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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

A Essência e a Aparência: Serviço e Grupos em Alcoólicos Anônimos

No cenário de Alcoólicos Anônimos no Brasil, observamos uma cultura enraizada de supervalorização do Serviço — o 3º Legado — em detrimento da importância fundamental dos grupos. Essa tendência contraria a lógica prestadora de serviços e apoio que está no cerne da nossa Nona Tradição. Para entender essa dinâmica, precisamos distinguir entre a essência e a aparência de A.A., especialmente no que diz respeito à organização e à representatividade.

A Nona Tradição afirma: "A.A. nunca deve ser organizada; mas podemos criar comissões ou conselhos de serviço diretamente responsáveis perante aqueles a quem servem." Esse princípio deixa claro que, embora existam estruturas organizadas (como comitês, juntas ou conselhos), elas não são a essência de A.A. — são apenas ferramentas de serviço criadas para apoiar os grupos, que são o verdadeiro coração da irmandade.

A Essência: Os Grupos

Os grupos são a base de A.A. Eles são autônomos, independentes e têm um único propósito primordial: levar a mensagem ao alcoólico que ainda sofre (Quinta Tradição). É nos grupos que a magia de A.A. acontece — onde os membros se reúnem, compartilham suas experiências, forças e esperanças, e ajudam uns aos outros a manter a sobriedade. Sem os grupos, A.A. não existiria.

A Aparência: O Serviço Organizado

O Serviço, por sua vez, é uma estrutura organizada que surge das necessidades dos grupos. Comitês, juntas e conselhos são criados para facilitar a comunicação, coordenar eventos, distribuir literatura e garantir que os grupos tenham o apoio necessário para cumprir sua missão. No entanto, essas estruturas são apenas representações de A.A., não a sua essência. Elas existem para servir os grupos, não para governá-los ou substituí-los.

A Dedução Óbvia

Se Alcoólicos Anônimos jamais deve se organizar, mas cria comitês organizados, então, por dedução óbvia, esses comitês, juntas ou conselhos são apenas representatividades de A.A., não a sua essência. Eles são ferramentas úteis, que devem ser combinadas ao propósito primordial da Irmandade. Quando essa distinção se perde entre a essência e a aparência, corremos o risco de supervalorizar o Serviço e negligenciar os grupos, invertendo a lógica que sustenta nossa tradição.

O Desafio Cultural no Brasil

No contexto brasileiro, essa inversão parece estar bastante enraizada. Muitos membros acabam vendo o Serviço como um fim em si mesmo, buscando status, reconhecimento ou poder dentro das estruturas organizadas. Esse comportamento contraria os princípios de coperatividade, igualdade e o serviço ao desgraçad@ que ignora o seu alcolismo e a solução de A.A. Para reverter essa tendência, precisamos reforçar a importância dos grupos e lembrar que o Serviço existe apenas para apoiá-los, nunca para substituí-los.

Conclusão

A essência de Alcoólicos Anônimos está nos grupos, onde a ajuda mútua e o compartilhamento acontecem. O Serviço organizado é apenas uma aparência, uma representatividade criada para facilitar o trabalho dos grupos. Quando entendemos essa distinção, podemos evitar a supervalorização do Serviço e garantir que A.A. continue cumprindo seu propósito primordial: ajudar alcoólico que ainda sofre a encontrar a sobriedade. Afinal, como diz a Nona Tradição, A.A. nunca deve ser organizado — mas pode (e deve) ser servido.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Os livros fundamentais de Alcoólicos Anônimos

 Livro: Os doze passos e as doze tradições de Alcoólicos Anônimos

Salve, salve, companheirada..!

Agradeço ao Companheiro Francisco pelas imagens do nosso acervo intelectual, um tesouro que pertence à humanidade. Esses livros não são apenas papel e tinta; são a diferença entre a vida e a morte para o verdadeiro alcoólico. Eles carregam a sabedoria de quem já caminhou pela escuridão e encontrou a luz. E, no entanto, no Brasil, esse patrimônio inestimável foi sequestrado por uma lógica mercantilista que envergonha os princípios que deveriam nortear nossa irmandade.

JUNAAB e o Poder Legal
Usurparam nosso patrimônio intelectual. Sim, usurparam. Transformaram um bem coletivo, que deveria ser acessível a todos, em uma mercadoria. Enquanto milhares de alcoólicos desesperados lutam para encontrar um sentido para suas vidas, nossos livros fundamentais são vendidos como produtos em prateleiras, inacessíveis para muitos em um país tão desigual como o nosso. Isso não é apenas um desvio de propósito; é uma traição aos princípios de AA.

Nosso desenho original, estabelecido por Bill W. e Dr. Bob, é claro: o autossustento. Recuperamo-nos para, então, assumir a responsabilidade por nossa existência coletiva. Nossa estrutura deve ser mantida por doações voluntárias e anônimas, não pela exploração comercial de um patrimônio que pertence a todos. Taxar esses livros com fins lucrativos é imoral. É elitizar o acesso a uma mensagem que deveria ser universal. É negar esperança a quem mais precisa.

Mas vamos além. Existem dois poderes em AA: o poder legal e o poder tradicional. O poder legal, representado por entidades como a JUNAAB, deve ser subsidiado majoritariamente pelas contribuições voluntárias do poder tradicional — os grupos e seus membros, que são a verdadeira força motriz de nossa irmandade. No entanto, entre 2014 e 2015, o poder legal se instalou em uma propriedade alugada no bairro do Tatuapé, em São Paulo, a um custo que foge completamente da nossa realidade arrecadatória. Uma máquina superestimada, que nos oferece um serviço subestimado. E o resultado? Uma política de preços das nossas obras completamente comprometedora.

A lógica, a grosso modo, é essa: viver de aparências. É como ter um dono de uma Mercedes-Benz na garagem de casa, mas sem poder tirá-la de lá porque o cartão de crédito tem o limite de um trabalhador operário de fábrica. É um absurdo. Enquanto isso, nossos livros, que deveriam ser reproduzidos com um lucro mínimo apenas para garantir sua continuidade e manutenção, são vendidos a preços que excluem aqueles que mais precisam.

E o que fazemos? Nossos livros ficam fechados, negligenciados, esquecidos. A maioria dos veteranos e grupos parece ter se acomodado a essa realidade. Nos últimos dez anos, vimos algumas mudanças, mas são lentas, insuficientes. Em AA, o bom sempre foi inimigo do melhor. E enquanto nos contentamos com o mínimo, a mensagem libertadora dos livros fundamentais — sim, estou falando de "Alcoólicos Anônimos" e "Os Doze Passos e as Doze Tradições", não do "Viver Sóbrio" — continua distante da maioria. A leitura, quando existe, é superficial. A compreensão, débil. E assim seguimos, distantes do ideal que Bill W. vivenciou naquela cozinha humilde, ao lado de seu padrinho Ebby T., que lhe transmitiu a mensagem dos Grupos Oxford. Esse relato histórico, descrito por Bill W. no último parágrafo do primeiro capítulo de "Alcoólicos Anônimos", é um testemunho poderoso de como a recuperação começa com a partilha desinteressada de uma mensagem de esperança.

Mas eu digo: chega. Chega de negligência. Chega de comodismo. Chega de permitir que um patrimônio que é nosso seja explorado por interesses que não são os nossos. É hora de colocar essa locomotiva nos trilhos. Uma nova geração está chegando, cheia de brilho e sede de sentido. Eles merecem mais do que migalhas. Merecem acesso pleno à mensagem que pode salvar suas vidas.

Não se iludam: a mudança começa conosco. Precisamos estudar, compreender e aplicar os livros fundamentais em nossas vidas. Precisamos exigir que nosso patrimônio seja tratado com o respeito que merece. E, acima de tudo, precisamos honrar o legado de nossos precursores, garantindo que a mensagem de AA seja acessível a todos, sem distinção. Porque, no fim das contas, não se trata apenas de livros. Trata-se de vidas. E vidas não têm preço.

sábado, 10 de outubro de 2020

5ª Tradição de Alcoólicos Anônimos

Somos todos a Quinta Tradição em Alcoólicos Anônimos

Somente com uma compreensão vigorosa em razão da lógica de nossos princípios, poderemos extrair um melhor entendimento na construção de nossos destinos como sociedade e como indivíduos superando os insistentes atavismos tão nocivos para o alcance de nosso único objetivo: “cada grupo é animado de um único propósito primordial ─ o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre”.

Vamos partir do pressuposto que tudo se inicia no grupo. Tudo! O tradicional em nossa estrutura é parte espiritual que individualizada nos grupos, tem responsabilidade fim ─ ANIMAR-SE na TRANSMISSÃO de SUA mensagem ao alcoólico que ainda sofre.

Então, confirmamos, a única autoridade na transmissão da mensagem de Alcoólicos Anônimos são os grupos. Essa prerrogativa só cabe a eles, quero dizer, ao tradicional. Lembre-se em ter essa observação muito clara em nossas mentes para prosseguirmos com a leitura e sua conclusão.

ÂNIMO

Animar-se seria o mesmo que estar motivado e consciente do seu papel e responsabilidade em sua comunidade. Se cultivarmos essa prioridade tão explicita em nossos grupos, impregnando seus membros e o ambiente com esta decisão, a intenção que os conduzirá de seus lares aos seus respectivos grupos, para além do encontro fraternal com companheiros de jornada, nada tão legítimo, seria o movimento em proporcionar e facilitar a construção e a permanência de um Comitê Trabalhando com Outros, vivo, em seus espaços. Tal movimento deve ter a maior relevância nos grupos. Estar sempre em primeiro plano.

Mas não! Isso não ocorre invariavelmente.

Dessa maneira poderíamos, eventualmente, nos dar até ao luxo, nesses mesmos espaços, de ceder lugar ao comportamento de Club, com o famigerado bolo e guaraná. Só para quebrar a rotina, sem prejuízos ou desvios de nosso propósito único e primordial. Estaríamos em dia com os nossos deveres e por isso tranquilos.

Isso se deve, a meu ver, pela falta de esforços ─ não digo rigor ─ individuais e coletivos no tratamento de nossas experiências legadas em nossos livros fundamentais. Por que não o rigor? O rigor em nosso caso nos mataria! Mesmo porque, nossas tradições nos advertem que não devemos exigir nada de quem quer que seja.

Somos plenos no exercício da liberdade e responsáveis pelas consequências da mesma. É uma questão de justiça! Aprendemos esta lição desde do primeiro dia que aqui chegamos. Existe uma lógica por trás desta experiência universal fundamentada em nosso meio ─ um valor ─. Esse princípio é norteador em quaisquer circunstâncias ou contexto dentro do A.A. e, mesmo fora, em nossas vidas pessoais. O CTO e suas comissões se submetem a essa mesma lógica Divina. Talvez aqui se justifique o rigor quando absorvemos em nossos corações e mentes o compromisso com outro. Uma revolução!

Tratarei deste assunto com mais propriedade e profundidade num próximo artigo acerca da nossa 1ª tradição. 

Vamos continuar nossa conversa com outra categoria que quando corroborado com a categoria anterior, fecha a questão.

TRANSMISSÃO

A categoria transmissão: atribuir algo a outrem; ato ou efeito de transmitir; contágio: capaz de contagiar, de influir no comportamento de alguém; que se espalha de uma pessoa para outra, de um lugar para outro; inoculação: [Figurado] transmissão, propagação de ideias, opiniões, doutrinas, ideologias...

O processo de recuperação individual e até mesmo coletivo, se dá em longo prazo, amorosamente, pacientemente e com firmeza nas ações. Ora, os 12 passos, nada mais é do que um plano de ação, o nosso método de recuperação do alcoolismo contido no programa de A.A..

Uma atmosfera propícia, isto é, protetora, encorajadora e fraterna, deve reinar em nossos grupos a todo custo e é nesse sentido que há inúmeras recomendações incentivando o silenciar de nossas personalidades em benefício do coletivo. Não quer dizer que não haja divergências, discussões e desacordos. Não é isso! Sabemos que na nossa diversidade reside uma grande força. Contudo, sabemos que os temas particulares ou domésticos não cabem nesses espaços, ou pelo menos, não deveriam ser estimulados por uma maioria de membros recuperados e maduros. São conteúdos altamente explosivos.

“Lembre-se do Irlandês rubicundo ─ aquele das bochechas coradas ─ e a noção de sobriedade vendida por seu padrinho”.

Já as divergências e os debates, até mesmo acalorados, em torno da nossa 5ª tradição, são bem-vindos e positivamente apreciados. É a natureza de um grupo de Alcoólicos Anônimos num movimento genuíno e próprio. Na razão de nossa existência haverá sempre o bom combate objetivando o seu aperfeiçoamento na direção do alcoólico que ainda sofre do alcoolismo. Tudo estará bem e garantido por nosso bom Deus.

Bem, é nesse sentido que a transmissão de nossos princípios e experiências se faz ao enfermiço candidato recuperar-se do alcoolismo e a se tornar um membro consciencioso de suas responsabilidades, ativo na manutenção de nossa chama. Tudo acontece por contágio, por aproximação, persuasão pelo fazer, não mais pela efêmera fala em cabeceira de mesa enaltecendo suas credenciais de tempo e de encargo nos serviços de AA. Não violentamos ninguém impondo nossos valores ou vontades. Expectativas subjetivas de tempo não cabem no processo. O tempo agora é de DEUS.

Cinco, dez anos, e continuaremos sendo recém-chegados. Leva tempo para dar o primeiro passo por inteiro. Então, se apresse, porque caso contrário suas soluções aprendidas no mundo que nos corrompem diariamente naquilo que possuímos de mais humano, nos tornando doentes e apodrecidos, tenderemos importar para o nosso Eldorado acreditando ter inventado a roda, mas na verdade estaremos nos colocando em risco e a alguns outros. Não somos uma corporação, somos a utopia. Não cumprimos metas, não temos um checklist para preencher, regras nem pensar, padrões no agir, pensar e falar, nunca! Não somos profissionais e sim servidores, recuperados no sentido mais profundo, responsáveis e de confiança, contribuindo com aquilo que há de melhor e possível. Sem medalhas ou troféus de chocolate.

Como já havia nos dito o nosso querido Co-fundador Bill W., “tudo em A.A. já foi tentado nos seus primórdios”. Em verdade, a partir de uma compreensão profunda de nossos princípios, deveríamos exportar nossa maneira de viver e existir para o resto do mundo, e não o contrário. Mas esse, Graças a Deus, não é o nosso papel. Importante nos atermos somente às nossas chinelas.

PROPRIEDADE

A categoria seguinte trata-se do pronome possesivo “sua” referindo-se a cada grupo, a posse de uma mensagem própria na sua forma. 

─ Como assim?

─ Vou explicar:

Outra premissa prevista e garantida em nossas tradições, nesse caso a 4ª tradição, é o direito de cada grupo se manifestar como individualidade de um todo. Portanto, sendo assim, reconhecido como uma entidade espiritual que possui seus próprios recursos morais, possíveis e cabíveis, para a transmissão da “sua” mensagem. Ou seja, cada grupo é um conjunto vivo, orgânico, dinâmico, próprio em particularidades, que trabalha na atração do enfermiço de sua comunidade. Nunca falaremos em uniformidade, mas sempre em unidade de diferenças e semelhanças.

É fácil concluir que os grupos não podem ser iguais na sua forma. Os componentes que formam o seu conjunto, condicionalmente, estão atrelados aos aspectos socioculturais e econômicos da sua região e classe. Contudo, não são esses fatores determinantes, caso haja indivíduos que não atendam as mesmas condições da maioria. Não fracassarão em sua reabilitação só porque compartilham do mesmo espaço aparentemente estranho a eles. O problema aqui é o favorecimento através da identificação. Quanto mais pleno for esse quesito preenchido, ou seja, na maioria dos seus aspectos, o resultado será melhor. Há de convir que o conjunto dos elementos constitutivos num grupo de Ipanema não é o mesmo em Cascadura. O mesmo aconteceria a um companheiro esquimó, comedor de foca, lá no sertão da Bahia, por mais genial e acolhedor que seja o povo daquele estado.

A sensação de pertencimento é um valor importantíssimo e facilitador na chegada de qualquer alcoólico num grupo de AA. Esse acolhimento diário é a substância que só o grupo pode proporcionar. Essa sua essência, que não é a forma, é parte da sua natureza e a encontraremos em todos nossos grupos independentemente da sua localização. A identificação com o seu novo grupo é um fator fundamental para promover esse sujeito, adoecido e humilhado, a reiterar o seu compromisso consigo e o retorno no próximo dia a mais uma reunião.

Percebam a lógica em relação a localização de um grupo e o seu trabalho de relações públicas. São estabelecidos limites dentro de um perímetro para sua atuação, determinando sua comunidade como a única base na atração dos prováveis membros, recomendando a não ultrapassar seus limites fronteiriços com outra região. Esse conhecimento vai se consolidando tacitamente através das experiências dos anos e sendo incorporado a nossa estrutura como virtude ou recomendação. Temos que respeitar os esforços desses homens e mulheres que nos antecederam, não é mesmo?

São esses, em parte, os motivos não tão óbvios, que encarregam somente os grupos da responsabilidade de transmitir a recuperação do alcoolismo aos potenciais membros de nossa sociedade.

ESTRUTURA PARALELA

Dentro da estrutura de AA, todo o Serviço, em nosso organismo, subsidia a partir do seu descolamento daquilo que é essencial, os grupos, a formação do conjunto representativo ─ áreas e distritos ─ minimamente organizados e hierarquizados, e o Legal, até chegar na Conferência. Toda essa nossa engenharia da estrutura de serviços formam uma unidade que atende, em última análise, uma única premissa: a da comunicação entre grupos do mundo inteiro. O máximo que essa estrutura paralela se permite, é “levar” a mensagem a todos os cantos mundo. Isso é muito diferente que transmiti-la.

Fique bem claro que os Distritos, as Áreas, os ESLs, a JUNAAB, o Quartel General, em NY, até mesmo, os Comitês de CTO dos Grupos, não tem condições e nem recursos espirituais para efetivar essa transmissão. No máximo, prepararam ou lançam as iscas. É extremamente irresponsável estimular nesses quadros, a presença de recém-chegados sob alegação de qualquer natureza.

Acreditamos que com o passar do tempo, nossa sociedade amadurecida, consolidou por meio das experiências, sua vocação inata. Inicialmente tímida, até mesmo inconsciente, para mais adiante ser consagrada em nossas tradições no seu objetivo único e primeiro: a 5ª Tradição! 

Ficando claro que todo o movimento de Alcoólicos Anônimos objetiva o externo, o lado de fora! Enfim, toda a sociedade! 

Esse é o trabalho: alcançar o alcoólico que ainda sofre! Reiterando uma vigorosa premissa encontrada em nosso método de recuperação - nossos 12 passos. É o coroamento do nosso método! 

A solução de nossos terríveis dilemas e angústias estão no outro: em nossos espelhos que nos tornam cada vez mais humanos... 

O verdadeiro Amor só se realiza quando caminhamos em direção ao Outro. 

Então, sirva! 

É a nossa conclusão!

Aprendi uma dura lição nessa minha curta jornada em Alcoólicos Anônimos: a certeza de ser aquilo que devo ser, e não mais, aquilo que eu desejo ser. 

 

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Recuperado ou em Recuperação, o que diz o A.A.?

Recuperação em Alcoólicos Anônimos


Muitos membros, não apenas no Brasil, mas também em muitos outros lugares onde A.A. encontra-se presente, acrescentam inapropriadamente nas suas apresentações pessoais o termo: “ Fulano de tal qual… em recuperação”. Este “apêndice”, que nunca existiu, foi introduzido nos anos 70 do século passado, quando, após a promulgação da “Lei Hughes” ─ ver aqui outro post ─, os grupos de A.A. passaram a ser inundados por clientes das inúmeras clínicas de recuperação criadas para se aproveitar dos incentivos oferecidos por essa lei, introduzindo um tipo de linguagem na Irmandade que até hoje ainda não foi devidamente depurado, muitas vezes, à omissão, conivência ou até conveniência de que poderia fazê-lo. Nós! 

Esta expressão, em recuperação, sugere a fase existente quando da chegada do alcoólico ou alcoólica à Irmandade, mas que deve ser superada e passar à condição de recuperado(s) decorrido o tempo necessário para a libertação da obsessão e da compulsão ao se colocarem em prática os princípios sugeridos pela Irmandade, e esta é sua finalidade. 

Os membros de A.A. em sua maioria consideram que a doença do alcoolismo, uma vez instalada, não tem cura; mas os mecanismos que conduzem à sua continuidade podem ser detidos e a sanidade recuperada.


O que diz o Livro Alcoólicos Anônimos


Ao longo do Big Book  ─ Livro Alcoólicos Anônimos, Livro Azul no Brasil ─, a palavra recuperado(s) consta, pelo menos, 17 vezes, começando já pelo Prefácio à primeira edição em 1939 e em todas outras edições ─ “Nós, de Alcoólicos Anônimos, somos mais de cem homens e mulheres que nos recuperamos de uma aparentemente irremediável condição mental e física. Demonstrar a outros alcoólicos exatamente como nos recuperamos é o principal objetivo deste livro…” ─ e cujo texto “expõe os Passos e procedimentos sugeridos pela Irmandade que os membros iniciais acreditavam ser responsáveis por sua capacidade de superar a compulsão de beber”. 

Até os dias de hoje não houve qualquer motivo, evento ou descoberta, que sugerisse que o sentido desse texto devesse ser mudado. À época do lançamento do Livro, 10 de abril de 1939, o recuperado mais antigo, Bill W., tinha-se libertado da obsessão pela bebida de forma repentina durante sua última internação, havia quatro anos e quatro meses; já, o Dr. Bob precisou de mais de dois anos em abstinência para que essa libertação ocorresse e assim acontece até os dias de hoje; essa libertação, ou acordar espiritual, não tem um tempo cientificamente definido para acontecer e depende do esforço individual, ou, nas palavras do Dr. Bob em sua despedida, “Todos fizemos as mesmas coisas. Todos conseguimos os mesmos resultados em proporção direta ao nosso zelo, entusiasmo e capacidade de aderir”. Mesmo assim, poderá nunca acontecer. 

Aqui vai uma opinião pessoal: O mais simples, coerente e prudente, talvez, seja eliminar essas expressões, uma e outra, das nossas apresentações pessoais dentro da reuniões de A.A., a não ser que nesta mesma sala de reunião esteja ali a primeira visita de um provável membro ou interessado, ou nas inúmeras tarefas de CTO. Nesses casos, o termo RECUPERADO denota com precisão a razão de Alcoólicos Anônimos existir, não causando qualquer dúvida para quem nos assisti sem qualquer familiaridade sobre assunto alcoolismo e recuperação. 

Esse mesmo assunto é tratado de forma recorrente em nosso blog, devida sua importância, no artigo: "CTO, pelos caminhos do Livro Grande de Alcoólicos Anônimos"; E num outro artigo que fornece a sugestão de um roteiro para as tarefas de CTO intitulado "CTO de Alcoólicos Anônimos, lancemos as iscas somente!"

Argumentos importantes que precisam circular em nosso meio com toda força... Precisamos ser o mais claro possível com o alcoólico que ainda sofre e sensíveis ao ponto de eliminarmos as incoerências com a fonte que, a meu ver, a melhor das experiências. E aqui não se trata de preciosismo ou, simplesmente, querer polemizar, mas porque sabemos das responsabilidades e dificuldades em se atingir o indivíduo onde todos os seus instintos naturais gritam contra a ideia da impotência pessoal.    

*parte deste texto foi extraído de uma fonte não oficial.

Lei Hughes e Bob P. Alcoólicos Anônimos

Lei Hughes e Alcoólicos Anônimos

Saúdo-te e dou graças pela tua vida.



Em 1970 foi aprovada pelo Congresso dos EUA uma lei elaborada pelo senador Harold E. Hughes (1922 – 1996) que criava o Instituto Nacional para o Abuso do Álcool e do Alcoolismo (NIAAA), a PL91-616. Para a elaboração desta lei o senador Hughes ─ que tinha sido Governador do Estado de Iowa e seria candidato à presidência dos EUA, também era membro de A.A. desde 1952 em Ida Grove, Iowa ─ realizou audiências públicas entre os dias 23 e 25 de julho de 1969 das quais participaram entre outros, Marty Mann (1904 - 1980) - “a primeira dama de Alcoólicos Anônimos”, fundadora do Conselho Nacional para o Alcoolismo (ANC), e Bill W. co-fundador de A.A. Outros alcoólicos em recuperação foram convidados, mas não compareceram por considerar as audiências uma ameaça ao anonimato.


Esta lei oferecia subsídios e incentivos com dinheiro público para que os Estados desenvolvessem programas públicos e particulares criassem centros de tratamento para auxiliar as pessoas dependentes do alcoolismo. Atrás dessa mina de ouro correram centenas de investidores e profissionais das mais diversas áreas. Ficou ainda mais empolgante em 1974 quando o Congresso aprovou um aditivo àquela lei e criava o Conselho Nacional sobre Alcoolismo e Toxicodependência (NCADD).


Clínicas de recuperação para dependentes químicos


Muitos destes programas e centros de tratamento passaram a ser executados e dirigidos por pessoas e profissionais, psiquiatras e psicoterapeutas, sem a devida capacitação apenas visando o comercio, criando teorias a respeito do tratamento que eles consideravam o mais lucrativo, escrevendo livros e panfletos que vendiam a cura para o álcool e as drogas e, muitos deles ostensivamente hostis à Irmandade e ao programa de A.A.

Estas clinicas oportunistas criadas a toque de caixa foram atropelando as clinicas mais tradicionais para o tratamento sério do alcoolismo e outras dependências que contavam com profissionais especializados e capacitados para esse fim e eram conduzidas e administradas de maneira responsável.

Àquela altura a Irmandade já desfrutava de ampla aprovação da sociedade e seu modelo tinha sido usado como referência para a discussão da lei que tinha criado tudo aquilo, no sentido de indicar que o alcoolismo podia ser detido.

Então centenas de alcoólicos começaram a sair destes centros após uma lavagem cerebral feita por estes profissionais da saúde mental convencidos de que teriam uma recuperação satisfatória desde que seguissem aqueles procedimentos científicos. Muitos dos ingressos das clinicas não conseguindo a recuperação pelos ditos procedimentos científicos passaram a procurar a Irmandade, porém, levando consigo os livros, panfletos e modelo de tratamento desses centros e tratando de incorporá-los e sobrepô-los ao programa de A.A. e se apresentando unicamente como adictos mesmo também sendo alcoólicos e sustentando que o álcool era uma droga tal qual e que o programa se aplicava à sua condição ignorando propositadamente que o programa de A.A. se baseia em princípios universais, portanto utilizável por qualquer pessoa interessada, enquanto a Irmandade de A.A. foi criada unicamente para alcoólicos sem importar que, além dessa condição, sejam homens, mulheres, índios, esquimós, negros, brancos, esquizofrênicos, neuróticos, adictos a outras drogas, presidiários, obesos mórbidos, profissionais liberais, homossexuais, empregados, desempregados crentes, não-crentes etc.

Esta postura de confronto dos advindos das clinicas com as Tradições da Irmandade causou problemas imediatos.

Para enfrentar essa situação, a estratégia mais simples e fácil que muitos veteranos, tomados pelo medo e a insegurança (colocados acima por Bob Pearson), encontraram foi a de dizer que não se poderia ler nem discutir outro tipo de literatura que não a aprovada pela Conferência e a incitar e doutrinar os novos contra esse tipo de influência que por sua vez passaram a pressionar as Intergrupais e os próprios grupos a não distribuir nem vender nenhum outro tipo de literatura, incluindo ai a recomendada pelos veteranos e pioneiros, tais como “Vinte e Quatro Horas por Dia”, “O Sermão da Montanha”. “A Bíblia”, “O Pequeno Livro Vermelho” etc., reduzindo o programa de A.A. à interpretação dos escritos de uma única pessoa, no caso Bill W. e à vontade dos “donos” de Grupo.

Quanto aos declarados “cruzados”, Grupos começaram a recebê-los com reservas quando não animosidade, a fazer triagens e excluí-los dos Comitês de Serviço e a proibir-lhes falar de suas outras condições, revertendo uma situação que, até a chegada massiva de integrantes dessas clínicas com seus tratadores e seus investidores, era considerada pacífica e normal em boa parte dos Grupos, desde a chegada em 1944 do primeiro membro declaradamente homossexual e adicto além de negro, num pais escancaradamente racista, para tratar de seu problema com a bebida, o qual é o único propósito da Irmandade.

Essa situação, considerada até hoje a prova mais difícil que a Irmandade já passou, gerou preconceitos e desconforto nos Grupos a tal ponto que em 1978 o GSO, Escritório de Serviços Gerais, emitiu uma declaração oficial no seu Boletim, o Box 459, num chamamento ao bom senso à tolerância e à reflexão, Bob P. (1917-2008) que foi Gerente Geral do Escritório de Serviços Gerais (GSO), em Nova York, entre 1974 e 1984, deu uma poderosa e inspiradora palestra de encerramento da 36ª Conferência de Serviços Gerais em 26 de abril de 1986, no Hotel Roosevelt em Nova York e da qual seguem alguns excertos: “Esta é minha 18ª Conferência de Serviços Gerais ─ as duas primeiras como diretor da GRAPEVINE e AAWS (Serviços Mundiais de A.A.), seguidas de quatro como administrador de Serviços Gerais ─. Em 1972 desliguei-me completamente, até ser chamado de volta dois anos depois para servir como gerente geral do GSO, onde permaneci até o final de 1984. Desde a Convenção Internacional de 1985 tenho sido consultor sênior. Esta foi também a minha última conferência e, portanto, carregada de muita emoção.

Eu gostaria de ter tempo para expressar meus agradecimentos a todos que têm contribuído com a minha sobriedade e para a vida com alegria com que eu tenho sido abençoado ao longo dos últimos quase 25 anos. Mas como isto é obviamente impossível, vou voltar atrás lembrando um provérbio citado por Bill em sua última mensagem: ‘Saúdo-te e dou graças pela tua vida’. Pois sem suas vidas, eu certamente não teria tido a vida incrivelmente rica que eu desfrutei.

Deixe-me oferecer minhas ideias sobre o futuro do AA. Eu não acredito no alarme daqueles ‘resmungões’ que têm uma visão pessimista da Irmandade. Pelo contrário, da perspectiva de meu quase quarto de século em A.A., vejo a Irmandade maior, mais saudável, mais dinâmica e, de longe, com crescimento mais rápido, mais globalizado, mais consciencioso, mais simples, e mais espiritual do que quando participei da minha primeira reunião em Greenwich, Connecticut, em julho de 1961. A.A. floresceu para além dos sonhos dos membros fundadores.

Faço eco aqueles que sentem que, se a Irmandade um dia vier hesitar ou falhar, não será por causa de qualquer causa externa. Não, não será por causa de:
centros de tratamento
ou de profissionais da área,
ou da literatura não-aprovada pela conferência,
ou dos jovens,
ou dos portadores de dependências cruzadas,
nem até mesmo dos usuários de drogas tentando assistir às nossas reuniões.

Se nos mantivermos próximos às nossas Tradições e Garantias e se mantivermos a mente aberta e um coração aberto, podemos lidar com esses e outros problemas. Se vacilarmos, falharemos e isso será simplesmente por nossa culpa. Será porque não podemos controlar nossos próprios egos e porque somos incapazes de conviver bem uns com os outros. Será porque temos muito medo e insegurança, rigidez, falta de confiança e de senso comum.
Se você me perguntasse qual é o maior perigo enfrentado por A.A. hoje, eu teria que responder:
a rigidez crescente;
a demanda por respostas absolutas para minúcias;
a pressão sobre o GSO para ‘reforçar’ as nossas tradições;
a triagem de alcoólicos em reuniões;
a proibição de literatura não-aprovada pela Conferência;
o estabelecimento de mais e mais regras para controlar os grupos e seus membros.

Esta tendência à rigidez está nos afastando cada vez mais dos nossos membros fundadores. Bill, em particular, deve estar dando voltas em seu túmulo, pois ele foi talvez a pessoa mais permissiva que eu já conheci. Uma de suas frases preferidas era: ‘Cada grupo tem o direito de estar errado’. Ele era irritantemente tolerante com seus críticos, e ele tinha fé absoluta na capacidade de AA se autocorrigir.

Eu também acredito nisso; então, em última análise, não vamos desmoronar. Nós não iremos falhar ou fracassar. Na Convenção Internacional de 1970 em Miami, eu estava na plateia naquela manhã de domingo, quando Bill fez sua breve e última aparição pública. Ele, muito doente, estava internado no Hospital do Coração naquela cidade e os organizadores decidiram incluir uma rápida aparição no evento. Na manhã daquele domingo, ele foi levado ao palco em uma cadeira de rodas, com tubos ligados a um cilindro de oxigênio; vestindo um ridículo blazer laranja brilhante que o comitê anfitrião tinha arrumado, ele soltou seu corpo angular e quando agarrou o pódio a emoção tomou conta de todos. Eu pensei que os aplausos e gritos nunca iriam parar; as lágrimas escorrendo pelo rosto de todos. Finalmente, em uma voz firme, como o seu antigo eu, Bill falou algumas frases graciosas sobre a multidão enorme que incluía muitos membros vindos do exterior, terminando (como eu me lembro) com estas palavras: ‘Quando eu olho esta multidão, eu sei que Alcoólicos Anônimos vai viver mil anos - se for a vontade de Deus’.

Em decorrência dessa Lei, centenas de pessoas com problemas de adicção e alcoolismo começaram a procurar tratamento nessas clinicas e, sem saber o que fazer após o prazo de internação ou tratamento ambulatorial, era indicado a esses clientes que procurassem as salas de A.A., num momento em que NA passava por momentos de dificuldades internas. Esta situação pegou a maioria dos Grupos de surpresa e sem saber o que fazer para resguardar o propósito único da Irmandade, o de levar a mensagem unicamente a outro alcoólico, criaram regras extremamente rígidas para desestimular essas pessoas a procurar a Irmandade, mesmo as alcoólicas com outros problemas. A rigidez extremada e a intolerância tomaram conta de muitos Grupos. Esta situação foi tema e objeto de longos e aprofundados debates, entre os prioritários, de várias Conferências e muitas águas correram até que o bom senso, a tolerância e a harmonia dessem sinais de restabelecimento.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Alcoólicos Anônimos são quase 75 anos no Brasil

Robô da Junaab Alcoólicos Anônimos

São quase 75 anos de experiências no Brasil. Infelizmente, não temos muito que comemorar, dada a pouca eficiência de nossa sociedade de alcoólicos recuperados que teimam em seguir seu caminho apartado de sua importante Obra. Aquela legada em nossos livros. Experiências escritas que fazem toda diferença na boa compreensão em tudo aquilo que envolve o alcoólico, o alcoolismo, a recuperação e toda nossa sociedade Alcoólicos recuperados.

Segundo Alcoólicos Anônimos, a doença do alcoolismo é determinada, no indivíduo, por meio da combinação: obsessão aliada a compulsão. Um fator psíquico combinado a outro, orgânico: nós, os alcoólicos, desenvolvemos um tipo de reação alérgica ao ingerirmos a substância álcool, e, a partir daí, correremos o "risco" de gerar a compulsão. Diferente daquilo que muito se pensa, quantidade e a qualidade das bebidas não são os fatores que determinam a doença do alcoolismo.
Esclarecemos que Alcoólicos Anônimos não é uma sociedade antialcoólica. Não combatemos o uso do álcool, mas sim, reabilitamos, única e exclusivamente, o alcoólico que sofre. Nossa política de relações públicas junto à sociedade é estritamente informativo. Fornecemos informações sobre os aspectos do alcoolismo, extraídas de nossas próprias experiências, a fim de possibilitar ao alcoólico que ignora o seu alcoolismo uma possível identificação. Além disso, oferecemos nossa solução para uma boa recuperação. A única prevenção que realizamos visa a evitar um maior comprometimento do indivíduo já alcoólico em relação à doença, a partir do esclarecimento acerca de dois dos seus principais aspectos: a inexistência de uma cura reconhecida que impeça a progressão da doença e restabeleça a condição de bebedor social, quero dizer, retroceder a tal condição moderada. Essa sim seria a cura.
É importante mencionarmos que o conceito de doença, trabalhado por Alcoólicos Anônimos desde 1935, somente foi reconhecido e adotado oficialmente, pela OMS, 29 anos após o registro em seu livro grande, intitulado "Alcoólicos Anônimos", de 1939. Isso denota o caráter vanguardista de A.A., que perdura, até os dias de hoje, em todo o planeta.
É preciso dizer que, infelizmente, a maioria esmagadora de nossos membros desconhece em detalhes, ou não são capazes de descrever com total clareza, que Alcoólicos Anônimos possui um método para reabilitação da doença do alcoolismo, contido em seu programa de Recuperação, nossos Doze Passos. Método este cedido à diversas sociedades paralelas para cuidar de inúmeros transtornos ocasionados pelas neuroses do ego. Um método lógico, racional e revolucionário, que ainda insiste em permanecer na ponta, como solução definitiva para cuidar dos alcoólicos em convalescência, apesar dos seus 88 anos de existência. Lembramos sempre que nenhum dos seus membros fala "em nome de" A.A., mas, no máximo, "de" A.A.
As opiniões dos alcoólicos recuperados baseiam-se sempre na propriedade de suas experiências pessoais. Nossas experiências afirmam que precisamos encontrar uma nova maneira de viver, resultante do método para o alcance e manutenção da nossa sobriedade.
Uma VIDA que realmente nos agrada....

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

CTO de Alcoólicos Anônimos, lancemos as iscas somente!

Alcoólicos Anônimos e sua política de relações públicas

ROTEIRO SUGERIDO PARA ALCOÓLICOS ANÔNIMOS NOS TRABALHOS DA CIP


1 - Devemos, antes de tudo, nos colocar no lugar dos receptadores. Quero dizer, temos que ter a sensível medida de suas condições de ouvintes, leigos ou não, que em sua grande maioria desconhece por completo todo o conteúdo informativo que abordaremos na ocasião da CIP. Além do mais, temos que obstruir por meio de informações claras as barreiras naturais que se opõem ao propósito único dos nossos trabalhos, quais sejam: pré-conceitos, estigma, negação, desconhecimento, vergonha, equívocos, ironia.

2 - É necessário ganhar a confiança e a solicitude dos interessados logo no início do trabalho. Pensem: alguns desses ouvintes estão curiosos; muitos outros nos assistem contrariados ou com má vontade; e há os que estão ali de bom grado, esses já estão do nosso lado.

2.1 - Devemos nos apresentar com humildade, confiança e como alcoólicos RECUPERADOS ou como EX-BEBEDORES PROBLEMA. Não podemos oferecer dúvidas quanto a isso. Afirmar que há dez anos não bebemos e apesar de todo esse tempo continuamos em recuperação é, no mínimo, incoerente, contraditório e pavoroso. Não podemos deixar brechas desnecessárias para indagações e mais resistências.

IMPORTANTE: Diferenciarmos o apropriado no comportamento e nos objetivos das informações nas situações das comissões, diferentemente daquilo que se estabelece no espaço de um grupo diariamente. Vale a pena ressaltar que o caráter de todo e qualquer trabalho das comissões deverá sempre limitar-se ao informativo, evitando as intenções de caráter educativo ou preventivo. Nosso EIXO norteador de todo escopo deste roteiro é o papel estritamente informativo.

2.2 - É preciso dizer-lhes que estamos ali para solicitar sua ajuda e compreensão diante do nosso papel informativo e de relações públicas. Devemos confirmar que os integrantes da equipe não possuem qualquer qualidade oratória, que não somos profissionais, que estamos ali nos expondo por dever e responsabilidade quanto ao fornecimento ao maior número possível de interessados as mesmas informações que nos fizeram parar de beber. Que desejamos, na verdade, convencê-los a se tornarem potências difusoras de nossa mensagem ao alcoólico que ainda sofre. A única razão de nossa existência.

O 1° aspecto de nossas intenções: Alcançar o Alcoólico Indiretamente.

3 - Toda condução dos trabalhos deve ter como objetivo atingir nosso alvo, o alcoólico que ainda sofre, INDIRETAMENTE. Isso deve ficar bem estabelecido logo no início, pois não estamos ali para constranger ninguém. Nossa preocupação é abastecer os ouvintes com informações práticas que estejam ao alcance de todos; informações que os identifiquem com o provável alcoólico de suas relações. Comecemos afirmando que todos os presentes são conhecedores de alguém em suas famílias, no ambiente de trabalho, na vizinhança, ou quem sabe entre seus amigos, num grau distante ou próximo, que carregaram ou ainda carregam o drama do alcoolismo em suas vidas. Agindo assim, faremos se sentirem também um pouco responsáveis e cooperativos.

4 - "Garanto aos senhores e senhoras..." A atenção será obtida a partir daí. Cabe a nós, então, mantê-los interessados até o final dos trabalhos. Não precisamos repetir mecanicamente preâmbulo algum. Todo o preâmbulo será conferido junto ao escopo informativo do trabalho. Há alguns pontos do preâmbulo que só fazem sentido para nós, membros familiarizados. São esses pontos que devemos abordar o mais claramente possível, explicando as razões e os porquês.

5 - Preparado o terreno a partir da apresentação dos seus integrantes e a confirmação do caráter de nosso trabalho junto a eles, começamos a efetivar o conteúdo informativo.

5.1 - Iniciamos afirmando que Alcoólicos Anônimos é para todos. Não queremos que ninguém fique de fora dos nossos quadros de membros. Temos todas as amostras de nossa sociedade: culturas e raças diferentes; orientações sexuais diversas; homens e mulheres de poder e força; pessoas obscuras e anônimas; apenados e santos padres; agnósticos, religiosos e ateus; os intelectuais estão com a gente e os iletrados também. Enfim, todos os humanos! Até mesmo eu, pois a doença do alcoolismo é imparcial e democrática. Também é necessário esclarecer que não há taxas e nem mensalidades; que somos AUTOSSUSTENTÁVEIS através de nossas próprias contribuições voluntárias; que Alcoólicos Anônimos é inteiramente de graça!

5.2 - Já que afirmamos que o alcoolismo é uma doença, devemos dizer que como tal está catalogada pela OMS. É igualmente relevante abordarmos a origem de Alcoólicos Anônimos, informando que foi criado em 1935, nos Estados Unidos, durante a Grande Depressão, no pós-guerra, a partir da necessidade de dois homens desesperados pelo alcoolismo encontrar uma solução para suas condições aflitivas. Também é importante mencionar que, passados quatro anos desse primeiro encontro, foi lançado o livro Alcoólicos Anônimos, o qual fez surgir diversos grupos em todo território americano e, mais tarde, fora dele.

5.3 - Temos que ressaltar que, segundo Alcoólicos Anônimos, a doença do alcoolismo se manifesta no indivíduo a partir de uma combinação explosiva: a obsessão pelo beber aliada à compulsão orgânica. Esses dois fatores, somados, determinam a ocorrência da doença. Devemos esmiuçar, com ilustrações próprias, sucintas e evitando ao máximo qualquer ação sensibilizatória, como essa doença se manifestava em nossas vidas; elevar os nossos fundos de poço até o nível que os atinja, sem, no entanto, ir tão fundo. Devemos mencionar os aspectos da doença e afirmar que não há cura, mas sim, recuperação, pois caso houvesse cura, poderíamos apreciar qualquer bebida sem a perda do controle, isto é, o fator orgânico não seria mais acionado. É ainda necessário informar sobre o aspecto progressivo e primário da doença, aspecto diferenciador entre o alcoólico moderado e o desesperado, determinante para sua estória de vida cheia de riscos.

5.4 - É importante relatarmos as características comportamentais desse sujeito alcoólico: o quanto se ressente ao ser criticado ou aconselhado pela sua maneira de beber; o desejo que possui de controlar o uso do álcool, o que intensifica o fator obsessivo; a insistência em negar sua condição de alcoólico, comprometendo cada vez mais sua saúde; os riscos provocados pelo descontrole; as justificativas e racionalizações que cria para continuar bebendo; o quanto aborrece seus familiares pela sua maneira de beber.

O 2° aspecto de nossas intenções: Uma Olhar Compreensivo.

6 - Devemos apresentar uma VISÃO COMPREENSIVA do ser humano enfermo, estigmatizado e incompreendido. Estimular um olhar que toda sociedade deveria possuir para o bom entendimento do que se passa com esse indivíduo, a fim de ajudá-lo. Existem momentos mais adequados para tratar do assunto com o alcoólico que sofre? Sim, o momento em que ele busca o isolamento empurrado pelo remorso ocasionado pela última bebedeira. Em muitos casos, esse é o momento mais indicado. Vejamos: esse momento é delicado e íntimo. Somente alguém muito confiável pode assumir esse papel (cônjuges, filhos, pais e amigos, a princípio). Devemos também levar em consideração que tal oportunidade pode levar meses para ocorrer, e que o interessado em ajudar o alcoólico deve ser paciente e amoroso, devendo evitar discussões ou críticas. É necessário recomendar essa pessoa de confiança ao Ala-Anon para que se familiarize com toda a problemática.

6.1 - É necessário enfatizar que ninguém nesse mundo é capaz de mudar o alcoólico. Tal atitude é responsabilidade do próprio e é intransferível. Nós que estamos de fora só conseguiremos acender seu desejo de recuperação e apoiá-lo nessa trajetória. É preciso confirmar que o sujeito não tem culpa por ter se tornado alcoólico, mas que possui, sim, responsabilidades pelo fato ter ocorrido com ele. Ninguém deseja tornar-se doente por mais que tenha contribuído para isso. O mesmo ocorre com um hipertenso ou diabético: um exagera no sal e o outro no açúcar, mas nenhum deles desejou que isso os tornar-se um problema.

7 - Por que encaminhar o indivíduo adoecido a um grupo de Alcoólicos Anônimos? O que o grupo oferece que nós outros não conseguimos? Vamos tentar responder a essas indagações extraindo o que há de mais comum em nossas reuniões e nos aproximando o máximo possível do ideal. Temos que vender o melhor peixe! A meu ver, o que atrai realmente o indivíduo para junto de nós é a sensação de pertencer. Seu instinto social, até o momento em total desordem, começa a ser preenchido. A lacuna da solidão e do isolamento vai deixando de existir, fornecendo-lhe segurança, autoestima e esperança. Acredito que todo o resto das virtudes que um grupo possui só colabora para que essa sensação de pertencimento seja fortalecida cada vez mais. Vamos a elas: a afinidade quanto ao propósito; a identificação pelos sentimentos; a compreensão pelas semelhantes experiências; a segurança do anonimato; um ambiente fraterno e propício à recuperação; um lugar livre de julgamentos ou condenações; a liberdade de escolha. Não há imposições e, sim, recomendações. Na verdade, um genuíno movimento de compaixão é o que nos move. A transmissão integral é estabelecida dessa forma, e, só acontece no grupo.

Enfim, esses são os elementos que me vieram à cabeça nesse momento em que escrevo. É importante não romantizar muito, sob o risco de o discurso parecer uma farsa. Sejamos honestos: entre o ideal e o real há uma grande distância. O peixe talvez seja o melhor, mas não é tão grande!

8 - Devemos demonstrar de forma sintética o (programa), nosso método de recuperação. Nunca devemos esmiuçar o passo a passo dos 12 passos. É importante darmos relevo aos princípios espirituais, à necessidade de combater o egoísmo com atitudes positivas, à relevância da aquisição de novos valores e ao exercício de novos hábitos como, por exemplo, o inventário de si mesmo (autoexame). Lembremo-nos: em relação aos 12 passos, não temos meios de abordá-lo. Essa é uma atribuição somente dos grupos e não da *CIP. Quem seguir por esse caminho correrá riscos devido à subjetividade do programa.

9 - Devemos abolir a discussão sobre teorias teológicas ou despertares espirituais. Recordemos que não somos nem seita nem religião, e abraçamos os adeptos de todos os credos e também os que não possuem credo algum. Lembremos que respeitamos todos os pontos de vista, mas que, certamente, nas reuniões de A.A. todos ouvirão falar em Deus ou em um Poder Superior, conforme qualquer um desejar e se desejar!

10 - Devemos apresentar sucintamente o funcionamento de nossa irmandade (sociedade) em todo o mundo, sob os dois legados - UNIDADE e SERVIÇO - e sua aceitação em diversas culturas e línguas. É importante mencionar a forma de obter nossas obras literárias, fornecer nossos dados de contato e informar sobre tudo o que possa ser útil ao atendimento do pedido de ajuda de todo e qualquer candidato à recuperação.

11 - A exposição deve ser finalizada com um último agradecimento, colocando-nos à disposição para responder às questões formuladas pelos ouvintes e esclarecer tudo o que seja possível. Caso sejam solicitadas informações que não possamos atender nesse momento, é importante responder de forma verdadeira. Quanto às indagações teológicas e científicas, o melhor é nos abstermos. Esse mérito não é nosso! Afirmemos que não temos meios para responder a essas questões e que deixaremos o contato de alguém capacitado para fazê-lo.

Não há bicho de sete cabeças algum! Todos com um mínimo de boa vontade poderão fazer esse papel com total qualidade. Não precisamos ser experts ou doutores para relatar de forma bastante natural e verdadeira o que se passa conosco. E façamos isso com as nossas palavras. Lancemos as iscas somente! Lembremos de tratar esse modesto material como um roteiro sugerido e facilitador. Certamente, existem ou existirão outros roteiros com o mesmo intuito de facilitar o acesso de todos à produção dos trabalhos de *CTO, contribuindo para a ampliação das tarefas e a abrangência da mensagem, resultando, quem sabe, numa maior eficiência dos trabalhos. Mas isso, somente o tempo e o nosso bom Deus poderão confirmar.

*Comitê Trabalhando com Outros
*Comissão de Informação Pública

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

CTO pelos caminhos do Livro Grande de Alcoólicos Anônimos.

             
A história inicial de Alcoólicos Anônimos no Mundo, aa.org.br

Através deste texto tentarei compartilhar minhas próprias reflexões sobre as lições legadas através do nosso Livro Grande, carinhosamente conhecido no Brasil por Livro Azul, o qual costumo chamar de “Um Soco no Estômago”.

                Intencionado pela extração máxima das experiências e informações ali contidas, sigo em luta pelo estudo sério, por motivos óbvios, desta poderosa fonte de riquezas, donde todos nós, A.As., deverão um dia saciar nossa sede por recuperação e pela manutenção de toda uma sociedade mundial de alcoólicos recuperados, e por meio deste estado feliz e de utilidade, zelar pela proteção de toda uma unidade que tem como única razão de existir a transmissão da mensagem ao alcoólico que ainda sofre, o que seguramente compreende ao Comitê Trabalhando com Outros – CTO, o serviço de relações públicas de Alcoólicos Anônimos, a resposta mais adequada e responsável para a compreensão e aproximação com o mundo.
O sucesso ascendente verificado desde a publicação da primeira edição deste Livro Grande, Alcoólicos Anônimos, em 1939 – do qual nossa Irmandade extraiu seu nome –, consolidou o objetivo de difundir fecundamente seus princípios de recuperação, nossa solução contra a doença do alcoolismo.
                Bem, começarei a desenvolver o nosso estudo a partir do entendimento rápido e conceitual das duas únicas forças humanas em A.A., como, quando, e onde se equilibram: o Poder Tradicional (membros comuns, representantes de serviços gerais até seus delegados); e o Poder Legal (custódios pela Junta de Serviços Gerais, diretores e funcionários, Comitês, Publicações etc).
                Sabemos que a essência do Poder Tradicional é constituída pelos grupos de A.As. espalhados por todo o mundo. Atualmente, supõe-se que em cerca de 200 países as Doze Tradições serão mantidas e protegidas pelos membros conscienciosos de um grupo quando esclarecido, sempre garantidos pela forja da quarta tradição que lhes assegura o direito de errar e retroceder humildemente na correção dos seus próprios erros. Outra premissa prevista em nossas tradições é o direito de cada grupo se manifestar como individualidade de um todo, portanto, sendo assim, reconhecido como uma entidade espiritual que possui seus próprios recursos morais possíveis e cabíveis para a transmissão da “sua” mensagem. Ou seja, cada grupo é um conjunto vivo, orgânico, dinâmico, próprio em particularidades, e trabalha na atração do enfermiço de sua comunidade. Nunca falaremos em uniformidade, mas sempre em unidade de diferenças e semelhanças. Todo grupo deverá manter-se sempre minimamente organizado (aqui ilustrarei grosseiramente: cuidados com a cafeteira; manutenção de uma chave para abertura do portão nos dias e horários de reuniões; designação de um tesoureiro para o pagamento do aluguel e o repasse evitando o acumulo de dinheiro e etc), de forma que impere um clima de boa vontade e responsabilidade que possibilite um ambiente fraterno e favorável à reabilitação de qualquer alcoólico. Esse é o A.A. de que tanto gostamos!
                Já o Poder Legal, ao contrário, necessita de estrutura amplamente organizada. Defensor e guardião dos nossos princípios perante a sociedade e perante nós mesmos, o Poder Legal não admite suposições. É constituído por membros que se destacaram pela necessária recuperação em seus grupos e uma provável vocação, destituídos (aqui devo abrir um sério parêntese) de personalismo, constrangidos pelo sentimento do dever e da responsabilidade, e, por último, genuína gratidão, resultado motivador de suas intenções anônimas e cooperativas, efeito natural e modificador do caráter, dada a aplicação do método dos doze passos. São reconhecidos por toda a estrutura como seus legítimos representantes, sendo a eles delegados direitos na decisão e nos deveres de suas representatividades. Esses membros são eleitos pela consciência coletiva de um grupo, a princípio no que se refere ao CTO: formam seus comitês e comissões na preservação ou proteção dos seus grupos, o Poder Tradicional, através do qual será mantida a tradição oral e moral na transmissão da mensagem de recuperação neste lugar. Seus componentes serão sacrificados nos seus anonimatos, exceto na imprensa, rádios e filmes; administrarão, discutirão e correrão riscos com o dinheiro, propriedade e prestígio; empreenderão recursos na cooperação ou no apoio às demais situações ou instituições, o que demandará possíveis controvérsias. Enfim, essas são, em parte, obrigações morais, ou talvez vantagens que o Tradicional exige de seus representantes, sempre na tentativa de autopreservar-se, convergindo recursos materiais e humanos para sua manutenção e equilíbrio, e objetivando a coerência dos princípios na relação com o seu público alvo, matéria-prima de toda a nossa Irmandade, que tem as tradições como seu maior patrimônio, o que se confirma em toda sua força na Conferência de Serviços Gerais a cada ano.
                Agora vamos buscar os registros do livro e das diversas obras de nossa Irmandade para sustentação daquilo que acredito que tenha me motivado a escrever estas linhas, que têm como finalidade demostrar a eficiência desta obra e a necessidade de discutir o trabalho das comissões que constituem o CTO como um todo.
                Vamos iniciar a análise por este apelo de Bill W., apresentado logo no primeiro passo do livro – Os Doze Passos e As Doze Tradições, em que ele percebe a necessidade de elevarmos os nossos “fundos do poço”, querendo dizer para que não fossemos tão fundo, iniciativa para alcançar um número significativo de jovens já alcoólicos e potenciais à recuperação, talvez evitando, desta forma, dez ou quinze anos de puro inferno em suas vidas, reconhecendo que a diferença para casos desesperados estava no aspecto progressivo da doença, uma ação lenta e devastadora, determinante em todos os casos e sem nenhuma exceção. Há que se notar aqui um sinal evidente e necessário na atualização e contextualização num curto espaço de tempo para nossas necessidades de progresso, já que nos foi dada como referência para tal necessidade a afirmação constante na primeira edição do livro Alcoólicos Anônimos, em 1939: “... foi publicada quando éramos poucos membros, tratava somente de casos desesperados.”¹
                O segundo ponto, com o qual deveríamos ter bastante cuidado quanto ao caráter das intenções e o posicionamento estabelecido das comissões. Vejamos: seus trabalhos deveriam atender indiretamente ao alcance do alcoólico que ainda sofre, mesmo que estejamos levando a mensagem a pacientes de uma clínica psiquiátrica, e expor os pormenores de uma carreira alcoólica estritamente pessoal, ou nos apresentarmos como verdadeiros troféus de superioridade! É muito melindroso, descortês, constrangedor e pouco eficaz, mesmo porque nunca haverá tempo suficiente para tratarmos com profundidade qualquer assunto. Isso seria atribuição dos grupos. As comissões só teriam oportunidade de lançar as iscas. Portanto, se nos posicionarmos como humildes reprodutores das afirmativas contidas em nossos livros e se nos atermos às generalidades combinadas ao que nós vivenciamos, poderemos obter um ótimo resultado, mesmo não ocorrendo manifestação de desejo algum em prazo imediato. Convide os espectadores a se tornarem um difusor potencial de nossa mensagem a um de seus amigos, torne-os cooperadores, motive-os, esclareça-os, ofereça-lhes os recursos de abordagem. Posso garantir que a identificação só ocorrerá por meio das informações verdadeiras de nossos livros, e não as que eu acredito que sejam verdadeiras, só por que acho que sejam. Precisamos buscá-las!
                Trarei novos trechos dos textos para verificar essa intenção indireta e que confirma que o alcoólico ativo não estará motivado para se decidir na presença de estranhos. É que a carapuça das informações muitas das vezes apenas o aperta, mas não chega a vestir a sua cabeça imediatamente. O capítulo 7 – Trabalhando com os Outros – apresenta uma enxurrada de observações para o “início” de qualquer conversa com um provável membro. Vamos a elas: procure médicos, sacerdotes, padres, ou juízes; não comece como um pregador ou reformista, moralista ou professor; não perca tempo tentado convencê-lo; procure as pessoas mais interessadas, isto é, seus familiares; deixe que a família ou um amigo pergunte se ele quer parar de beber de verdade; nunca tente fazer isso à força, com ansiedades ou tropeços; encontre-se com seu homem a sós, se possível; primeiro converse sobre assuntos gerais, etc. Todas as afirmativas se encontram no início desse capítulo e denotam o quão difícil e delicado é o trabalho de aproximação, exigindo de todos os envolvidos bastante paciência por se tratar de uma pessoa gravemente adoecida. Além disso, há a manifestação de todos os sintomas já conhecidos: negação, controle, justificação, desordem emocional, etc. Todos os seus instintos naturais gritam contra a ideia da impotência pessoal. Já passamos por isso, meus amigos! Ou não?
                Agora, buscaremos para o debate deste artigo os elementos para compor um bom discurso de informações, algo que todos nós poderemos experimentar, pois somente assumiremos o papel de humildes agentes reprodutores das informações pertinentes ao serviço que constam em nosso Livro Grande, se as aliarmos às nossas próprias experiências na tentativa de um maior êxito quanto à captação de futuros prováveis membros.
No início do Livro em questão, reconhecemos a necessidade de nos apresentarmos como alcoólicos recuperados. Na versão em português, em sua folha de rosto vem a inscrição: “A história de como homens e mulheres se recuperaram do Alcoolismo”. No capítulo 2 – Há uma Solução –, logo em seu primeiro parágrafo, surge a afirmação: “Praticamente todos estão recuperados. Resolveram seu problema com a bebida”. Claro que o adjetivo “recuperado” surge de uma escolha individual. Acredito que a recuperação ocorra quando é cessada a obsessão alcoólica e seus vestígios, e, por conseguinte, a compulsão orgânica; fatores esses que, combinados, determinam a doença do alcoolismo; é bem mais além do que normalmente se pensa, a qualidade ou quantidade que se bebe não determina a doença. De maneira alguma a recuperação está relacionada à cura, até porque não existe vacina. Caso houvesse, poderíamos, aí sim, voltar a apreciar uma inofensiva cervejinha sem risco de perda de controle, o que para muitos de nós seria a oitava maravilha! No meu caso, graças a Deus, encontrei uma maneira de viver que realmente me agrada.
                Já temos uma base de informações decisivas que atingiria desde o solicitante do RH de uma grande empresa que nos procura para seus funcionários do canteiro de obras até seu presidente. Falar da doença e de seus sintomas é uma recomendação antiga de um dos nossos maiores colaboradores, Dr. Silkworth. Sua chancela inestimável ao nosso Livro, que considera toda a classe cientifica da época e atual, é verdadeiramente emocionante. Sua sugestão deu um basta nas longas investidas ineficazes de Bill W., que objetivava convencer os inúmeros bêbados através de seu famoso despertar espiritual ocorrido no leito do hospital. Fica aqui outra dica para deixarmos os conceitos teológicos fora das investidas das comissões: falar de Deus ou de nossos conceitos de Poder Superior é altamente arriscado. Será melhor nos abstermos de abordar esse aspecto. Esse assunto é atribuição dos grupos e do método de recuperação, os 12 passos. Não há meios favoráveis de nos concentramos aí, pois sempre nos depararemos com os personagens do capítulo 4 deste livro – Nós, os Agnósticos –, bem como com as descrições do 2º passo do método no livro Os Doze Passos e As Doze Tradições. Preferencialmente, o melhor caminho é atingi-los pelo martelo da razão contida nas informações baseadas pela ciência.
                Esclarecer sobre os fatos concretos relacionados à progressão e incurabilidade, bem como descrever com segurança como se dá a combinação explosiva da obsessão com a compulsão alcoólica, auxiliam no enfrentamento do grande dilema de todo e qualquer alcoólico: o desejo de provar que pode beber como os outros, e que um dia de alguma maneira irá alcançar o controle. São essas informações e experiências, em parte, que representam a grande chance de destruir essa vã ilusão. Se oferecermos tais esclarecimentos com inteligência e habilidade, talvez possamos acender uma chama de esperança para inúmeras famílias que lutam pela recuperação dos seus entes mais amados. Restituir valores ao seio familiar do alcoólico – pois a doença afeta a todos os envolvidos de uma família ou comunidade – é o objetivo do programa de recuperação, só que oferecendo liberdade e força a todos os que desejarem. Da felicidade verdadeira tudo conhecerá.
Meus amigos, é dessa maneira que tento retribuir tudo o que tenho recebido de vocês nestas poucas 24 horas. Graças a vocês e ao método de recuperação e ao programa de A.A., venho descobrindo a escrita como forma de expressão e contribuição à Irmandade que tanto amo. Só assim poderei devolver um pouco do tanto que recebi.


                Não precisamos ser médicos ou profissionais de gabarito para relatar essas informações, somos leigos e isso nos basta. Precisamos apenas desistir de combater o novo. Tudo progride para melhor nesse mundo. Os nossos princípios estão assegurados por Deus. Temos apenas que agir e não mais repetir o velho jargão: “Alcoólicos Anônimos não são para quem precisa, mas para quem quer.” Mas como saberei o que quero, ou o que preciso, se as informações não chegam a mim? Fica aqui uma última responsabilidade e pergunta também.