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sexta-feira, 13 de junho de 2025

O QUE SERIA “FICAR BRANCO COMO A NEVE”, PARA ALCOÓLICOS ANÔNIMOS?

Sexto Passo de Alcoólicos Anônimos







A expressão usada por Bill, no sexto passo: … “mas nunca nos deixará brancos como a neve…”, é sempre retirada do seu contexto, fazendo com que muitos acreditem que nunca ficaremos brancos como a neve. Mas será isso mesmo?

Para entendermos que no sexto passo há um precedente aberto para acreditarmos que poderemos sim nos tornar brancos como a neve é preciso analisarmos a situação num contexto muito mais amplo, e isso vai nos arremeter ao que nos é sugerido desde o quarto passo, “fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”.

O ensaio começa dizendo que “A criação nos deu os instintos por alguma razão, sem eles não seríamos seres humanos completos”. Em seguida, é relatado a função de tais instintos, que seria o combustível para buscarmos abrigo, prestígio social, por reprodução, segurança financeira…, coisas PERFEITAMENTE naturais e necessárias, dadas a nós por Deus. Sendo assim, tais instintos, usados para esse fim, se tornam o padrão ideal de Deus para nós, seres humanos.

Contudo, os instintos são os depositários de toda sorte de desejos nos seres humanos. Tais desejos, em algum momento excedem suas funções originais e passam a escravizar a nós seres humanos. Passamos a viver, em dado momento, apenas segundo os excessos, perdendo de vista o padrão ideal de Deus para nós.

Ao refletirmos sobre os excessos, nos conscientizamos de que desejamos mais do que o necessário para nossa sobrevivência. Então compartilhamos com outra pessoa e passamos a desejar eliminar esses excessos é quando vem o sexto passo, “prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse nossos defeitos de caráter”. Os defeitos de caráter são os excessos do padrão normal dos instintos que Deus nos deu, que serviriam apenas para nos motivar a viver.

Mas ainda no sexto passo é dito “visto que nascemos com uma abundância de desejos naturais é normal que eles se excedam e passem a nos dominar. Mais adiante, o texto diz que não há notícias em canto algum de que Deus tenha eliminado totalmente os instintos de um ser humano. Se Ele fizesse, seria o mesmo que eliminar a motivação para viver de um ser humano, logo, os instintos são uma parte intrínseca de nós.

Então vem a famosa expressão: “Se pedirmos, Deus certamente perdoará nossos defeitos de caráter, MAS NUNCA NOS TORNARÁ BRANCOS COMO A NEVE, mas o texto não se encerra aí, ele continua ... sem a nossa ajuda”... Fica claro que tudo depende de nós.

Ora, se você tem um presente ele é seu, mas se resolve dar a alguém, você dá a quem você quiser e uma vez dado, quem recebe faz o que quiser com aquele presente, pois agora é seu. Mas se posteriormente depois de ter usado o presente inadequadamente quiser recorrer àquele que lhe deu para fazer um conserto, aquele que deu pode tranquilamente providenciar o conserto do presente. Os instintos foram dados a nós por Deus e depois que os recebemos, fizemos uso deles como melhor nos aprouve.

A decisão de trazer os instintos à sua função natural, que é apenas o de dar motivação para viver, conforme Deus pensou para nós, é nossa. Deus está pronto para nos tornar brancos como a neve, mas os instintos já foram dados a nós e agora a prerrogativa de pedir para corrigir é nossa. Assim como quando entramos no quanto de nosso filho e enxergamos ali uma tremenda bagunça e não ousamos arrumar conforme o padrão que pensamos do quarto para ele, pois isso pode chatea-lo, também arrumamos com o maior zelo possível, dentro do padrão que pensamos pra ele, se ele nos pedir.

Assim também funciona em relação aos nosso instintos, se pedirmos Deus certamente trará nossos desejos ao padrão que Ele pensou para nós seres humanos. A medida de Deus para nós, seres humanos, é uma medida proporcional ao que precisamos para viver neste mundo.

O nosso erro de interpretacão neste texto é que não o lemos dentro de um padrão humano, mas sim, fazendo uma relação com o padrão de perfeição de Deus para Ele, Deus. Deus é um ser espiritual no sentido exato da palavra, é superior ao ser humano e Sua perfeição é uma coisa, totalmente diferente da perfeição que ele deseja para nós aqui na terra.

Ficar branco como a neve, para nós, humanos, é tão somente usar os nossos desejos instintivos apenas como motivação para dar sentido à vida, tal sentido é expresso lá no início do quarto passo: motivação para construir abrigo, ter um pouco de prestígio na comunidade, construir uma família e se manter neste padrão.

Caso algum desejo insista em exceder sua função pensada por Deus para nós, podemos recorrer ao Criador, que Ele certamente perdoará nossas negligências.

Carlos S

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Os livros fundamentais de Alcoólicos Anônimos

 Livro: Os doze passos e as doze tradições de Alcoólicos Anônimos

Salve, salve, companheirada..!

Agradeço ao Companheiro Francisco pelas imagens do nosso acervo intelectual, um tesouro que pertence à humanidade. Esses livros não são apenas papel e tinta; são a diferença entre a vida e a morte para o verdadeiro alcoólico. Eles carregam a sabedoria de quem já caminhou pela escuridão e encontrou a luz. E, no entanto, no Brasil, esse patrimônio inestimável foi sequestrado por uma lógica mercantilista que envergonha os princípios que deveriam nortear nossa irmandade.

JUNAAB e o Poder Legal
Usurparam nosso patrimônio intelectual. Sim, usurparam. Transformaram um bem coletivo, que deveria ser acessível a todos, em uma mercadoria. Enquanto milhares de alcoólicos desesperados lutam para encontrar um sentido para suas vidas, nossos livros fundamentais são vendidos como produtos em prateleiras, inacessíveis para muitos em um país tão desigual como o nosso. Isso não é apenas um desvio de propósito; é uma traição aos princípios de AA.

Nosso desenho original, estabelecido por Bill W. e Dr. Bob, é claro: o autossustento. Recuperamo-nos para, então, assumir a responsabilidade por nossa existência coletiva. Nossa estrutura deve ser mantida por doações voluntárias e anônimas, não pela exploração comercial de um patrimônio que pertence a todos. Taxar esses livros com fins lucrativos é imoral. É elitizar o acesso a uma mensagem que deveria ser universal. É negar esperança a quem mais precisa.

Mas vamos além. Existem dois poderes em AA: o poder legal e o poder tradicional. O poder legal, representado por entidades como a JUNAAB, deve ser subsidiado majoritariamente pelas contribuições voluntárias do poder tradicional — os grupos e seus membros, que são a verdadeira força motriz de nossa irmandade. No entanto, entre 2014 e 2015, o poder legal se instalou em uma propriedade alugada no bairro do Tatuapé, em São Paulo, a um custo que foge completamente da nossa realidade arrecadatória. Uma máquina superestimada, que nos oferece um serviço subestimado. E o resultado? Uma política de preços das nossas obras completamente comprometedora.

A lógica, a grosso modo, é essa: viver de aparências. É como ter um dono de uma Mercedes-Benz na garagem de casa, mas sem poder tirá-la de lá porque o cartão de crédito tem o limite de um trabalhador operário de fábrica. É um absurdo. Enquanto isso, nossos livros, que deveriam ser reproduzidos com um lucro mínimo apenas para garantir sua continuidade e manutenção, são vendidos a preços que excluem aqueles que mais precisam.

E o que fazemos? Nossos livros ficam fechados, negligenciados, esquecidos. A maioria dos veteranos e grupos parece ter se acomodado a essa realidade. Nos últimos dez anos, vimos algumas mudanças, mas são lentas, insuficientes. Em AA, o bom sempre foi inimigo do melhor. E enquanto nos contentamos com o mínimo, a mensagem libertadora dos livros fundamentais — sim, estou falando de "Alcoólicos Anônimos" e "Os Doze Passos e as Doze Tradições", não do "Viver Sóbrio" — continua distante da maioria. A leitura, quando existe, é superficial. A compreensão, débil. E assim seguimos, distantes do ideal que Bill W. vivenciou naquela cozinha humilde, ao lado de seu padrinho Ebby T., que lhe transmitiu a mensagem dos Grupos Oxford. Esse relato histórico, descrito por Bill W. no último parágrafo do primeiro capítulo de "Alcoólicos Anônimos", é um testemunho poderoso de como a recuperação começa com a partilha desinteressada de uma mensagem de esperança.

Mas eu digo: chega. Chega de negligência. Chega de comodismo. Chega de permitir que um patrimônio que é nosso seja explorado por interesses que não são os nossos. É hora de colocar essa locomotiva nos trilhos. Uma nova geração está chegando, cheia de brilho e sede de sentido. Eles merecem mais do que migalhas. Merecem acesso pleno à mensagem que pode salvar suas vidas.

Não se iludam: a mudança começa conosco. Precisamos estudar, compreender e aplicar os livros fundamentais em nossas vidas. Precisamos exigir que nosso patrimônio seja tratado com o respeito que merece. E, acima de tudo, precisamos honrar o legado de nossos precursores, garantindo que a mensagem de AA seja acessível a todos, sem distinção. Porque, no fim das contas, não se trata apenas de livros. Trata-se de vidas. E vidas não têm preço.

sábado, 26 de março de 2022

A Gramática da Sobrevivência: O Significado Linguístico da Unidade em Alcoólicos Anônimos

Um dos botes utilizados pelo grupo Eddie Rickenbacker no Pacifico após a queda B-17

“O nosso bem-estar comum deve vir em primeiro lugar; a recuperação pessoal depende da unidade de AA.”

A literatura de Alcoólicos Anônimos é rica em simbolismos, mas poucas palavras carregam tanto peso e complexidade quanto o termo Unidade. No entanto, uma observação pouco cuidadosa desse conceito frequentemente gera ambiguidades, má compreensão e equívocos teóricos que resultam em uma difusão precarizada do seu real significado. Essa incompreensão não é um mero detalhe acadêmico, mas um problema de extrema gravidade prática. Quando a unidade é mal interpretada, grupos inteiros correm o risco de ruir, seja caindo na armadilha da uniformidade cega — onde o autoritarismo sufoca a individualidade — ou no extremo oposto do isolamento anárquico, onde o egoísmo destrói a coesão coletiva. Compreender as nuances linguísticas da Unidade é, portanto, uma questão de sobrevivência para a irmandade, pois o termo transita intencionalmente por diversas funções gramaticais e papéis literários para sustentar as Doze Tradições.

Em sua análise mais direta, a Unidade se apresenta como um substantivo abstrato. Ela corporifica o conceito e a própria estrutura física e organizacional da irmandade. Quando declarada como um legado, ao lado da Recuperação e do Serviço, ela deixa de ser uma ideia vaga e passa a representar o "corpo" de A.A., a liga que mantém os grupos conectados globalmente. No entanto, o texto literário da comunidade rapidamente expande essa fronteira, conferindo à palavra um claro valor adjetivo. Nesse cenário, a Unidade funciona como uma qualidade essencial e uma virtude a ser praticada pelos membros. Não basta que a associação exista formalmente como substantivo; é vital que os indivíduos ajam de maneira unida, transformando o termo em sinônimo de tolerância, harmonia e mútua cooperação, combatendo justamente a difusão precarizada que ameaça a paz dos grupos.

A transformação linguística mais impactante ocorre quando a Unidade assume o papel de Sujeito da oração nas Doze Tradições. Na Primeira Tradição, por exemplo, o texto afirma categoricamente que a reabilitação pessoal depende da unidade de A.A. Ao ganhar essa posição sintática, a palavra ganha vida própria e passa a agir como uma entidade viva, tornando-se o agente principal que garante a vida de cada membro individualmente. O indivíduo abre mão de sua soberania gramatical e existencial, reconhecendo que o coletivo é o verdadeiro sujeito que sustenta a sua sobriedade. Essa personificação transforma um conceito abstrato no bem supremo e vital daquela comunidade, esvaziando os equívocos gerados por interpretações rasas.

"1ª Tradição de AA nos diz o quanto é importante nos reunirmos em grupo, presencialmente, com objetivo comum; nossa 5ª Tradição. Ademais, todo resto é acessório e nos será acrescentado por graça e obra de Deus. Essa é Sua parte, a maior parte! devo dizer."

Indo mais fundo na semântica textual, a Unidade também atua como um advérbio de modo implícito e como uma metonímia. Como advérbio, ela dita o "como" fazer, orientando que todas as decisões e interações cotidianas dos grupos devem ocorrer obrigatoriamente através do espírito de união. Como metonímia, a palavra substitui o todo pela parte, onde falar em preservar a unidade significa, em última análise, salvaguardar a vida de cada alcoólico que ainda sofre. O termo opera ainda como um imperativo categórico oculto, um mandamento silencioso de desprendimento do ego que ecoa o tempo todo nos ouvidos dos membros: unir-se para não morrer sozinho.

Ao comparar a Unidade com os outros dois legados, percebe-se a perfeita engrenagem conceitual de A.A. Enquanto a Recuperação foca no campo individual e interno do "Eu", e o Serviço se projeta na ação externa em direção ao "Outro", a Unidade surge como a síntese que ampara ambos, estabelecendo a esfera do "Nós". O livro Doze Passos e Doze Tradições deixa claro que essa união não exige uniformidade de pensamento, mas sim a convergência de propósitos. Compreender a Unidade sob a ótica da linguagem revela que ela afasta qualquer interpretação ambígua ou precarizada, mostrando-se como a própria gramática da sobrevivência, uma palavra multifacetada projetada para garantir que o todo seja sempre maior e mais forte do que a soma de suas partes.

sábado, 10 de outubro de 2020

5ª Tradição de Alcoólicos Anônimos

Somos todos a Quinta Tradição em Alcoólicos Anônimos

Somente com uma compreensão vigorosa em razão da lógica de nossos princípios, poderemos extrair um melhor entendimento na construção de nossos destinos como sociedade e como indivíduos superando os insistentes atavismos tão nocivos para o alcance de nosso único objetivo: “cada grupo é animado de um único propósito primordial ─ o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre”.

Vamos partir do pressuposto que tudo se inicia no grupo. Tudo! O tradicional em nossa estrutura é parte espiritual que individualizada nos grupos, tem responsabilidade fim ─ ANIMAR-SE na TRANSMISSÃO de SUA mensagem ao alcoólico que ainda sofre.

Então, confirmamos, a única autoridade na transmissão da mensagem de Alcoólicos Anônimos são os grupos. Essa prerrogativa só cabe a eles, quero dizer, ao tradicional. Lembre-se em ter essa observação muito clara em nossas mentes para prosseguirmos com a leitura e sua conclusão.

ÂNIMO

Animar-se seria o mesmo que estar motivado e consciente do seu papel e responsabilidade em sua comunidade. Se cultivarmos essa prioridade tão explicita em nossos grupos, impregnando seus membros e o ambiente com esta decisão, a intenção que os conduzirá de seus lares aos seus respectivos grupos, para além do encontro fraternal com companheiros de jornada, nada tão legítimo, seria o movimento em proporcionar e facilitar a construção e a permanência de um Comitê Trabalhando com Outros, vivo, em seus espaços. Tal movimento deve ter a maior relevância nos grupos. Estar sempre em primeiro plano.

Mas não! Isso não ocorre invariavelmente.

Dessa maneira poderíamos, eventualmente, nos dar até ao luxo, nesses mesmos espaços, de ceder lugar ao comportamento de Club, com o famigerado bolo e guaraná. Só para quebrar a rotina, sem prejuízos ou desvios de nosso propósito único e primordial. Estaríamos em dia com os nossos deveres e por isso tranquilos.

Isso se deve, a meu ver, pela falta de esforços ─ não digo rigor ─ individuais e coletivos no tratamento de nossas experiências legadas em nossos livros fundamentais. Por que não o rigor? O rigor em nosso caso nos mataria! Mesmo porque, nossas tradições nos advertem que não devemos exigir nada de quem quer que seja.

Somos plenos no exercício da liberdade e responsáveis pelas consequências da mesma. É uma questão de justiça! Aprendemos esta lição desde do primeiro dia que aqui chegamos. Existe uma lógica por trás desta experiência universal fundamentada em nosso meio ─ um valor ─. Esse princípio é norteador em quaisquer circunstâncias ou contexto dentro do A.A. e, mesmo fora, em nossas vidas pessoais. O CTO e suas comissões se submetem a essa mesma lógica Divina. Talvez aqui se justifique o rigor quando absorvemos em nossos corações e mentes o compromisso com outro. Uma revolução!

Tratarei deste assunto com mais propriedade e profundidade num próximo artigo acerca da nossa 1ª tradição. 

Vamos continuar nossa conversa com outra categoria que quando corroborado com a categoria anterior, fecha a questão.

TRANSMISSÃO

A categoria transmissão: atribuir algo a outrem; ato ou efeito de transmitir; contágio: capaz de contagiar, de influir no comportamento de alguém; que se espalha de uma pessoa para outra, de um lugar para outro; inoculação: [Figurado] transmissão, propagação de ideias, opiniões, doutrinas, ideologias...

O processo de recuperação individual e até mesmo coletivo, se dá em longo prazo, amorosamente, pacientemente e com firmeza nas ações. Ora, os 12 passos, nada mais é do que um plano de ação, o nosso método de recuperação do alcoolismo contido no programa de A.A..

Uma atmosfera propícia, isto é, protetora, encorajadora e fraterna, deve reinar em nossos grupos a todo custo e é nesse sentido que há inúmeras recomendações incentivando o silenciar de nossas personalidades em benefício do coletivo. Não quer dizer que não haja divergências, discussões e desacordos. Não é isso! Sabemos que na nossa diversidade reside uma grande força. Contudo, sabemos que os temas particulares ou domésticos não cabem nesses espaços, ou pelo menos, não deveriam ser estimulados por uma maioria de membros recuperados e maduros. São conteúdos altamente explosivos.

“Lembre-se do Irlandês rubicundo ─ aquele das bochechas coradas ─ e a noção de sobriedade vendida por seu padrinho”.

Já as divergências e os debates, até mesmo acalorados, em torno da nossa 5ª tradição, são bem-vindos e positivamente apreciados. É a natureza de um grupo de Alcoólicos Anônimos num movimento genuíno e próprio. Na razão de nossa existência haverá sempre o bom combate objetivando o seu aperfeiçoamento na direção do alcoólico que ainda sofre do alcoolismo. Tudo estará bem e garantido por nosso bom Deus.

Bem, é nesse sentido que a transmissão de nossos princípios e experiências se faz ao enfermiço candidato recuperar-se do alcoolismo e a se tornar um membro consciencioso de suas responsabilidades, ativo na manutenção de nossa chama. Tudo acontece por contágio, por aproximação, persuasão pelo fazer, não mais pela efêmera fala em cabeceira de mesa enaltecendo suas credenciais de tempo e de encargo nos serviços de AA. Não violentamos ninguém impondo nossos valores ou vontades. Expectativas subjetivas de tempo não cabem no processo. O tempo agora é de DEUS.

Cinco, dez anos, e continuaremos sendo recém-chegados. Leva tempo para dar o primeiro passo por inteiro. Então, se apresse, porque caso contrário suas soluções aprendidas no mundo que nos corrompem diariamente naquilo que possuímos de mais humano, nos tornando doentes e apodrecidos, tenderemos importar para o nosso Eldorado acreditando ter inventado a roda, mas na verdade estaremos nos colocando em risco e a alguns outros. Não somos uma corporação, somos a utopia. Não cumprimos metas, não temos um checklist para preencher, regras nem pensar, padrões no agir, pensar e falar, nunca! Não somos profissionais e sim servidores, recuperados no sentido mais profundo, responsáveis e de confiança, contribuindo com aquilo que há de melhor e possível. Sem medalhas ou troféus de chocolate.

Como já havia nos dito o nosso querido Co-fundador Bill W., “tudo em A.A. já foi tentado nos seus primórdios”. Em verdade, a partir de uma compreensão profunda de nossos princípios, deveríamos exportar nossa maneira de viver e existir para o resto do mundo, e não o contrário. Mas esse, Graças a Deus, não é o nosso papel. Importante nos atermos somente às nossas chinelas.

PROPRIEDADE

A categoria seguinte trata-se do pronome possesivo “sua” referindo-se a cada grupo, a posse de uma mensagem própria na sua forma. 

─ Como assim?

─ Vou explicar:

Outra premissa prevista e garantida em nossas tradições, nesse caso a 4ª tradição, é o direito de cada grupo se manifestar como individualidade de um todo. Portanto, sendo assim, reconhecido como uma entidade espiritual que possui seus próprios recursos morais, possíveis e cabíveis, para a transmissão da “sua” mensagem. Ou seja, cada grupo é um conjunto vivo, orgânico, dinâmico, próprio em particularidades, que trabalha na atração do enfermiço de sua comunidade. Nunca falaremos em uniformidade, mas sempre em unidade de diferenças e semelhanças.

É fácil concluir que os grupos não podem ser iguais na sua forma. Os componentes que formam o seu conjunto, condicionalmente, estão atrelados aos aspectos socioculturais e econômicos da sua região e classe. Contudo, não são esses fatores determinantes, caso haja indivíduos que não atendam as mesmas condições da maioria. Não fracassarão em sua reabilitação só porque compartilham do mesmo espaço aparentemente estranho a eles. O problema aqui é o favorecimento através da identificação. Quanto mais pleno for esse quesito preenchido, ou seja, na maioria dos seus aspectos, o resultado será melhor. Há de convir que o conjunto dos elementos constitutivos num grupo de Ipanema não é o mesmo em Cascadura. O mesmo aconteceria a um companheiro esquimó, comedor de foca, lá no sertão da Bahia, por mais genial e acolhedor que seja o povo daquele estado.

A sensação de pertencimento é um valor importantíssimo e facilitador na chegada de qualquer alcoólico num grupo de AA. Esse acolhimento diário é a substância que só o grupo pode proporcionar. Essa sua essência, que não é a forma, é parte da sua natureza e a encontraremos em todos nossos grupos independentemente da sua localização. A identificação com o seu novo grupo é um fator fundamental para promover esse sujeito, adoecido e humilhado, a reiterar o seu compromisso consigo e o retorno no próximo dia a mais uma reunião.

Percebam a lógica em relação a localização de um grupo e o seu trabalho de relações públicas. São estabelecidos limites dentro de um perímetro para sua atuação, determinando sua comunidade como a única base na atração dos prováveis membros, recomendando a não ultrapassar seus limites fronteiriços com outra região. Esse conhecimento vai se consolidando tacitamente através das experiências dos anos e sendo incorporado a nossa estrutura como virtude ou recomendação. Temos que respeitar os esforços desses homens e mulheres que nos antecederam, não é mesmo?

São esses, em parte, os motivos não tão óbvios, que encarregam somente os grupos da responsabilidade de transmitir a recuperação do alcoolismo aos potenciais membros de nossa sociedade.

ESTRUTURA PARALELA

Dentro da estrutura de AA, todo o Serviço, em nosso organismo, subsidia a partir do seu descolamento daquilo que é essencial, os grupos, a formação do conjunto representativo ─ áreas e distritos ─ minimamente organizados e hierarquizados, e o Legal, até chegar na Conferência. Toda essa nossa engenharia da estrutura de serviços formam uma unidade que atende, em última análise, uma única premissa: a da comunicação entre grupos do mundo inteiro. O máximo que essa estrutura paralela se permite, é “levar” a mensagem a todos os cantos mundo. Isso é muito diferente que transmiti-la.

Fique bem claro que os Distritos, as Áreas, os ESLs, a JUNAAB, o Quartel General, em NY, até mesmo, os Comitês de CTO dos Grupos, não tem condições e nem recursos espirituais para efetivar essa transmissão. No máximo, prepararam ou lançam as iscas. É extremamente irresponsável estimular nesses quadros, a presença de recém-chegados sob alegação de qualquer natureza.

Acreditamos que com o passar do tempo, nossa sociedade amadurecida, consolidou por meio das experiências, sua vocação inata. Inicialmente tímida, até mesmo inconsciente, para mais adiante ser consagrada em nossas tradições no seu objetivo único e primeiro: a 5ª Tradição! 

Ficando claro que todo o movimento de Alcoólicos Anônimos objetiva o externo, o lado de fora! Enfim, toda a sociedade! 

Esse é o trabalho: alcançar o alcoólico que ainda sofre! Reiterando uma vigorosa premissa encontrada em nosso método de recuperação - nossos 12 passos. É o coroamento do nosso método! 

A solução de nossos terríveis dilemas e angústias estão no outro: em nossos espelhos que nos tornam cada vez mais humanos... 

O verdadeiro Amor só se realiza quando caminhamos em direção ao Outro. 

Então, sirva! 

É a nossa conclusão!

Aprendi uma dura lição nessa minha curta jornada em Alcoólicos Anônimos: a certeza de ser aquilo que devo ser, e não mais, aquilo que eu desejo ser. 

 

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Recuperado ou em Recuperação, o que diz o A.A.?

Recuperação em Alcoólicos Anônimos


Muitos membros, não apenas no Brasil, mas também em muitos outros lugares onde A.A. encontra-se presente, acrescentam inapropriadamente nas suas apresentações pessoais o termo: “ Fulano de tal qual… em recuperação”. Este “apêndice”, que nunca existiu, foi introduzido nos anos 70 do século passado, quando, após a promulgação da “Lei Hughes” ─ ver aqui outro post ─, os grupos de A.A. passaram a ser inundados por clientes das inúmeras clínicas de recuperação criadas para se aproveitar dos incentivos oferecidos por essa lei, introduzindo um tipo de linguagem na Irmandade que até hoje ainda não foi devidamente depurado, muitas vezes, à omissão, conivência ou até conveniência de que poderia fazê-lo. Nós! 

Esta expressão, em recuperação, sugere a fase existente quando da chegada do alcoólico ou alcoólica à Irmandade, mas que deve ser superada e passar à condição de recuperado(s) decorrido o tempo necessário para a libertação da obsessão e da compulsão ao se colocarem em prática os princípios sugeridos pela Irmandade, e esta é sua finalidade. 

Os membros de A.A. em sua maioria consideram que a doença do alcoolismo, uma vez instalada, não tem cura; mas os mecanismos que conduzem à sua continuidade podem ser detidos e a sanidade recuperada.


O que diz o Livro Alcoólicos Anônimos


Ao longo do Big Book  ─ Livro Alcoólicos Anônimos, Livro Azul no Brasil ─, a palavra recuperado(s) consta, pelo menos, 17 vezes, começando já pelo Prefácio à primeira edição em 1939 e em todas outras edições ─ “Nós, de Alcoólicos Anônimos, somos mais de cem homens e mulheres que nos recuperamos de uma aparentemente irremediável condição mental e física. Demonstrar a outros alcoólicos exatamente como nos recuperamos é o principal objetivo deste livro…” ─ e cujo texto “expõe os Passos e procedimentos sugeridos pela Irmandade que os membros iniciais acreditavam ser responsáveis por sua capacidade de superar a compulsão de beber”. 

Até os dias de hoje não houve qualquer motivo, evento ou descoberta, que sugerisse que o sentido desse texto devesse ser mudado. À época do lançamento do Livro, 10 de abril de 1939, o recuperado mais antigo, Bill W., tinha-se libertado da obsessão pela bebida de forma repentina durante sua última internação, havia quatro anos e quatro meses; já, o Dr. Bob precisou de mais de dois anos em abstinência para que essa libertação ocorresse e assim acontece até os dias de hoje; essa libertação, ou acordar espiritual, não tem um tempo cientificamente definido para acontecer e depende do esforço individual, ou, nas palavras do Dr. Bob em sua despedida, “Todos fizemos as mesmas coisas. Todos conseguimos os mesmos resultados em proporção direta ao nosso zelo, entusiasmo e capacidade de aderir”. Mesmo assim, poderá nunca acontecer. 

Aqui vai uma opinião pessoal: O mais simples, coerente e prudente, talvez, seja eliminar essas expressões, uma e outra, das nossas apresentações pessoais dentro da reuniões de A.A., a não ser que nesta mesma sala de reunião esteja ali a primeira visita de um provável membro ou interessado, ou nas inúmeras tarefas de CTO. Nesses casos, o termo RECUPERADO denota com precisão a razão de Alcoólicos Anônimos existir, não causando qualquer dúvida para quem nos assisti sem qualquer familiaridade sobre assunto alcoolismo e recuperação. 

Esse mesmo assunto é tratado de forma recorrente em nosso blog, devida sua importância, no artigo: "CTO, pelos caminhos do Livro Grande de Alcoólicos Anônimos"; E num outro artigo que fornece a sugestão de um roteiro para as tarefas de CTO intitulado "CTO de Alcoólicos Anônimos, lancemos as iscas somente!"

Argumentos importantes que precisam circular em nosso meio com toda força... Precisamos ser o mais claro possível com o alcoólico que ainda sofre e sensíveis ao ponto de eliminarmos as incoerências com a fonte que, a meu ver, a melhor das experiências. E aqui não se trata de preciosismo ou, simplesmente, querer polemizar, mas porque sabemos das responsabilidades e dificuldades em se atingir o indivíduo onde todos os seus instintos naturais gritam contra a ideia da impotência pessoal.    

*parte deste texto foi extraído de uma fonte não oficial.

Lei Hughes e Bob P. Alcoólicos Anônimos

Lei Hughes e Alcoólicos Anônimos

Saúdo-te e dou graças pela tua vida.



Em 1970 foi aprovada pelo Congresso dos EUA uma lei elaborada pelo senador Harold E. Hughes (1922 – 1996) que criava o Instituto Nacional para o Abuso do Álcool e do Alcoolismo (NIAAA), a PL91-616. Para a elaboração desta lei o senador Hughes ─ que tinha sido Governador do Estado de Iowa e seria candidato à presidência dos EUA, também era membro de A.A. desde 1952 em Ida Grove, Iowa ─ realizou audiências públicas entre os dias 23 e 25 de julho de 1969 das quais participaram entre outros, Marty Mann (1904 - 1980) - “a primeira dama de Alcoólicos Anônimos”, fundadora do Conselho Nacional para o Alcoolismo (ANC), e Bill W. co-fundador de A.A. Outros alcoólicos em recuperação foram convidados, mas não compareceram por considerar as audiências uma ameaça ao anonimato.


Esta lei oferecia subsídios e incentivos com dinheiro público para que os Estados desenvolvessem programas públicos e particulares criassem centros de tratamento para auxiliar as pessoas dependentes do alcoolismo. Atrás dessa mina de ouro correram centenas de investidores e profissionais das mais diversas áreas. Ficou ainda mais empolgante em 1974 quando o Congresso aprovou um aditivo àquela lei e criava o Conselho Nacional sobre Alcoolismo e Toxicodependência (NCADD).


Clínicas de recuperação para dependentes químicos


Muitos destes programas e centros de tratamento passaram a ser executados e dirigidos por pessoas e profissionais, psiquiatras e psicoterapeutas, sem a devida capacitação apenas visando o comercio, criando teorias a respeito do tratamento que eles consideravam o mais lucrativo, escrevendo livros e panfletos que vendiam a cura para o álcool e as drogas e, muitos deles ostensivamente hostis à Irmandade e ao programa de A.A.

Estas clinicas oportunistas criadas a toque de caixa foram atropelando as clinicas mais tradicionais para o tratamento sério do alcoolismo e outras dependências que contavam com profissionais especializados e capacitados para esse fim e eram conduzidas e administradas de maneira responsável.

Àquela altura a Irmandade já desfrutava de ampla aprovação da sociedade e seu modelo tinha sido usado como referência para a discussão da lei que tinha criado tudo aquilo, no sentido de indicar que o alcoolismo podia ser detido.

Então centenas de alcoólicos começaram a sair destes centros após uma lavagem cerebral feita por estes profissionais da saúde mental convencidos de que teriam uma recuperação satisfatória desde que seguissem aqueles procedimentos científicos. Muitos dos ingressos das clinicas não conseguindo a recuperação pelos ditos procedimentos científicos passaram a procurar a Irmandade, porém, levando consigo os livros, panfletos e modelo de tratamento desses centros e tratando de incorporá-los e sobrepô-los ao programa de A.A. e se apresentando unicamente como adictos mesmo também sendo alcoólicos e sustentando que o álcool era uma droga tal qual e que o programa se aplicava à sua condição ignorando propositadamente que o programa de A.A. se baseia em princípios universais, portanto utilizável por qualquer pessoa interessada, enquanto a Irmandade de A.A. foi criada unicamente para alcoólicos sem importar que, além dessa condição, sejam homens, mulheres, índios, esquimós, negros, brancos, esquizofrênicos, neuróticos, adictos a outras drogas, presidiários, obesos mórbidos, profissionais liberais, homossexuais, empregados, desempregados crentes, não-crentes etc.

Esta postura de confronto dos advindos das clinicas com as Tradições da Irmandade causou problemas imediatos.

Para enfrentar essa situação, a estratégia mais simples e fácil que muitos veteranos, tomados pelo medo e a insegurança (colocados acima por Bob Pearson), encontraram foi a de dizer que não se poderia ler nem discutir outro tipo de literatura que não a aprovada pela Conferência e a incitar e doutrinar os novos contra esse tipo de influência que por sua vez passaram a pressionar as Intergrupais e os próprios grupos a não distribuir nem vender nenhum outro tipo de literatura, incluindo ai a recomendada pelos veteranos e pioneiros, tais como “Vinte e Quatro Horas por Dia”, “O Sermão da Montanha”. “A Bíblia”, “O Pequeno Livro Vermelho” etc., reduzindo o programa de A.A. à interpretação dos escritos de uma única pessoa, no caso Bill W. e à vontade dos “donos” de Grupo.

Quanto aos declarados “cruzados”, Grupos começaram a recebê-los com reservas quando não animosidade, a fazer triagens e excluí-los dos Comitês de Serviço e a proibir-lhes falar de suas outras condições, revertendo uma situação que, até a chegada massiva de integrantes dessas clínicas com seus tratadores e seus investidores, era considerada pacífica e normal em boa parte dos Grupos, desde a chegada em 1944 do primeiro membro declaradamente homossexual e adicto além de negro, num pais escancaradamente racista, para tratar de seu problema com a bebida, o qual é o único propósito da Irmandade.

Essa situação, considerada até hoje a prova mais difícil que a Irmandade já passou, gerou preconceitos e desconforto nos Grupos a tal ponto que em 1978 o GSO, Escritório de Serviços Gerais, emitiu uma declaração oficial no seu Boletim, o Box 459, num chamamento ao bom senso à tolerância e à reflexão, Bob P. (1917-2008) que foi Gerente Geral do Escritório de Serviços Gerais (GSO), em Nova York, entre 1974 e 1984, deu uma poderosa e inspiradora palestra de encerramento da 36ª Conferência de Serviços Gerais em 26 de abril de 1986, no Hotel Roosevelt em Nova York e da qual seguem alguns excertos: “Esta é minha 18ª Conferência de Serviços Gerais ─ as duas primeiras como diretor da GRAPEVINE e AAWS (Serviços Mundiais de A.A.), seguidas de quatro como administrador de Serviços Gerais ─. Em 1972 desliguei-me completamente, até ser chamado de volta dois anos depois para servir como gerente geral do GSO, onde permaneci até o final de 1984. Desde a Convenção Internacional de 1985 tenho sido consultor sênior. Esta foi também a minha última conferência e, portanto, carregada de muita emoção.

Eu gostaria de ter tempo para expressar meus agradecimentos a todos que têm contribuído com a minha sobriedade e para a vida com alegria com que eu tenho sido abençoado ao longo dos últimos quase 25 anos. Mas como isto é obviamente impossível, vou voltar atrás lembrando um provérbio citado por Bill em sua última mensagem: ‘Saúdo-te e dou graças pela tua vida’. Pois sem suas vidas, eu certamente não teria tido a vida incrivelmente rica que eu desfrutei.

Deixe-me oferecer minhas ideias sobre o futuro do AA. Eu não acredito no alarme daqueles ‘resmungões’ que têm uma visão pessimista da Irmandade. Pelo contrário, da perspectiva de meu quase quarto de século em A.A., vejo a Irmandade maior, mais saudável, mais dinâmica e, de longe, com crescimento mais rápido, mais globalizado, mais consciencioso, mais simples, e mais espiritual do que quando participei da minha primeira reunião em Greenwich, Connecticut, em julho de 1961. A.A. floresceu para além dos sonhos dos membros fundadores.

Faço eco aqueles que sentem que, se a Irmandade um dia vier hesitar ou falhar, não será por causa de qualquer causa externa. Não, não será por causa de:
• centros de tratamento
• ou de profissionais da área,
• ou da literatura não-aprovada pela conferência,
• ou dos jovens,
• ou dos portadores de dependências cruzadas,
• nem até mesmo dos usuários de drogas tentando assistir às nossas reuniões.

Se nos mantivermos próximos às nossas Tradições e Garantias e se mantivermos a mente aberta e um coração aberto, podemos lidar com esses e outros problemas. Se vacilarmos, falharemos e isso será simplesmente por nossa culpa. Será porque não podemos controlar nossos próprios egos e porque somos incapazes de conviver bem uns com os outros. Será porque temos muito medo e insegurança, rigidez, falta de confiança e de senso comum.
Se você me perguntasse qual é o maior perigo enfrentado por A.A. hoje, eu teria que responder:
• a rigidez crescente;
• a demanda por respostas absolutas para minúcias;
• a pressão sobre o GSO para ‘reforçar’ as nossas tradições;
• a triagem de alcoólicos em reuniões;
• a proibição de literatura não-aprovada pela Conferência;
• o estabelecimento de mais e mais regras para controlar os grupos e seus membros.

Esta tendência à rigidez está nos afastando cada vez mais dos nossos membros fundadores. Bill, em particular, deve estar dando voltas em seu túmulo, pois ele foi talvez a pessoa mais permissiva que eu já conheci. Uma de suas frases preferidas era: ‘Cada grupo tem o direito de estar errado’. Ele era irritantemente tolerante com seus críticos, e ele tinha fé absoluta na capacidade de AA se autocorrigir.

Eu também acredito nisso; então, em última análise, não vamos desmoronar. Nós não iremos falhar ou fracassar. Na Convenção Internacional de 1970 em Miami, eu estava na plateia naquela manhã de domingo, quando Bill fez sua breve e última aparição pública. Ele, muito doente, estava internado no Hospital do Coração naquela cidade e os organizadores decidiram incluir uma rápida aparição no evento. Na manhã daquele domingo, ele foi levado ao palco em uma cadeira de rodas, com tubos ligados a um cilindro de oxigênio; vestindo um ridículo blazer laranja brilhante que o comitê anfitrião tinha arrumado, ele soltou seu corpo angular e quando agarrou o pódio a emoção tomou conta de todos. Eu pensei que os aplausos e gritos nunca iriam parar; as lágrimas escorrendo pelo rosto de todos. Finalmente, em uma voz firme, como o seu antigo eu, Bill falou algumas frases graciosas sobre a multidão enorme que incluía muitos membros vindos do exterior, terminando (como eu me lembro) com estas palavras: ‘Quando eu olho esta multidão, eu sei que Alcoólicos Anônimos vai viver mil anos - se for a vontade de Deus’”.

Em decorrência dessa Lei, centenas de pessoas com problemas de adicção e alcoolismo começaram a procurar tratamento nessas clinicas e, sem saber o que fazer após o prazo de internação ou tratamento ambulatorial, era indicado a esses clientes que procurassem as salas de A.A., num momento em que NA passava por momentos de dificuldades internas. Esta situação pegou a maioria dos Grupos de surpresa e sem saber o que fazer para resguardar o propósito único da Irmandade, o de levar a mensagem unicamente a outro alcoólico, criaram regras extremamente rígidas para desestimular essas pessoas a procurar a Irmandade, mesmo as alcoólicas com outros problemas. A rigidez extremada e a intolerância tomaram conta de muitos Grupos. Esta situação foi tema e objeto de longos e aprofundados debates, entre os prioritários, de várias Conferências e muitas águas correram até que o bom senso, a tolerância e a harmonia dessem sinais de restabelecimento.

sábado, 4 de novembro de 2017

Muito prazer, meu nome é Mudança. Você vai me aceitar no seu grupo de A.A.??

por H.C.

Essa pergunta tem como base a experiência relatada no livro "Os 12 Passos e As 12 Tradições" ocorrida em 1937, quando só existiam 2 grupos e que contribuiu para o nascimento da 3ª Tradição de AA.


"....o senhor permitirá que eu faça parte do seu grupo? Sou vítima de uma outra dependência ainda mais estigmatizante do que o próprio álcool...". 
O episódio narrado na 3ª Tradição, um inesperado pedido de ingresso, trouxe grande divergência de opiniões naquele grupo. Mas por fim, o ingressante foi aceito. 
Naquele momento, aconteceu uma ruptura num sistema pré estabelecido: alcoólicos anônimos, que servia apenas à alcoólicos puros, mudaria sua estrutura para aceitar alcoólicos com outras dependências nas mais variadas condições sociais.
Co-fundador de Alcoólicos Anônimos

Desde o nascimento das 12 Tradições de A.A. muitas coisas mudaram conforme a profecia do Dr. Bob. Mas a essência de A.A. não mudou. São exemplos disso: Os 12 Passos e as 12 Tradições; os Três Legados; Oração da Serenidade; a ideia do plano das 24 horas (só por hoje) e etc..

Ainda que não sejam todas ideias originais, foram incorporadas progressivamente nas estruturas básicas de A.A., não devendo ser alteradas sob a pena de colocar a própria irmandade em risco, conforme experiências mal sucedidas em grupos anteriores. E a irmandade somos nós. Eu e você. Acho que é daí que surgem as dúvidas sobre o que deve ser mantido e o que deve ser mudado dentro de um grupo.
Existe uma diferença entre mudar a essência de AA e o que podemos fazer para melhorar a prática dos Três Legados. Percebo que a essência de AA é imutável.
Quando digo "só por hoje" ao invés de dizer "mais 24h" estou mudando uma estrutura básica. Consequentemente estou alterando a essência de AA. Isso deve ficar no campo pessoal. Fale assim quem bem o quiser.
Mas quando sugiro uma mudança na estrutura de um grupo, com o objetivo responsável de aprimorar e promover a prática dos Três Legados, estarei navegando dentro da essencial, saudável e inevitável mudança profetizada pelo Dr. Bob.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O bom, as vezes, é inimigo do melhor em Alcoólicos Anônimos

Alcoólicos Anônimos e a JUNAAB

Aos Comitês que Trabalham com Outros do país e a quem mais desejar.


Simpósio (em grego: συμπόσιον, transl. sympósion) é um termo que se referia, na Grécia Antiga, a uma festa em que bebidas eram servidas (o verbo grego sympotein significa "beber junto"), geralmente realizada depois de um banquete, e durante a qual eram travados diálogos e conversas intelectuais, enquanto escravos ou empregados faziam apresentações de música e dança. Recentemente, o termo passou a designar qualquer conferência acadêmica ou um estilo de aula ministrada em universidades, que segue um formato abertamente discursivo, e não o tradicional de uma palestra ou de uma aula com perguntas e respostas.
O termo, na sua acepção original, me parece bem apropriado para o caso que trataremos aqui. Infelizmente – ou felizmente –, mais uma vez, nossa análise recorrerá ao tom da crítica. Peço licença aos senhores e senhoras, queridos leitores e companheiros, pelo inconveniente, mas é necessário estabelecer alguns esclarecimentos sobre um comportamento completamente discordante de nossos princípios espirituais e fundamentais. Acreditem: precisamos revisar toda nossa sociedade de Alcoólicos Anônimos, caso contrário, estaremos muito próximos do fim de nossa "SOCIEDADE E SUA MENSAGEM", já que a geração de valorosos servidores veteranos, imbuídos e movidos genuinamente pelo sentimento de zelo e gratidão, está prestes a desaparecer.

Aqui, refiro-me somente aos donos dos "Anéis de Bamba", aos mestres do trabalho e sacrifício. Uma geração anônima que muito realizou, impelida pelo instinto de sobrevivência, e, seguida, mais adiante, por uma geração nova que pouco realizou. Talvez por acreditar que já estivesse tudo pronto. Ledo engano!

Simpósio Nacional para Profissionais - Alcoólicos Anônimos


Quer dizer que Alcoólicos Anônimos no Brasil certifica a participação dos presentes em seu "simpósio"? Então, devo supor que o A.A. do Brasil deixou sua autoridade moral e leiga por uma autoridade magistrada? É isso mesmo? E o pior de tudo: reunimos nomes de pessoas que, em sua maioria, não respondem por Alcoólicos Anônimos, e endossamos, com nosso patrocínio e apoio em gênero, número e grau, suas verdades, teorias, contradições, equívocos, sofismas etc., relacionados a nossa experiência na recuperação de alcoólicos. Quanto à nossa solução, quem falará de Alcoólicos Anônimos aos palestrantes e comensais?

Rasguemos, então, nossas tradições pela falta de fé no alcance da sobriedade? Estamos permitindo que pessoas alheias à nossa sociedade, com suas convicções materialistas, nos desviem de nosso propósito único. Isto é tão fácil de verificar que basta olharmos os temas apresentados para o simpósio, por exemplo. Não há uma única menção ao nosso propósito. Nenhuma! Comportamentos como este vêm ocorrendo há muito tempo. Estamos fazendo política, e não deveríamos, nos envolvendo e nos intrometendo em questões alheias ao nosso propósito único: alcançar o alcoólico que sofre e deseja encontrar uma solução definitiva para seu maior problema..

Reconhecemos em nossas salas, nos dias atuais, inúmeros candidatos à recuperação, os convalecentes,  encharcados de medicações alopáticas e educados por seus próprios médicos, afirmando que sua única saída será procurar um repositório, quero dizer, um clube de A.A. para frequentar diariamente, além de utilizar, agora, indiscriminadamente, a medicação prescrita até o fim de suas vidas! Que merda!!! Onde está a vida útil, íntegra e significativa numa filosofia dessas? A.A. é vida, e VIDA em abundância! Mas tem que se submeter aos princípios. Porém, primeiro, precisamos conhecê-los... Desfazer uma mentalidade como essa é trabalhoso demais. O tratamento do dependente químico pela ciência materialista é considerado, pelas autoridades, como uma verdadeira utopia. Na verdade, eles já desistem antes mesmo de começar.

Nosso Jornal não quer dizer que as pessoas envolvidas no "simpósio" estejam mal-intencionadas, mas sim que talvez estejam sendo inconscientemente conduzidas pela ilusão do prestígio e poder. Estamos bem certos de suas qualidades profissionais e acadêmicas, mas reconheço, tão claro como água de ribeirão, seus interesses pessoais, que, talvez por descuido ou por nos subestimarem ou por não confiarem em nossas experiências de mais de 90 anos no tratamento do alcoólico pelo mundo, usam o A.A. e, como não bastasse, soterram nossos princípios. Na verdade, eu me pergunto: e quanto a nós, membros efetivos de A.A., confiamos ou não confiamos em Alcoólicos Anônimos?

Todavia, conduzir o movimento Alcoólicos Anônimos em direção contrária à solução que A.A. propõe para o alcoólico que sofre do alcoolismo e deseja ajuda, para mim, é ilegal e imoral.

Talvez nossos princípios estejam ultrapassados e precisem de uma reforma ou adequação por conveniência à contemporaneidade. Será? Posso responder, com toda a segurança, que não! Alcoólicos Anônimos ainda está por ser descoberto. Estão reservados ao futuro seus conceitos e integridade. Aqui está nosso grande risco: esse futuro só se dará se seguirmos o que foi sugerido por nossos fiéis cofundadores, em sacrifício de nossas frágeis vontades. Contudo, posso afirmar aos senhores e senhoras: o maior grau de eficiência no tratamento do alcoólico é nosso. Certamente, se nos aproximássemos o máximo possível daquilo que nos foi legado, atingiríamos o mesmo nível em efetividade.
Não atuamos no campo da educação, não promovemos encontro algum para quem quer que seja, não apoiamos e nem combatemos causa alguma, seja ela judiciária, científica, política, socioeconômica, legislativa, publicitária, pedagógica, enfim, nada! Por mais meritório que possam parecer. E não é por arrogância, e sim, por sobrevivência. Jamais polemizamos! 
Um outro exemplo é o termo de cooperação com a Justiça que, a meu ver, é completamente equivocado e contraditório. E não por culpa dos amigos de A.A. que são membros da Justiça, mas pelos trabalhos de informação pública que deveriam ser proativos e não são, bem como pela falta de compromisso e responsabilidade de nossos próprios quadros de servidores, que simplesmente aguardam o bebedor-problema tropeçar em nossos clubes pelo encaminhamento da Justiça, ocasionando, assim, inúmeros conflitos nessa recepção. Mas isso é assunto para um novo artigo.

A conversa do jornalista 'B.B.B." com o fanfarrão jornalista-escritor


Outro dia, assisti por um canal do YouTube um Amigo de A.A. (segundo o próprio) tão simpático e, ao mesmo tempo, tão tolo em seus doces comentários e afirmações, coincidentemente, tão infeliz quanto seu interlocutor, afirmando, em rede nacional, num programa da TV aberta, que nós, os A.A., somos os Santos da Modernidade. Que piada! E pior: disse que podemos frequentar nossas reuniões por esporte. No fundo, no fundo, esse cidadão me cheirava a cachaça, um dos nossos, e dos "brabos". Fatalmente, um companheiro enrustido, que chamamos, por aqui, de bebedor-forte, muito parecido com o verdadeiro alcoólico, só que com uma diferença: um susto o faz parar de beber por completo. Já o verdadeiro alcoólico, meus amigos, está condenado a uma reforma radical de personalidade se quiser sobreviver.

Já vi essa prática de Simpósios para profissionais acontecer aqui no Rio de Janeiro, promovida pelo nosso ESL. Mas, por aqui, a gente até engole por amor aos mesmos. A deficiência de nossos servidores é total na matéria tradições e passos. Pelo que vejo, é uma metástase!

Temas do material apresentado para simpósio patrocinado pela JUNAAB. 

  1.  Alcoolismo no século 21 - Cenários e Perspectivas.
  2.  Ações da Justiça no enfrentamento do alcoolismo.
  3.  Alcoolismo e Sociedade - Formar e informar

Por favor, leiam todas as orações ou frases, como quiserem, da 6ª e 10ª tradições de Alcoólicos Anônimos. Reflitam e, juntos, entendam suas implicações.

Por último, deixarei um singelo recorte, mas com potente clareza, para vocês: "Mais do que nunca percebemos que não poderíamos emprestar o nome de A.A. a qualquer causa que não fosse a nossa."

Graças ao nosso bom Deus, tudo está mudando e para melhor!!! Estamos inaugurando uma nova fase na recuperação das ideias originais de Alcoólicos Anônimos, exatamente igual à origem do termo simpósio. Ideias usurpadas por seus próprios membros, em razão do desejo pessoal de prestígio e grana. O mercado e a indústria da dependência química são dois monstros insaciáveis, funcionam de forma bem parecida a algo que nos é bastante familiar. O problema não é o álcool, e sim, nós, as personalidades. E o A.A. tem a solução completa para esse MAL.

Só por agora, compreendo o significado restrito nesta máxima encontrada em nossos livros fundamentais: "O bom é inimigo do melhor." Agora, só por agora.

Jornal Haja Fígado.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Alcoólicos Anônimos são quase 75 anos no Brasil

Robô da Junaab Alcoólicos Anônimos

São quase 75 anos de experiências no Brasil. Infelizmente, não temos muito que comemorar, dada a pouca eficiência de nossa sociedade de alcoólicos recuperados que teimam em seguir seu caminho apartado de sua importante Obra. Aquela legada em nossos livros. Experiências escritas que fazem toda diferença na boa compreensão em tudo aquilo que envolve o alcoólico, o alcoolismo, a recuperação e toda nossa sociedade Alcoólicos recuperados.

Segundo Alcoólicos Anônimos, a doença do alcoolismo é determinada, no indivíduo, por meio da combinação: obsessão aliada a compulsão. Um fator psíquico combinado a outro, orgânico: nós, os alcoólicos, desenvolvemos um tipo de reação alérgica ao ingerirmos a substância álcool, e, a partir daí, correremos o "risco" de gerar a compulsão. Diferente daquilo que muito se pensa, quantidade e a qualidade das bebidas não são os fatores que determinam a doença do alcoolismo.
Esclarecemos que Alcoólicos Anônimos não é uma sociedade antialcoólica. Não combatemos o uso do álcool, mas sim, reabilitamos, única e exclusivamente, o alcoólico que sofre. Nossa política de relações públicas junto à sociedade é estritamente informativo. Fornecemos informações sobre os aspectos do alcoolismo, extraídas de nossas próprias experiências, a fim de possibilitar ao alcoólico que ignora o seu alcoolismo uma possível identificação. Além disso, oferecemos nossa solução para uma boa recuperação. A única prevenção que realizamos visa a evitar um maior comprometimento do indivíduo já alcoólico em relação à doença, a partir do esclarecimento acerca de dois dos seus principais aspectos: a inexistência de uma cura reconhecida que impeça a progressão da doença e restabeleça a condição de bebedor social, quero dizer, retroceder a tal condição moderada. Essa sim seria a cura.
É importante mencionarmos que o conceito de doença, trabalhado por Alcoólicos Anônimos desde 1935, somente foi reconhecido e adotado oficialmente, pela OMS, 29 anos após o registro em seu livro grande, intitulado "Alcoólicos Anônimos", de 1939. Isso denota o caráter vanguardista de A.A., que perdura, até os dias de hoje, em todo o planeta.
É preciso dizer que, infelizmente, a maioria esmagadora de nossos membros desconhece em detalhes, ou não são capazes de descrever com total clareza, que Alcoólicos Anônimos possui um método para reabilitação da doença do alcoolismo, contido em seu programa de Recuperação, nossos Doze Passos. Método este cedido à diversas sociedades paralelas para cuidar de inúmeros transtornos ocasionados pelas neuroses do ego. Um método lógico, racional e revolucionário, que ainda insiste em permanecer na ponta, como solução definitiva para cuidar dos alcoólicos em convalescência, apesar dos seus 88 anos de existência. Lembramos sempre que nenhum dos seus membros fala "em nome de" A.A., mas, no máximo, "de" A.A.
As opiniões dos alcoólicos recuperados baseiam-se sempre na propriedade de suas experiências pessoais. Nossas experiências afirmam que precisamos encontrar uma nova maneira de viver, resultante do método para o alcance e manutenção da nossa sobriedade.
Uma VIDA que realmente nos agrada....

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Alcoólicos Anônimos: autossuficiente!?

70 anos de A.A. no Brasil

Nossa 7ª Tradição começa com uma sugestão aparentemente simples: "Todos os grupos de A.A. deverão ser absolutamente autossuficientes, rejeitando quaisquer doações de fora." Essa tradução, presente nas edições brasileiras sob o controle da JUNAAB (Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil), com permissão da AAWS (Alcoholics Anonymous World Services, Inc.), carrega consigo uma palavra que, ao longo dos anos, tem gerado discussões e mal-entendidos: "autossuficiência".

Mas o que realmente significa ser autossuficiente? E, mais especificamente, "absolutamente autossuficiente"? A tradução conjuga o verbo "dever" no futuro, sugerindo uma meta a ser alcançada, enquanto o original em inglês, "ought to be self-supporting", indica uma condição presente, já neste instante, e não mais adiante! Essa pequena diferença temporal pode parecer insignificante, mas reflete uma contradição profunda no significado do termo.

Autossuficiência, em seu sentido mais literal, significa bastar-se a si mesmo. No contexto da 7ª Tradição, ela se refere ao sustento material dos grupos, que deve vir exclusivamente dos próprios recursos de seus membros, sem depender de doações externas, que, consequentemente, esbarra diretamente nas nossas relações humanas com profissionais contempladas na 8ª Tradição, e, indiretamente, na 9ª Tradição. No entanto, essa ideia de autossuficiência, quando mal interpretada, pode se tornar uma armadilha perigosa. Ela sugere uma independência que vai em desencontro aos princípios espirituais de A.A., que pregam justamente o contrário: a dependência de um Deus, na forma em que O concebíamos e o apoio mútuo entre os membros.
"Absolutamente" o advérbio ratifica a recomendação de recusa de quaisquer donativos materiais, mesmo aquelas doações que simulam concessões inofensivas.
Vejamos um exemplo prático. Imagine um grupo de A.A. que aluga um espaço em uma igreja católica por um valor simbólico, digamos, R$ 50,00 mensais, para realizar suas reuniões uma vez por semana. À primeira vista, pode parecer uma solução prática e inofensiva. No entanto, essa prática esbarra em questões delicadas. Primeiro, porque não há um contrato que defina claramente os direitos e deveres das partes envolvidas. Segundo, porque essa proximidade com instituições religiosas pode criar barreiras para aqueles que não se identificam com a fé católica ou com qualquer outra religião. O ideal seria que os grupos de A.A. mantivessem uma distância saudável de igrejas e outras instituições religiosas, garantindo que o programa seja acolhedor para todos, independentemente de suas crenças ou descrenças. ─ Diz a profecia, que: “A verdadeira liderança de A.A. se encontra do lado fora”. ─ Torço para que eu veja essa profecia se realizar ainda nesta vida.

Aqui, é importante ressaltar que o problema não está no valor pago, mas na falta de um contrato e na possibilidade de interpretações equivocadas. A 7ª Tradição não proíbe doações, ─ ou melhor, contribuições ─, mas recomenda que os grupos sejam "absolutamente autossustentáveis", ou seja, que dependam apenas de seus próprios recursos, sem criar vínculos que possam comprometer sua independência e neutralidade.

E é justamente aqui que a tradução da palavra "self-supporting" como "autossuficiência" se mostra inadequada. No original, o termo "self-supporting" significa "autossustentável", ou seja, capaz de se manter com seus próprios recursos. Já "autossuficiência" carrega uma conotação de independência total, uma sutil oportunidade ou brecha que descamba para tendência a seguir nesse nosso artigo, algo que vai contra os princípios de A.A., que pregam a prudência e a dependência de um Deus, na forma em que O concebemos.

No entanto, a má compreensão desse princípio tem levado a práticas ainda mais preocupantes. Aqui na Área 01, no Rio de Janeiro, por exemplo, alguns grupos têm levado a ideia de autossuficiência ao pé da letra, adquirindo propriedades por meio de compra ou construção de um imóvel. Essa tendência, embora bem-intencionada, é um erro colossal. Nossos princípios recomendam maiores cuidados com propriedade, prestígio e poder, melhor seria nos abster desse tipo de empreendimento, e os motivos são óbvios: quem será o dono do imóvel? Em nome de qual membro do grupo ficará registrado? Afinal, somos todos donos, mas não há como dividir legalmente uma propriedade entre todos os membros de um grupo. 
Em A.A., costumamos dizer que a 7ª Tradição é o momento em que o material se une ao espiritual, com o espiritual prevalecendo. A autossustentação financeira dos grupos não é um fim em si mesma, mas um meio para garantir que possamos cumprir nossa missão primordial: levar a mensagem de recuperação ao alcoólico que ainda sofre.
A 5ª Tradição, que nos lembra; mantenhamos o foco em nossa missão primordial. Acaba sendo relegada ao último plano. Em vez de nos concentrarmos em levar a mensagem de recuperação, nos vemos envolvidos em disputas por propriedades, questões legais e administrativas que nada têm a ver com o propósito de um Grupo. Nosso sustento deve vir de contribuições voluntárias e anônimas, e, preferencialmente, estabelecendo contratos de aluguel para nossos espaços de recuperação. Que por sinal, uma atribuição que deveria ser destinada aos ELSs ou Intergrupais em favor dos Grupos.

Caro leitor, caso ainda não tenha se dado por satisfeito; Bill W., cofundador de A.A., foi cuidadoso ao escolher suas palavras. Ele, desejou comunicar-se conosco, evitando, o máximo possível, as dúvidas que as palavras possam promover para o bom funcionamento de toda essa engenharia que Alcoólicos Anônimos verdadeiramente é. No texto do primeiro passo, ele usa o termo "self-sufficiency" (autossuficiência) para descrever como o álcool nos esvazia de toda autossuficiência. Ou seja, ele reconhece que a autossuficiência é uma ilusão para nós, alcoólicos. No entanto, nas Tradições, ele opta por "self-supporting" (autossustentável), um termo que reflete a necessidade de os grupos se manterem financeiramente independentes, mas sempre contando com o apoio mútuo e a orientação de um Deus Amantíssimo. 

Portanto, a correção da tradução da 7ª Tradição não é uma mera questão semântica, mas uma necessidade para preservar a integridade do programa. Onde se lê "autossuficiência", deveria estar escrito "autossustentável", como no original. Essa mudança não apenas evitaria mal-entendidos, mas também reforçaria a ideia de que, em A.A., dependemos uns dos outros e de um Poder Superior, nunca de nós mesmos.
Mesmo que a 7a Tradição só se refira a questões materiais, e pudesse caber a palavra "autossuficiência" para esse aspecto, fica claro, para mim, que nada é mais inapropriado. Na verdade, a autossuficiência para nós, alcoólicos, é perniciosa e vai de encontro aos nossos princípios espirituais.
Só por agora, a autossuficiência, para nós, alcoólicos, é totalmente perniciosa. Ela nos leva a acreditar que podemos vencer a dependência do álcool sozinhos, ignorando a necessidade da ajuda mútua e externa. Pretendemos não mais buscá-la em nossas vidas, individuais ou coletivas, e, por isso mesmo, é que devemos abolir qualquer menção inadequada em nossos textos ou registros. Nos é revelado, por A.A., que existe uma forma de dependência nunca por nós experimentada, e quanto mais dependentes de Deus, mais livres nos tornamos. Esse paradoxo é a essência do programa de A.A., e é por isso que a correção da tradução da 7ª Tradição é tão importante. Este mesmo princípio se estende e é verificado nas nossas relações de serviços com os nossos custódios não alcoólicos, profissionais e amigos de A.A., funcionários, que cumprem seus papéis de grande valor, e, sobretudo, de Deus.

Agora, o que realmente o nosso cofundador quis nos oferecer como princípio em nossas tradições e especialmente nesta? 
─ Para mim, resultado precioso do exercício da humildade junto a responsabilidade, desejando que a 7ª Tradição se manifeste com total sabedoria e força, dizendo:
“Todos os grupos de A.A. devem ser absolutamente AUTOSSUSTENTÁVEIS, rejeitando quaisquer doações de fora."
Estabelecendo por princípio em A.A. a virtude da pobreza, para nós, pobreza coletiva. Algo tão temido e mal compreendido por todos nesse mundo. Ao abraçarmos tal virtude coletivamente — mantendo apenas o necessário para nossa existência e longevidade —, nos libertamos das amarras do materialismo e nos aproximamos de um ideal em nossa irmandade: crescer espiritualmente e ajudar outros a encontrar a sobriedade.

Que lição! 
Não acumulamos, só precisamos de fundo de reserva prudente, ou seja, só o necessário.

Um viva bem sonoro aos 70 anos de A.A no Brasil. Recuperando vidas!