de interpretações equivocadas. A 7ª Tradição não proíbe doações, ─ ou melhor, contribuições ─, mas recomenda que os grupos sejam "absolutamente autossustentáveis", ou seja, que dependam apenas de seus próprios recursos, sem criar vínculos que possam comprometer sua independência e neutralidade.

E é justamente aqui que a tradução da palavra "self-supporting" como "autossuficiência" se mostra inadequada. No original, o termo "self-supporting" significa "autossustentável", ou seja, capaz de se manter com seus próprios recursos. Já "autossuficiência" carrega uma conotação de independência total, uma sutil oportunidade ou brecha que descamba para tendência a seguir nesse nosso artigo, algo que vai contra os princípios de A.A., que pregam a prudência e a dependência de um Deus, na forma em que O concebemos.

No entanto, a má compreensão desse princípio tem levado a práticas ainda mais preocupantes. Aqui na Área 01, no Rio de Janeiro, por exemplo, alguns grupos têm levado a ideia de autossuficiência ao pé da letra, adquirindo propriedades por meio de compra ou construção de um imóvel. Essa tendência, embora bem-intencionada, é um erro colossal. Nossos princípios recomendam maiores cuidados com propriedade, prestígio e poder, melhor seria nos abster desse tipo de empreendimento, e os motivos são óbvios: quem será o dono do imóvel? Em nome de qual membro do grupo ficará registrado? Afinal, somos todos donos, mas não há como dividir legalmente uma propriedade entre todos os membros de um grupo. 
Em A.A., costumamos dizer que a 7ª Tradição é o momento em que o material se une ao espiritual, com o espiritual prevalecendo. A autossustentação financeira dos grupos não é um fim em si mesma, mas um meio para garantir que possamos cumprir nossa missão primordial: levar a mensagem de recuperação ao alcoólico que ainda sofre.
A 5ª Tradição, que nos lembra; mantenhamos o foco em nossa missão primordial. Acaba sendo relegada ao último plano. Em vez de nos concentrarmos em levar a mensagem de recuperação, nos vemos envolvidos em disputas por propriedades, questões legais e administrativas que nada têm a ver com o propósito de um Grupo. Nosso sustento deve vir de contribuições voluntárias e anônimas, e, preferencialmente, estabelecendo contratos de aluguel para nossos espaços de recuperação. Que por sinal, uma atribuição que deveria ser destinada aos ELSs ou Intergrupais em favor dos Grupos.

Caro leitor, caso ainda não tenha se dado por satisfeito; Bill W., cofundador de A.A., foi cuidadoso ao escolher suas palavras. Ele, desejou comunicar-se conosco, evitando, o máximo possível, as dúvidas que as palavras possam promover para o bom funcionamento de toda essa engenharia que Alcoólicos Anônimos verdadeiramente é. No texto do primeiro passo, ele usa o termo "self-sufficiency" (autossuficiência) para descrever como o álcool nos esvazia de toda autossuficiência. Ou seja, ele reconhece que a autossuficiência é uma ilusão para nós, alcoólicos. No entanto, nas Tradições, ele opta por "self-supporting" (autossustentável), um termo que reflete a necessidade de os grupos se manterem financeiramente independentes, mas sempre contando com o apoio mútuo e a orientação de um Deus Amantíssimo. 

Portanto, a correção da tradução da 7ª Tradição não é uma mera questão semântica, mas uma necessidade para preservar a integridade do programa. Onde se lê "autossuficiência", deveria estar escrito "autossustentável", como no original. Essa mudança não apenas evitaria mal-entendidos, mas também reforçaria a ideia de que, em A.A., dependemos uns dos outros e de um Poder Superior, nunca de nós mesmos.
Mesmo que a 7a Tradição só se refira a questões materiais, e pudesse caber a palavra "autossuficiência" para esse aspecto, fica claro, para mim, que nada é mais inapropriado. Na verdade, a autossuficiência para nós, alcoólicos, é perniciosa e vai de encontro aos nossos princípios espirituais.
Só por agora, a autossuficiência, para nós, alcoólicos, é totalmente perniciosa. Ela nos leva a acreditar que podemos vencer a dependência do álcool sozinhos, ignorando a necessidade da ajuda mútua e externa. Pretendemos não mais buscá-la em nossas vidas, individuais ou coletivas, e, por isso mesmo, é que devemos abolir qualquer menção inadequada em nossos textos ou registros. Nos é revelado, por A.A., que existe uma forma de dependência nunca por nós experimentada, e quanto mais dependentes de Deus, mais livres nos tornamos. Esse paradoxo é a essência do programa de A.A., e é por isso que a correção da tradução da 7ª Tradição é tão importante. Este mesmo princípio se estende e é verificado nas nossas relações de serviços com os nossos custódios não alcoólicos, profissionais e amigos de A.A., funcionários, que cumprem seus papéis de grande valor, e, sobretudo, de Deus.

Agora, o que realmente o nosso cofundador quis nos oferecer como princípio em nossas tradições e especialmente nesta? 
─ Para mim, resultado precioso do exercício da humildade junto a responsabilidade, desejando que a 7ª Tradição se manifeste com total sabedoria e força, dizendo:
“Todos os grupos de A.A. devem ser absolutamente AUTOSSUSTENTÁVEIS, rejeitando quaisquer doações de fora."
Estabelecendo por princípio em A.A. a virtude da pobreza, para nós, pobreza coletiva. Algo tão temido e mal compreendido por todos nesse mundo. Ao abraçarmos tal virtude coletivamente — mantendo apenas o necessário para nossa existência e longevidade —, nos libertamos das amarras do materialismo e nos aproximamos de um ideal em nossa irmandade: crescer espiritualmente e ajudar outros a encontrar a sobriedade.

Que lição! 
Não acumulamos, só precisamos de fundo de reserva prudente, ou seja, só o necessário.

Um viva bem sonoro aos 70 anos de A.A no Brasil. Recuperando vidas! 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Um Conceito para Amar

meninos no bueiro do metrô

                O amor não é um mero sentimento de prazer, nem uma espécie de sentimento superior isolado. Pode uma pessoa amar em grau máximo a um ser, digamos: Deus; muito embora siga outra escala de valores com as pessoas de suas relações. Está é uma tendência instintiva, embora sublimada. O amor humano costuma ser exclusivista e possessivo, como um meio de expressão de união – como geralmente acontece no matrimônio – que quase sempre, de acordo com a experiência social. Mas amor não é sensualidade apenas. O amor verdadeiro sugere o companheirismo, criando e garantido valores permanentes, psíquica e espiritualmente saudáveis, comportando, naturalmente, diferentes variações individuais.
         Amor e respeito não se excluem – são antes dois aspectos de uma mesma atitude fundamental do ser TEOPSICOSSOMÁTICO. Todo amor genuíno é inato, orientado por um Poder Supremo e, portanto, requer respeito. Segundo a concepção cristã “DEUS É AMOR”.
Amor é uma força dinamizadora que cria valores. É a força primordial do espírito. É uma atitude voluntária, absolutamente, positiva em que se busca a união de almas através da reciprocidade. Tira do seu isolamento as personalidades arredias, levando-se as participar das várias formas de convívio da comunidade humana. Deve ser vivenciado espontaneamente – de forma alguma forçado – seus raios vibratórios difundem-se pela vida afetiva, portanto, emocional, das pessoas.
          Não se pode amar por preceito. O amor não se impõe, brota espontaneamente, mas deve ser cultivado.
         O amor e inerente ao ser humano; da sentido a vida. O preceito cristão de amar o próximo é um ensinamento que não comporta exceção. Sem amor a pessoa não SUBSISTE, embora possa até SOBREVIVER. O amor abarca tudo e todos.
         O amor a si próprio não se opõe ao amor a Deus e ao próximo antes os pressupõem; não é egoísmo. Já o egocentrismo, amor centrado, exclusivamente, em si mesmo e tão nocivo quanto a dedicação ou a compaixão exagerada pelos outros. O amor deve fomentar ações recíprocas  e comedidas entre as pessoas.
         Existem inúmeros recursos para o exercício e cultivo do amor entre os quais destacamos:
         - afeto; comunicação; interesse; amizade; compromisso; relacionamento; brandura; amabilidade; firmeza; delicadeza; ternura; afeição; zelo; dedicação; devoção; benquerença; constância; estima; atenção; simpatia; carinho; admiração; alegria; receptividade; reciprocidade; aceitação; compreensão; tolerância; paciência; calor; adoração; auxílio; ajuda; cortesia; altruísmo; compaixão; compaixão; complacência; docilidade; fervor; saudação; intimidade; colaboração; congraçamento; afabilidade; abraço; toque; gentilezas; participação; visita; piedade; gratidão; correspondência; telefonema; sacrifício; atração; afinidade; elogios; coleguismo; devotamento; veneração; caridade; sinceridade; honestidade; fidelidade; autenticidade; agrados; fineza; reverência; intersexualidade; humildade; cuidado; beleza; perfeição; felicidade; e outros mais...
         O amor abrange uma vasta gama de relações interpessoais, mas também, nos liga a coisas, ideias e a toda sorte de realizações. É uma força unitiva e harmonizadora do indivíduo com tudo que o cerca.
         Amar é espiritualizar a existência e dar consistência à vida. Amor é vida plenamente vivida, e felicidade é o prazer de viver amando.
         Compromisso, atenção e interesse por alguma coisa ou por alguém é AMOR. Tudo que se faz com desvelo e dedicação é certamente um ato de AMOR. Muitas pessoas têm ideias confusas em relação ao que seja AMOR. Mas AMAR é servir e trabalhar alegremente. Todo esforço pra se fazer o melhor por aquilo que se ama, podemos estar certos, é AMOR VERDADEIRO!
por Nelson F.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Nada Acontece por Acaso

junaab, revista vivência, aa.org.br

Todo efeito tem uma causa. Tudo neste mundo é instável; estando em constante transformação; nada se processa por acaso. Todas as manifestações da natureza estão sujeitas à lei de causa e efeito, pois tudo que existe é efeito de uma causa anterior e todo passado está contido no presente, determinando-o, do mesmo modo que, o presente resume o passado e contém em potencial o futuro.
         Desta forma, estamos sempre em face de um processo de transformação e vivemos exatamente no tipo de mundo que criamos e, consequentemente, que merecemos. Somos o que sentimos, o que pensamos, e o que fazemos, o dia inteiro.
         Nossa mente através dos tempos adquiriu o hábito de defender e proteger o próprio Ego, criando uma forma de segurança egoística em todos os setores de nossa vida física, mental, afetiva, intelectual, social e econômica; segurança essa fundamentada em preceitos, credos, teorias, sistemas filosóficos ou científicos, etc.. Essa suposta segurança forjada desta maneira nada significa, como tal, pelo contrário, limitando-o a condicionamentos que lhe impedem a livre assimilação das transformações em curso. É imprescindível que nos disponhamos a receber o novo ou desconhecido sem pretender amolda-lo, ou ajustá-lo aos condicionamentos do passado, ou seja, é imprescindível que soltemos as rédeas porque além de seres humanos, somos, sobretudo, seres espirituais e devemos deixar curso livre ao sopro do espírito que se manifeste onde lhe apraz.
         O apego às coisas do passado; às velhas ideias; as teses preferidas e aos conceitos prediletos (pró-conceitos), revela uma mente fechada e preconceituosa; condicionada ao tempo e jamais dentro do tempo. Só quando a pessoa se liberta de toda e qualquer pretensa segurança egoística, o pensamento poderá ser criador, e chegar a ser livre; possibilitando-lhe pensar, sentir e agir corretamente.

         A pessoa mental e emocionalmente tranquila observa meditando; não se conflita; percebe o novo; participa da mudança e pode chegar à sabedoria.
por Nelson Farias

sexta-feira, 14 de março de 2014

Aceitação no Pensar e Sentir

alcoólicos anônimos junaab, revista vivência, aa.org.br

Aceitar é muito mais profundo de que Admitir, muitas pessoas admitirão pelo intelecto, que têm problemas e precisam de ajuda; algumas admitirão até mesmo que estão doentes. Mas enquanto não aceitarem tais fatos num plano emocional não se recuperarão. Isso pode parecer estranho, mas a experiência comprova-o na prática.
Você já deve ter ouvido dizer muitas vezes: Sei que estou errado, mas ainda sinto que estou certo. É um enorme paradoxo? É, mas acontece, que: as emoções são muito diferentes da intelectualidade. É, sem dúvida, possível sentir-se de uma forma e pensar-se de outra.
GROVER B. (Co-Fundador de Neuróticos Anônimos), falou dessa sensação a um psiquiatra, assombrado pelo fato de que uma pessoa pudesse chegar a tal extremo em matéria de emoções, negando o próprio intelecto.
Portanto, é da aceitação emocional que estamos falando, o intelecto talvez diga:

- Sei que estou doente.

Enquanto isso, porém, as emoções dizem:

- Estou bem

Precisamos aceitar nossa enfermidade tanto emocional quanto intelectualmente. Isto porque, é a aceitação Emocional que resolve o caso, já que são as nossas emoções que estão doentes, não o nosso intelecto. A mente está perfeita e o intelecto funciona normalmente. Com a compreensão emocional, vamos, portanto, à raiz do problema.
Essa diferença entre intelecto e emoções explica em grande parte a resistência observada na psiquiatria no plano intelectual, mas não no plano emocional. Quantas vezes dissemos: “Concordamos com o Senhor, mas ....”
Aliás, na maioria dos casos, sabíamos distinguir o certo do errado, porém agíamos efetivamente de maneira errada.

- Compulsão?

- Subjugação!

Mas de qualquer forma estávamos fazendo algo por força das emoções, que era contra a nossa maneira de pensar.
Por Nelson Farias

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Nós somos o Problema! - Mudança de Vida

Clínicas de recuperação Álcool e drogas

Por Nelson Farias

A mudança não pode ser uma continuidade modificada; um remendo; um quebra galho. Estes expedientes são meros paliativos e não nos recupera do sofrimento mental e emocional.

É muito fácil criar, aleatoriamente, padrões de comportamentos, o difícil é pensar em profundidade nos conflitos emocionais que vão aflorando e perceber com clareza o problema deles decorrentes. Na maioria das vezes, ficamos obsessivamente concentrados na busca de sua solução, e não no problema em si, ou seja, ficamos buscando respostas, sem nos concentrarmos, realmente, no cerne da questão que nos aflige. É da mais alta importância compreender o processo psicológico envolvido no problema. No momento, perceber as emoções que estão se manifestando, é muito mais importante do que preocupação com o problema que está em curso e que costuma ser de certa complexidade, faremos nascer à solução. O que nos cabe fazer é estudar de forma inteligente e sabiamente o processo, e perceber as suas causas, que, sem dúvida nenhuma, não estão nas circunstâncias exteriores, mas em nós mesmos e promover a mudança condizente. De uma maneira geral o problema, como foi dito, somos nós mesmos.

A grande dificuldade, no caso, é que ninguém nos pode ajudar a compreender o que se passa conosco há não ser nós mesmos. O problema não existe independente do processo individual que lhe deu origem.  Esta é a primeira verdade que se deve compreender. Em decorrência cabe-nos promover uma radical transformação de antigos conceitos e trocar de hábitos individuais obsoletos.

Quando há verdadeira intenção de nos conhecermos como, realmente somos, evidentemente, o conhecimento e as experiências alheias nada representam para seu caso específico e às suas tendências negativas, necessito saber o que sou, e não o que os outros são, ou acham que eu deveria ser. Um “eu” hipotético fruto de racionalizações nada representam. Temos que nos estudar a nós mesmos, independentemente, das opiniões alheias, por melhores que sejam.  Só assim estreamos em condições de analisar, todo processo de cada pensamento e de cada emoção presentes em nós, assim começar a compreendê-los. Para verificar se sou algo mais do que um simples produto de influências ambientais, preciso primeiramente, liberta-me das influências que me rodeiam. Se a mente está absorvida pelas influências externas, ela não pode ir além; não pode perceber ou descobrir suas riquezas internas. Só podemos perceber a verdade da vida, desvencilhando-nos dos preconceitos, crenças, ou de outras ideias preconcebidas. Espera-se que todos percebamos o alcance e a importância desta verdade.

Ninguém tem acesso à sua compreensão através de outrem; porque a compreensão; a verdade referente a qualquer questão, só pode ser investigada examinada e sentida pela própria pessoa. Cada qual tem de examiná-la, com muita atenção, por si mesmo. Não se trata do caso de simplesmente aceitá-la ou rejeitá-la, mas de examiná-la em profundidade e isso requer muita energia, compreensão e amor.
Energia é força organizada, equilibrada, e poucas pessoas se esforçam em desenvolvê-la. Não é fácil aceitar essa realidade. Precisamos desenvolver tal energia que transformará as estruturas do nosso viver, pensar e sentir.

E, para nos beneficiarmos dessa energia, temos de nos conscientizar da inércia à qual tão ocultamente todos nós nos entregamos, ou seja, da falta de energia intrínseca, inerente a todo ser humano. Não estamos nos referindo à preguiça e sim à inércia em que mergulhamos, quando nossa mente está embolada e ficamos remoendo pensamentos negativos, isto é, referimos-nos a falta de energia para atuar, tão profunda e sutilmente oculta em nós, a inércia, resultante do acúmulo de ações não realizadas.

Adquirir uma técnica pessoal para frustrar tal processo doentio requer tempo e dedicação e muito amor à vida, a uma vida prazerosa e que vale apena se vivida, apesar de todas as dificuldades a ela inerentes e, sobretudo, devido a essas próprias dificuldades que passarão a funcionar como molas propulsoras de nosso dinamismo adormecido. Requer, também, tentativas experimentais, constantes, no sentido de se tentar desobstruir a mente de seus conflitos para se perceber o desenrolar de todo o processo. É de vital importância livrarmo-nos do medo e da insegurança, já que estes favorecem a inércia, mesmo que aparentemente nos mostremos razoavelmente ativos. Isto se passa com todos nós a toda hora. Todo o nosso pensar medroso estimula a inércia. Trata-se de um processo psicológico de que nos podemos dar conta a todo o momento.

Que fazer? Como podemos vencer a inércia? Em primeiro lugar, temos que estar conscientes dela. Não basta racionalizarmos esse fato, pois isso em nada nos ajudará. Ao perceber esse estado a mente poderá passar a um novo esquema através de conceitos, conhecimentos próprios e de novas informações adquiridas por experiências próprias. Essa nova visão constitui uma tomada de consciência para a ação. Meditemos pacientemente esse processo e deixemos fluir a solução projetada por nossa mente da qual participam naturalmente, o cérebro e, também, o corpo. Nesse contexto a mente mantém-se serena e silenciosa. Trata-se de um novo estado de consciência, em que não há sombras de dúvidas; em que tudo fica claro e evidente (clarividência). Desse processo nasce uma ação, totalmente diferente e livre de conflitos, confusões, perturbações... Funcionando agora no mundo do conhecido, a mente passa com que por uma mutação. Nasce uma nova mente. Este processo não é assim fantasticamente difícil como parece ser, basta que abandonemos as velhas ideias; os velhos hábitos doentios. Ao despertar-se para a clarividência, ocorre, pois, uma ação totalmente diversa da elaboração antiga. A mente torna-se vigorosa, fecunda, jovem, forte e sadia.

Quem quer que deseje descobrir uma vida nova, uma nova maneira de viver, deve investigar, pesquisar, aprender esse poder de renascer, que torna a mente sobremodo alerta sem pontos obscuros e sem compulsões doentias. Desabrochar-se uma ação inerente à própria pessoa: Energia Espiritual. A partir de então, a vida, o viver de cada dia, provém dessa Energia e não da inércia. Essa é uma mutação que qualquer pessoa pode alcançar. De outra forma prosseguirá numa existência sem outro significado, que não seja o sofrimento, aflição, o descontrole e a infelicidade.