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sábado, 26 de março de 2022

A Gramática da Sobrevivência: O Significado Linguístico da Unidade em Alcoólicos Anônimos

Um dos botes utilizados pelo grupo Eddie Rickenbacker no Pacifico após a queda B-17

“O nosso bem-estar comum deve vir em primeiro lugar; a recuperação pessoal depende da unidade de AA.”

A literatura de Alcoólicos Anônimos é rica em simbolismos, mas poucas palavras carregam tanto peso e complexidade quanto o termo Unidade. No entanto, uma observação pouco cuidadosa desse conceito frequentemente gera ambiguidades, má compreensão e equívocos teóricos que resultam em uma difusão precarizada do seu real significado. Essa incompreensão não é um mero detalhe acadêmico, mas um problema de extrema gravidade prática. Quando a unidade é mal interpretada, grupos inteiros correm o risco de ruir, seja caindo na armadilha da uniformidade cega — onde o autoritarismo sufoca a individualidade — ou no extremo oposto do isolamento anárquico, onde o egoísmo destrói a coesão coletiva. Compreender as nuances linguísticas da Unidade é, portanto, uma questão de sobrevivência para a irmandade, pois o termo transita intencionalmente por diversas funções gramaticais e papéis literários para sustentar as Doze Tradições.

Em sua análise mais direta, a Unidade se apresenta como um substantivo abstrato. Ela corporifica o conceito e a própria estrutura física e organizacional da irmandade. Quando declarada como um legado, ao lado da Recuperação e do Serviço, ela deixa de ser uma ideia vaga e passa a representar o "corpo" de A.A., a liga que mantém os grupos conectados globalmente. No entanto, o texto literário da comunidade rapidamente expande essa fronteira, conferindo à palavra um claro valor adjetivo. Nesse cenário, a Unidade funciona como uma qualidade essencial e uma virtude a ser praticada pelos membros. Não basta que a associação exista formalmente como substantivo; é vital que os indivíduos ajam de maneira unida, transformando o termo em sinônimo de tolerância, harmonia e mútua cooperação, combatendo justamente a difusão precarizada que ameaça a paz dos grupos.

A transformação linguística mais impactante ocorre quando a Unidade assume o papel de Sujeito da oração nas Doze Tradições. Na Primeira Tradição, por exemplo, o texto afirma categoricamente que a reabilitação pessoal depende da unidade de A.A. Ao ganhar essa posição sintática, a palavra ganha vida própria e passa a agir como uma entidade viva, tornando-se o agente principal que garante a vida de cada membro individualmente. O indivíduo abre mão de sua soberania gramatical e existencial, reconhecendo que o coletivo é o verdadeiro sujeito que sustenta a sua sobriedade. Essa personificação transforma um conceito abstrato no bem supremo e vital daquela comunidade, esvaziando os equívocos gerados por interpretações rasas.

"1ª Tradição de AA nos diz o quanto é importante nos reunirmos em grupo, presencialmente, com objetivo comum; nossa 5ª Tradição. Ademais, todo resto é acessório e nos será acrescentado por graça e obra de Deus. Essa é Sua parte, a maior parte! devo dizer."

Indo mais fundo na semântica textual, a Unidade também atua como um advérbio de modo implícito e como uma metonímia. Como advérbio, ela dita o "como" fazer, orientando que todas as decisões e interações cotidianas dos grupos devem ocorrer obrigatoriamente através do espírito de união. Como metonímia, a palavra substitui o todo pela parte, onde falar em preservar a unidade significa, em última análise, salvaguardar a vida de cada alcoólico que ainda sofre. O termo opera ainda como um imperativo categórico oculto, um mandamento silencioso de desprendimento do ego que ecoa o tempo todo nos ouvidos dos membros: unir-se para não morrer sozinho.

Ao comparar a Unidade com os outros dois legados, percebe-se a perfeita engrenagem conceitual de A.A. Enquanto a Recuperação foca no campo individual e interno do "Eu", e o Serviço se projeta na ação externa em direção ao "Outro", a Unidade surge como a síntese que ampara ambos, estabelecendo a esfera do "Nós". O livro Doze Passos e Doze Tradições deixa claro que essa união não exige uniformidade de pensamento, mas sim a convergência de propósitos. Compreender a Unidade sob a ótica da linguagem revela que ela afasta qualquer interpretação ambígua ou precarizada, mostrando-se como a própria gramática da sobrevivência, uma palavra multifacetada projetada para garantir que o todo seja sempre maior e mais forte do que a soma de suas partes.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Recuperado ou em Recuperação, o que diz o A.A.?

Recuperação em Alcoólicos Anônimos


Muitos membros, não apenas no Brasil, mas também em muitos outros lugares onde A.A. encontra-se presente, acrescentam inapropriadamente nas suas apresentações pessoais o termo: “ Fulano de tal qual… em recuperação”. Este “apêndice”, que nunca existiu, foi introduzido nos anos 70 do século passado, quando, após a promulgação da “Lei Hughes” ─ ver aqui outro post ─, os grupos de A.A. passaram a ser inundados por clientes das inúmeras clínicas de recuperação criadas para se aproveitar dos incentivos oferecidos por essa lei, introduzindo um tipo de linguagem na Irmandade que até hoje ainda não foi devidamente depurado, muitas vezes, à omissão, conivência ou até conveniência de que poderia fazê-lo. Nós! 

Esta expressão, em recuperação, sugere a fase existente quando da chegada do alcoólico ou alcoólica à Irmandade, mas que deve ser superada e passar à condição de recuperado(s) decorrido o tempo necessário para a libertação da obsessão e da compulsão ao se colocarem em prática os princípios sugeridos pela Irmandade, e esta é sua finalidade. 

Os membros de A.A. em sua maioria consideram que a doença do alcoolismo, uma vez instalada, não tem cura; mas os mecanismos que conduzem à sua continuidade podem ser detidos e a sanidade recuperada.


O que diz o Livro Alcoólicos Anônimos


Ao longo do Big Book  ─ Livro Alcoólicos Anônimos, Livro Azul no Brasil ─, a palavra recuperado(s) consta, pelo menos, 17 vezes, começando já pelo Prefácio à primeira edição em 1939 e em todas outras edições ─ “Nós, de Alcoólicos Anônimos, somos mais de cem homens e mulheres que nos recuperamos de uma aparentemente irremediável condição mental e física. Demonstrar a outros alcoólicos exatamente como nos recuperamos é o principal objetivo deste livro…” ─ e cujo texto “expõe os Passos e procedimentos sugeridos pela Irmandade que os membros iniciais acreditavam ser responsáveis por sua capacidade de superar a compulsão de beber”. 

Até os dias de hoje não houve qualquer motivo, evento ou descoberta, que sugerisse que o sentido desse texto devesse ser mudado. À época do lançamento do Livro, 10 de abril de 1939, o recuperado mais antigo, Bill W., tinha-se libertado da obsessão pela bebida de forma repentina durante sua última internação, havia quatro anos e quatro meses; já, o Dr. Bob precisou de mais de dois anos em abstinência para que essa libertação ocorresse e assim acontece até os dias de hoje; essa libertação, ou acordar espiritual, não tem um tempo cientificamente definido para acontecer e depende do esforço individual, ou, nas palavras do Dr. Bob em sua despedida, “Todos fizemos as mesmas coisas. Todos conseguimos os mesmos resultados em proporção direta ao nosso zelo, entusiasmo e capacidade de aderir”. Mesmo assim, poderá nunca acontecer. 

Aqui vai uma opinião pessoal: O mais simples, coerente e prudente, talvez, seja eliminar essas expressões, uma e outra, das nossas apresentações pessoais dentro da reuniões de A.A., a não ser que nesta mesma sala de reunião esteja ali a primeira visita de um provável membro ou interessado, ou nas inúmeras tarefas de CTO. Nesses casos, o termo RECUPERADO denota com precisão a razão de Alcoólicos Anônimos existir, não causando qualquer dúvida para quem nos assisti sem qualquer familiaridade sobre assunto alcoolismo e recuperação. 

Esse mesmo assunto é tratado de forma recorrente em nosso blog, devida sua importância, no artigo: "CTO, pelos caminhos do Livro Grande de Alcoólicos Anônimos"; E num outro artigo que fornece a sugestão de um roteiro para as tarefas de CTO intitulado "CTO de Alcoólicos Anônimos, lancemos as iscas somente!"

Argumentos importantes que precisam circular em nosso meio com toda força... Precisamos ser o mais claro possível com o alcoólico que ainda sofre e sensíveis ao ponto de eliminarmos as incoerências com a fonte que, a meu ver, a melhor das experiências. E aqui não se trata de preciosismo ou, simplesmente, querer polemizar, mas porque sabemos das responsabilidades e dificuldades em se atingir o indivíduo onde todos os seus instintos naturais gritam contra a ideia da impotência pessoal.    

*parte deste texto foi extraído de uma fonte não oficial.

Lei Hughes e Bob P. Alcoólicos Anônimos

Lei Hughes e Alcoólicos Anônimos

Saúdo-te e dou graças pela tua vida.



Em 1970 foi aprovada pelo Congresso dos EUA uma lei elaborada pelo senador Harold E. Hughes (1922 – 1996) que criava o Instituto Nacional para o Abuso do Álcool e do Alcoolismo (NIAAA), a PL91-616. Para a elaboração desta lei o senador Hughes ─ que tinha sido Governador do Estado de Iowa e seria candidato à presidência dos EUA, também era membro de A.A. desde 1952 em Ida Grove, Iowa ─ realizou audiências públicas entre os dias 23 e 25 de julho de 1969 das quais participaram entre outros, Marty Mann (1904 - 1980) - “a primeira dama de Alcoólicos Anônimos”, fundadora do Conselho Nacional para o Alcoolismo (ANC), e Bill W. co-fundador de A.A. Outros alcoólicos em recuperação foram convidados, mas não compareceram por considerar as audiências uma ameaça ao anonimato.


Esta lei oferecia subsídios e incentivos com dinheiro público para que os Estados desenvolvessem programas públicos e particulares criassem centros de tratamento para auxiliar as pessoas dependentes do alcoolismo. Atrás dessa mina de ouro correram centenas de investidores e profissionais das mais diversas áreas. Ficou ainda mais empolgante em 1974 quando o Congresso aprovou um aditivo àquela lei e criava o Conselho Nacional sobre Alcoolismo e Toxicodependência (NCADD).


Clínicas de recuperação para dependentes químicos


Muitos destes programas e centros de tratamento passaram a ser executados e dirigidos por pessoas e profissionais, psiquiatras e psicoterapeutas, sem a devida capacitação apenas visando o comercio, criando teorias a respeito do tratamento que eles consideravam o mais lucrativo, escrevendo livros e panfletos que vendiam a cura para o álcool e as drogas e, muitos deles ostensivamente hostis à Irmandade e ao programa de A.A.

Estas clinicas oportunistas criadas a toque de caixa foram atropelando as clinicas mais tradicionais para o tratamento sério do alcoolismo e outras dependências que contavam com profissionais especializados e capacitados para esse fim e eram conduzidas e administradas de maneira responsável.

Àquela altura a Irmandade já desfrutava de ampla aprovação da sociedade e seu modelo tinha sido usado como referência para a discussão da lei que tinha criado tudo aquilo, no sentido de indicar que o alcoolismo podia ser detido.

Então centenas de alcoólicos começaram a sair destes centros após uma lavagem cerebral feita por estes profissionais da saúde mental convencidos de que teriam uma recuperação satisfatória desde que seguissem aqueles procedimentos científicos. Muitos dos ingressos das clinicas não conseguindo a recuperação pelos ditos procedimentos científicos passaram a procurar a Irmandade, porém, levando consigo os livros, panfletos e modelo de tratamento desses centros e tratando de incorporá-los e sobrepô-los ao programa de A.A. e se apresentando unicamente como adictos mesmo também sendo alcoólicos e sustentando que o álcool era uma droga tal qual e que o programa se aplicava à sua condição ignorando propositadamente que o programa de A.A. se baseia em princípios universais, portanto utilizável por qualquer pessoa interessada, enquanto a Irmandade de A.A. foi criada unicamente para alcoólicos sem importar que, além dessa condição, sejam homens, mulheres, índios, esquimós, negros, brancos, esquizofrênicos, neuróticos, adictos a outras drogas, presidiários, obesos mórbidos, profissionais liberais, homossexuais, empregados, desempregados crentes, não-crentes etc.

Esta postura de confronto dos advindos das clinicas com as Tradições da Irmandade causou problemas imediatos.

Para enfrentar essa situação, a estratégia mais simples e fácil que muitos veteranos, tomados pelo medo e a insegurança (colocados acima por Bob Pearson), encontraram foi a de dizer que não se poderia ler nem discutir outro tipo de literatura que não a aprovada pela Conferência e a incitar e doutrinar os novos contra esse tipo de influência que por sua vez passaram a pressionar as Intergrupais e os próprios grupos a não distribuir nem vender nenhum outro tipo de literatura, incluindo ai a recomendada pelos veteranos e pioneiros, tais como “Vinte e Quatro Horas por Dia”, “O Sermão da Montanha”. “A Bíblia”, “O Pequeno Livro Vermelho” etc., reduzindo o programa de A.A. à interpretação dos escritos de uma única pessoa, no caso Bill W. e à vontade dos “donos” de Grupo.

Quanto aos declarados “cruzados”, Grupos começaram a recebê-los com reservas quando não animosidade, a fazer triagens e excluí-los dos Comitês de Serviço e a proibir-lhes falar de suas outras condições, revertendo uma situação que, até a chegada massiva de integrantes dessas clínicas com seus tratadores e seus investidores, era considerada pacífica e normal em boa parte dos Grupos, desde a chegada em 1944 do primeiro membro declaradamente homossexual e adicto além de negro, num pais escancaradamente racista, para tratar de seu problema com a bebida, o qual é o único propósito da Irmandade.

Essa situação, considerada até hoje a prova mais difícil que a Irmandade já passou, gerou preconceitos e desconforto nos Grupos a tal ponto que em 1978 o GSO, Escritório de Serviços Gerais, emitiu uma declaração oficial no seu Boletim, o Box 459, num chamamento ao bom senso à tolerância e à reflexão, Bob P. (1917-2008) que foi Gerente Geral do Escritório de Serviços Gerais (GSO), em Nova York, entre 1974 e 1984, deu uma poderosa e inspiradora palestra de encerramento da 36ª Conferência de Serviços Gerais em 26 de abril de 1986, no Hotel Roosevelt em Nova York e da qual seguem alguns excertos: “Esta é minha 18ª Conferência de Serviços Gerais ─ as duas primeiras como diretor da GRAPEVINE e AAWS (Serviços Mundiais de A.A.), seguidas de quatro como administrador de Serviços Gerais ─. Em 1972 desliguei-me completamente, até ser chamado de volta dois anos depois para servir como gerente geral do GSO, onde permaneci até o final de 1984. Desde a Convenção Internacional de 1985 tenho sido consultor sênior. Esta foi também a minha última conferência e, portanto, carregada de muita emoção.

Eu gostaria de ter tempo para expressar meus agradecimentos a todos que têm contribuído com a minha sobriedade e para a vida com alegria com que eu tenho sido abençoado ao longo dos últimos quase 25 anos. Mas como isto é obviamente impossível, vou voltar atrás lembrando um provérbio citado por Bill em sua última mensagem: ‘Saúdo-te e dou graças pela tua vida’. Pois sem suas vidas, eu certamente não teria tido a vida incrivelmente rica que eu desfrutei.

Deixe-me oferecer minhas ideias sobre o futuro do AA. Eu não acredito no alarme daqueles ‘resmungões’ que têm uma visão pessimista da Irmandade. Pelo contrário, da perspectiva de meu quase quarto de século em A.A., vejo a Irmandade maior, mais saudável, mais dinâmica e, de longe, com crescimento mais rápido, mais globalizado, mais consciencioso, mais simples, e mais espiritual do que quando participei da minha primeira reunião em Greenwich, Connecticut, em julho de 1961. A.A. floresceu para além dos sonhos dos membros fundadores.

Faço eco aqueles que sentem que, se a Irmandade um dia vier hesitar ou falhar, não será por causa de qualquer causa externa. Não, não será por causa de:
centros de tratamento
ou de profissionais da área,
ou da literatura não-aprovada pela conferência,
ou dos jovens,
ou dos portadores de dependências cruzadas,
nem até mesmo dos usuários de drogas tentando assistir às nossas reuniões.

Se nos mantivermos próximos às nossas Tradições e Garantias e se mantivermos a mente aberta e um coração aberto, podemos lidar com esses e outros problemas. Se vacilarmos, falharemos e isso será simplesmente por nossa culpa. Será porque não podemos controlar nossos próprios egos e porque somos incapazes de conviver bem uns com os outros. Será porque temos muito medo e insegurança, rigidez, falta de confiança e de senso comum.
Se você me perguntasse qual é o maior perigo enfrentado por A.A. hoje, eu teria que responder:
a rigidez crescente;
a demanda por respostas absolutas para minúcias;
a pressão sobre o GSO para ‘reforçar’ as nossas tradições;
a triagem de alcoólicos em reuniões;
a proibição de literatura não-aprovada pela Conferência;
o estabelecimento de mais e mais regras para controlar os grupos e seus membros.

Esta tendência à rigidez está nos afastando cada vez mais dos nossos membros fundadores. Bill, em particular, deve estar dando voltas em seu túmulo, pois ele foi talvez a pessoa mais permissiva que eu já conheci. Uma de suas frases preferidas era: ‘Cada grupo tem o direito de estar errado’. Ele era irritantemente tolerante com seus críticos, e ele tinha fé absoluta na capacidade de AA se autocorrigir.

Eu também acredito nisso; então, em última análise, não vamos desmoronar. Nós não iremos falhar ou fracassar. Na Convenção Internacional de 1970 em Miami, eu estava na plateia naquela manhã de domingo, quando Bill fez sua breve e última aparição pública. Ele, muito doente, estava internado no Hospital do Coração naquela cidade e os organizadores decidiram incluir uma rápida aparição no evento. Na manhã daquele domingo, ele foi levado ao palco em uma cadeira de rodas, com tubos ligados a um cilindro de oxigênio; vestindo um ridículo blazer laranja brilhante que o comitê anfitrião tinha arrumado, ele soltou seu corpo angular e quando agarrou o pódio a emoção tomou conta de todos. Eu pensei que os aplausos e gritos nunca iriam parar; as lágrimas escorrendo pelo rosto de todos. Finalmente, em uma voz firme, como o seu antigo eu, Bill falou algumas frases graciosas sobre a multidão enorme que incluía muitos membros vindos do exterior, terminando (como eu me lembro) com estas palavras: ‘Quando eu olho esta multidão, eu sei que Alcoólicos Anônimos vai viver mil anos - se for a vontade de Deus’.

Em decorrência dessa Lei, centenas de pessoas com problemas de adicção e alcoolismo começaram a procurar tratamento nessas clinicas e, sem saber o que fazer após o prazo de internação ou tratamento ambulatorial, era indicado a esses clientes que procurassem as salas de A.A., num momento em que NA passava por momentos de dificuldades internas. Esta situação pegou a maioria dos Grupos de surpresa e sem saber o que fazer para resguardar o propósito único da Irmandade, o de levar a mensagem unicamente a outro alcoólico, criaram regras extremamente rígidas para desestimular essas pessoas a procurar a Irmandade, mesmo as alcoólicas com outros problemas. A rigidez extremada e a intolerância tomaram conta de muitos Grupos. Esta situação foi tema e objeto de longos e aprofundados debates, entre os prioritários, de várias Conferências e muitas águas correram até que o bom senso, a tolerância e a harmonia dessem sinais de restabelecimento.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O bom, as vezes, é inimigo do melhor em Alcoólicos Anônimos

Alcoólicos Anônimos e a JUNAAB

Aos Comitês que Trabalham com Outros do país e a quem mais desejar.


Simpósio (em grego: συμπόσιον, transl. sympósion) é um termo que se referia, na Grécia Antiga, a uma festa em que bebidas eram servidas (o verbo grego sympotein significa "beber junto"), geralmente realizada depois de um banquete, e durante a qual eram travados diálogos e conversas intelectuais, enquanto escravos ou empregados faziam apresentações de música e dança. Recentemente, o termo passou a designar qualquer conferência acadêmica ou um estilo de aula ministrada em universidades, que segue um formato abertamente discursivo, e não o tradicional de uma palestra ou de uma aula com perguntas e respostas.
O termo, na sua acepção original, me parece bem apropriado para o caso que trataremos aqui. Infelizmente – ou felizmente –, mais uma vez, nossa análise recorrerá ao tom da crítica. Peço licença aos senhores e senhoras, queridos leitores e companheiros, pelo inconveniente, mas é necessário estabelecer alguns esclarecimentos sobre um comportamento completamente discordante de nossos princípios espirituais e fundamentais. Acreditem: precisamos revisar toda nossa sociedade de Alcoólicos Anônimos, caso contrário, estaremos muito próximos do fim de nossa "SOCIEDADE E SUA MENSAGEM", já que a geração de valorosos servidores veteranos, imbuídos e movidos genuinamente pelo sentimento de zelo e gratidão, está prestes a desaparecer.

Aqui, refiro-me somente aos donos dos "Anéis de Bamba", aos mestres do trabalho e sacrifício. Uma geração anônima que muito realizou, impelida pelo instinto de sobrevivência, e, seguida, mais adiante, por uma geração nova que pouco realizou. Talvez por acreditar que já estivesse tudo pronto. Ledo engano!

Simpósio Nacional para Profissionais - Alcoólicos Anônimos


Quer dizer que Alcoólicos Anônimos no Brasil certifica a participação dos presentes em seu "simpósio"? Então, devo supor que o A.A. do Brasil deixou sua autoridade moral e leiga por uma autoridade magistrada? É isso mesmo? E o pior de tudo: reunimos nomes de pessoas que, em sua maioria, não respondem por Alcoólicos Anônimos, e endossamos, com nosso patrocínio e apoio em gênero, número e grau, suas verdades, teorias, contradições, equívocos, sofismas etc., relacionados a nossa experiência na recuperação de alcoólicos. Quanto à nossa solução, quem falará de Alcoólicos Anônimos aos palestrantes e comensais?

Rasguemos, então, nossas tradições pela falta de fé no alcance da sobriedade? Estamos permitindo que pessoas alheias à nossa sociedade, com suas convicções materialistas, nos desviem de nosso propósito único. Isto é tão fácil de verificar que basta olharmos os temas apresentados para o simpósio, por exemplo. Não há uma única menção ao nosso propósito. Nenhuma! Comportamentos como este vêm ocorrendo há muito tempo. Estamos fazendo política, e não deveríamos, nos envolvendo e nos intrometendo em questões alheias ao nosso propósito único: alcançar o alcoólico que sofre e deseja encontrar uma solução definitiva para seu maior problema..

Reconhecemos em nossas salas, nos dias atuais, inúmeros candidatos à recuperação, os convalecentes,  encharcados de medicações alopáticas e educados por seus próprios médicos, afirmando que sua única saída será procurar um repositório, quero dizer, um clube de A.A. para frequentar diariamente, além de utilizar, agora, indiscriminadamente, a medicação prescrita até o fim de suas vidas! Que merda!!! Onde está a vida útil, íntegra e significativa numa filosofia dessas? A.A. é vida, e VIDA em abundância! Mas tem que se submeter aos princípios. Porém, primeiro, precisamos conhecê-los... Desfazer uma mentalidade como essa é trabalhoso demais. O tratamento do dependente químico pela ciência materialista é considerado, pelas autoridades, como uma verdadeira utopia. Na verdade, eles já desistem antes mesmo de começar.

Nosso Jornal não quer dizer que as pessoas envolvidas no "simpósio" estejam mal-intencionadas, mas sim que talvez estejam sendo inconscientemente conduzidas pela ilusão do prestígio e poder. Estamos bem certos de suas qualidades profissionais e acadêmicas, mas reconheço, tão claro como água de ribeirão, seus interesses pessoais, que, talvez por descuido ou por nos subestimarem ou por não confiarem em nossas experiências de mais de 90 anos no tratamento do alcoólico pelo mundo, usam o A.A. e, como não bastasse, soterram nossos princípios. Na verdade, eu me pergunto: e quanto a nós, membros efetivos de A.A., confiamos ou não confiamos em Alcoólicos Anônimos?

Todavia, conduzir o movimento Alcoólicos Anônimos em direção contrária à solução que A.A. propõe para o alcoólico que sofre do alcoolismo e deseja ajuda, para mim, é ilegal e imoral.

Talvez nossos princípios estejam ultrapassados e precisem de uma reforma ou adequação por conveniência à contemporaneidade. Será? Posso responder, com toda a segurança, que não! Alcoólicos Anônimos ainda está por ser descoberto. Estão reservados ao futuro seus conceitos e integridade. Aqui está nosso grande risco: esse futuro só se dará se seguirmos o que foi sugerido por nossos fiéis cofundadores, em sacrifício de nossas frágeis vontades. Contudo, posso afirmar aos senhores e senhoras: o maior grau de eficiência no tratamento do alcoólico é nosso. Certamente, se nos aproximássemos o máximo possível daquilo que nos foi legado, atingiríamos o mesmo nível em efetividade.
Não atuamos no campo da educação, não promovemos encontro algum para quem quer que seja, não apoiamos e nem combatemos causa alguma, seja ela judiciária, científica, política, socioeconômica, legislativa, publicitária, pedagógica, enfim, nada! Por mais meritório que possam parecer. E não é por arrogância, e sim, por sobrevivência. Jamais polemizamos! 
Um outro exemplo é o termo de cooperação com a Justiça que, a meu ver, é completamente equivocado e contraditório. E não por culpa dos amigos de A.A. que são membros da Justiça, mas pelos trabalhos de informação pública que deveriam ser proativos e não são, bem como pela falta de compromisso e responsabilidade de nossos próprios quadros de servidores, que simplesmente aguardam o bebedor-problema tropeçar em nossos clubes pelo encaminhamento da Justiça, ocasionando, assim, inúmeros conflitos nessa recepção. Mas isso é assunto para um novo artigo.

A conversa do jornalista 'B.B.B." com o fanfarrão jornalista-escritor


Outro dia, assisti por um canal do YouTube um Amigo de A.A. (segundo o próprio) tão simpático e, ao mesmo tempo, tão tolo em seus doces comentários e afirmações, coincidentemente, tão infeliz quanto seu interlocutor, afirmando, em rede nacional, num programa da TV aberta, que nós, os A.A., somos os Santos da Modernidade. Que piada! E pior: disse que podemos frequentar nossas reuniões por esporte. No fundo, no fundo, esse cidadão me cheirava a cachaça, um dos nossos, e dos "brabos". Fatalmente, um companheiro enrustido, que chamamos, por aqui, de bebedor-forte, muito parecido com o verdadeiro alcoólico, só que com uma diferença: um susto o faz parar de beber por completo. Já o verdadeiro alcoólico, meus amigos, está condenado a uma reforma radical de personalidade se quiser sobreviver.

Já vi essa prática de Simpósios para profissionais acontecer aqui no Rio de Janeiro, promovida pelo nosso ESL. Mas, por aqui, a gente até engole por amor aos mesmos. A deficiência de nossos servidores é total na matéria tradições e passos. Pelo que vejo, é uma metástase!

Temas do material apresentado para simpósio patrocinado pela JUNAAB. 

  1.  Alcoolismo no século 21 - Cenários e Perspectivas.
  2.  Ações da Justiça no enfrentamento do alcoolismo.
  3.  Alcoolismo e Sociedade - Formar e informar

Por favor, leiam todas as orações ou frases, como quiserem, da 6ª e 10ª tradições de Alcoólicos Anônimos. Reflitam e, juntos, entendam suas implicações.

Por último, deixarei um singelo recorte, mas com potente clareza, para vocês: "Mais do que nunca percebemos que não poderíamos emprestar o nome de A.A. a qualquer causa que não fosse a nossa."

Graças ao nosso bom Deus, tudo está mudando e para melhor!!! Estamos inaugurando uma nova fase na recuperação das ideias originais de Alcoólicos Anônimos, exatamente igual à origem do termo simpósio. Ideias usurpadas por seus próprios membros, em razão do desejo pessoal de prestígio e grana. O mercado e a indústria da dependência química são dois monstros insaciáveis, funcionam de forma bem parecida a algo que nos é bastante familiar. O problema não é o álcool, e sim, nós, as personalidades. E o A.A. tem a solução completa para esse MAL.

Só por agora, compreendo o significado restrito nesta máxima encontrada em nossos livros fundamentais: "O bom é inimigo do melhor." Agora, só por agora.

Jornal Haja Fígado.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Alcoólicos Anônimos são quase 75 anos no Brasil

Robô da Junaab Alcoólicos Anônimos

São quase 75 anos de experiências no Brasil. Infelizmente, não temos muito que comemorar, dada a pouca eficiência de nossa sociedade de alcoólicos recuperados que teimam em seguir seu caminho apartado de sua importante Obra. Aquela legada em nossos livros. Experiências escritas que fazem toda diferença na boa compreensão em tudo aquilo que envolve o alcoólico, o alcoolismo, a recuperação e toda nossa sociedade Alcoólicos recuperados.

Segundo Alcoólicos Anônimos, a doença do alcoolismo é determinada, no indivíduo, por meio da combinação: obsessão aliada a compulsão. Um fator psíquico combinado a outro, orgânico: nós, os alcoólicos, desenvolvemos um tipo de reação alérgica ao ingerirmos a substância álcool, e, a partir daí, correremos o "risco" de gerar a compulsão. Diferente daquilo que muito se pensa, quantidade e a qualidade das bebidas não são os fatores que determinam a doença do alcoolismo.
Esclarecemos que Alcoólicos Anônimos não é uma sociedade antialcoólica. Não combatemos o uso do álcool, mas sim, reabilitamos, única e exclusivamente, o alcoólico que sofre. Nossa política de relações públicas junto à sociedade é estritamente informativo. Fornecemos informações sobre os aspectos do alcoolismo, extraídas de nossas próprias experiências, a fim de possibilitar ao alcoólico que ignora o seu alcoolismo uma possível identificação. Além disso, oferecemos nossa solução para uma boa recuperação. A única prevenção que realizamos visa a evitar um maior comprometimento do indivíduo já alcoólico em relação à doença, a partir do esclarecimento acerca de dois dos seus principais aspectos: a inexistência de uma cura reconhecida que impeça a progressão da doença e restabeleça a condição de bebedor social, quero dizer, retroceder a tal condição moderada. Essa sim seria a cura.
É importante mencionarmos que o conceito de doença, trabalhado por Alcoólicos Anônimos desde 1935, somente foi reconhecido e adotado oficialmente, pela OMS, 29 anos após o registro em seu livro grande, intitulado "Alcoólicos Anônimos", de 1939. Isso denota o caráter vanguardista de A.A., que perdura, até os dias de hoje, em todo o planeta.
É preciso dizer que, infelizmente, a maioria esmagadora de nossos membros desconhece em detalhes, ou não são capazes de descrever com total clareza, que Alcoólicos Anônimos possui um método para reabilitação da doença do alcoolismo, contido em seu programa de Recuperação, nossos Doze Passos. Método este cedido à diversas sociedades paralelas para cuidar de inúmeros transtornos ocasionados pelas neuroses do ego. Um método lógico, racional e revolucionário, que ainda insiste em permanecer na ponta, como solução definitiva para cuidar dos alcoólicos em convalescência, apesar dos seus 88 anos de existência. Lembramos sempre que nenhum dos seus membros fala "em nome de" A.A., mas, no máximo, "de" A.A.
As opiniões dos alcoólicos recuperados baseiam-se sempre na propriedade de suas experiências pessoais. Nossas experiências afirmam que precisamos encontrar uma nova maneira de viver, resultante do método para o alcance e manutenção da nossa sobriedade.
Uma VIDA que realmente nos agrada....

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Spiritum contra spiritus

junaab, revista, vivência, aa.org.br

Ao  longo dos anos, como psiquiatra, em Zurique, na Suíça, Carl Jung tratou muitas pessoas com uma variedade de saúde mental, desafios e transtornos. Em 1931, ele tratou um americano, Rowland Hazard, que sofria de alcoolismo crônico. Seu tratamento não teve sucesso contra condição Rowland, que ficou desesperançado ao longo do tempo. Chegando à conclusão de a única recuperação possível seria uma experiência espiritual.


Rowland, aceitou o conselho de Jung por emoção e entrou para o Grupo Oxford, um movimento cristão evangélico nos Estados Unidos. Pelo ano de 1934, ele conheceu Edwin Thacher ("Ebby") em uma reunião de Oxford e compartilhadas as experiências de tratamento que teve com Carl Jung e seu conselho para buscar uma transformação espiritual.

Ebby tinha encontrado alívio de seu alcoolismo nas práticas espirituais simples do Grupo de Oxford, que foi uma tentativa de voltar ao cristianismo do primeiro século. O programa que Ebby descreveu a Bill, envolveu elaboração de um inventário moral pessoal, admitindo para outra pessoa os erros cometidos, fazer as pazes e reparação, e fazendo um esforço genuíno para ser útil aos outros. A fim de obter o poder para superar esses problemas, Ebby tinha o encorajado a clamar a Deus, pois ele o compreendeu.

Bill ficou profundamente impressionado com as palavras de Ebby, mas foi ainda mais afetada pelo exemplo de ação de Ebby. Ali estava alguém que bebia como Bill bebeu - e ainda, Ebby estava sóbrio, devido a uma ideia religiosa simples e um programa prático de ação. Os resultados foram uma pessoa inexplicavelmente diferente. Um milagre se sentou em frente à mesa da cozinha de Bill. Era uma mensagem de esperança - de que Deus iria fazer por nós o que não poderíamos fazer por nós mesmos.

Ebby levou a mensagem do Grupo Oxford de Bill com grande cuidado e dedicação - que a recuperação do alcoolismo era possível usando princípios espirituais, mas somente se ele fosse combinado com as ações práticas. Bill Wilson nunca tomou outro gole, e deixou Towns Hospital para dedicar o resto de sua vida em levar a mensagem a outros alcoólicos.

Leia aqui a carta de Bill W. endereçada ao famoso Psicanalista...

Como resultado de sua própria experiência de conversão a partir dos princípios e práticas de Oxford, Bill W. adotaram e adaptaram cinco dos princípios fundamentais para o AA (auto-exame, confissão, reparação, serviço, e oração / meditação). Ebby tornou-se a prova viva dessas práticas fundamentais que proporcionou uma experiência de conversão, o que pode resultar não só em sobriedade, mas uma nova maneira de viver.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Resposta de Carl G. Jung para Bill W. co-fundador de Alcoólicos Anônimos

alcoólicos anônimos junaab, revista vivência, aa.org.br
Caro Sr. Bill W. 
O único caminho certo e legítimo para tal experiência é que isso acontece com você, na realidade, e isso só pode acontecer com você, quando você anda em um caminho que leva a uma maior compreensão. Você pode ser levado a esse objetivo por um ato de graça ou por meio de um contato pessoal e honesto com os amigos, ou através de um ensino superior da mente para além dos limites do mero racionalismo. Vejo pela sua carta que Rowland H. escolheu a segunda maneira, que era, nas circunstâncias, obviamente, o melhor.
Sua carta tem sido muito bem-vinda.

Não tive mais notícias de Rowland H. e muitas vezes desejei conhecer o seu destino. Nossa conversa que ele fielmente lhe transmitiu teve um aspecto que ele não soube. A razão que eu não poderia dizer-lhe tudo foi que naquela época eu tinha que ser excessivamente cuidadoso com o que dizia. Eu havia descoberto que estava sendo mal interpretado de todas as formas possíveis. Por isso estive tão cuidadoso quando falei com Rowland H. Mas o que eu realmente pensei foi o resultado de muitas experiências com homens desse tipo.

Seu desejo por álcool era o equivalente, em um nível baixo, da sede espiritual do nosso ser pela totalidade, expressa em linguagem medieval.: A união com Deus *

Como se poderia formular um tal insight em uma linguagem que não seja mal interpretada por outros? 

Estou firmemente convencido de que o princípio do mal prevalecente no mundo conduz à necessidade espiritual não reconhecida para à perdição, se não for combatido tanto por verdadeiro insight religioso ou pela parede protetora da comunidade humana. Um homem comum, não protegido por uma ação de cima e isolado na sociedade, não pode resistir ao poder do mal, que é chamado muito apropriadamente de Diabo. Mas o uso de tais palavras desperta tantos erros que só podemos nos manter afastados delas, tanto quanto possível.

Estas são as razões pelas quais eu não poderia dar uma explicação cabal e suficiente para Rowland Hazard, mas estou arriscando-a com você, porque eu concluir em sua carta muito decente e honesta, que você tenha adquirido um ponto de vista acima das banalidades enganosas que normalmente se ouve sobre alcoolismo. 

Veja, "álcool" em latim é "spiritus" e você usar a mesma palavra para a maior experiência religiosa, bem como para o veneno mais depravador. Por conseguinte, a fórmula é útil: spiritum contra spiritus.

Agradecendo-lhe novamente por sua amável carta.

Eu permaneço 
Atenciosamente

CG Jung *

A carta de Bill W. co-fundador de Alcoólicos Anônimos ao Carl G. Jung

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Meu caro, Dr. Jung!

Esta carta de grande apreço me era devida a longo tempo. Permita-me apresentar como Bill W., co-fundador da Sociedade de Alcoólicos Anônimos. Embora você certamente tenha ouvido falar de nós, eu duvido que o senhor esteja ciente de uma certa conversa que teve com um de seus pacientes, Sr. Rowland H., no início dos anos 30, que teve um papel fundamental na fundação da nossa sociedade.

Apesar de Rowland H. há muito tenha feito a passagem, as lembranças de sua notável experiência, enquanto sob seu tratamento, tornou-se definitivamente parte da história da AA. Nossa lembrança das declarações de Rowland H. sobre sua experiência junto ao senhor é a seguinte:
Tendo esgotado outros meios de recuperação de seu alcoolismo, foi pelo ano de 1931 que ele se tornara seu paciente. Eu acredito que ele tenha permanecido sob seus cuidados por talvez um ano. Admiração pela sua pessoa não tinha limites, e ele o deixou com um sentimento de muita confiança.
Para sua grande consternação, ele logo recaiu intoxicado. Certo de que o senhor era o seu "tribunal de última instância", ele retornou novamente para seus cuidados. Seguiu-se a conversa entre ele e o senhor que viria a ser o primeiro elo da cadeia de eventos que levaram à fundação dos Alcoólicos Anônimos.
Minha lembrança sobre o que foi relatado desta conversa é a seguinte: Em primeiro lugar, o senhor francamente lhe havia dito de sua desesperança, e tanto quanto qualquer outro tratamento médico ou psiquiátrico pudesse lhe ser útil. Essa sua declaração sincera e humilde, foi sem dúvida a primeira pedra fundamental sobre a qual nossa sociedade foi construída.
Vindo do senhor, a quem ele tão confiava e admirava, o impacto sobre ele foi imenso. Quando então ele lhe perguntou se havia alguma esperança, o senhor lhe disse que poderia haver, desde que ele pudesse tornar-se sujeito de uma experiência espiritual ou religiosa - em suma, uma genuína conversão. O Senhor apontou como tal experiência, se provocada, poderia remotiva-lo, quando nada mais poderia fazê-lo. Mas o senhor pediu cautela, no entanto, que, enquanto tais experiências, por vezes, tinha trazido recuperação para alcoólatras, eram, no entanto, relativamente raras. O senhor recomendou que ele se colocasse em uma atmosfera religiosa e esperasse o melhor.Creio que essa tenha sido a substância de seu conselho.
Pouco tempo depois, o Sr. Rowland H. se juntou ao Grupo Oxford, um movimento evangélico então no auge de seu sucesso na Europa, o qual deve o senhor está familiarizado. O Senhor se lembrará da grande ênfase sobre os princípios do auto-exame, confissão, reparação, e doação de si mesmo no serviço aos outros. Eles enfatizam fortemente a meditação e a oração. Neste ambiente, Rowland H. fez encontrar uma experiência de conversão que o livrou até momento a compulsão por beber.
Retornando a Nova York, ele se tornou muito ativo, com os "GO" aqui, então dirigida por um pastor episcopal Dr. Samuel Shoemaker. Dr. Shoemaker havia sido um dos fundadores daquele movimento, e sua forte personalidade transmitia imensa sinceridade e convicção. 
Nessa época (1932-1934), os Grupos Oxford já havia recuperado um número de alcoólicos e Rowland, sentindo que ele poderia especialmente identificar-se com estes doentes, dirigiu-se à ajudar outros ainda. Um deles teve a chance de ser um antigo colega meu de escola, Edwin T. ("Ebby"). Ele havia sido ameaçado de prisão, mas Sr. H. e um outro membro "GO" um ex-alcoólico, ajudaram-no em sua liberdade condicional e a provocar a sua sobriedade.

Enquanto isso, eu seguia o curso do meu alcoolismo e eu mesmo estava ameaçado de prisão. Felizmente fiquei sob os cuidados de um médico - um Dr. William D. Silkworth - que era maravilhosamente capaz de entender os alcoólatras. Mas assim como Senhor havia desistido de Rowland, ele, do mesmo modo havia me abandonado. Sua teoria era a de que o alcoolismo tinha dois componentes - uma obsessão que obrigava o sofredor a beber contra sua vontade e desejo, e algum tipo de dificuldade metabólica que ele então a chamava de alergia. A compulsão alcoólica garantiria que o beber do alcoólatra continuaria adiante, e a alergia a certeza de que o doente iria finalmente se deteriorar, enlouquecer, ou morrer. Embora eu tenha sido um dos poucos que ele pensava que fosse possível ajudar, ele finalmente foi obrigado a dizer-me da sua desesperança; Eu, também, teria que ser trancafiado. Para mim, este foi um golpe devastador. Assim como Rowland foi preparado para sua experiência de conversão pelo senhor, assim meu maravilhoso amigo, Dr. Silkworth, me preparou.
Ouvindo minha situação, meu amigo Edwin T. veio ver-me em minha casa, onde eu estava bebendo. Até então, era novembro de 1934, há muito, tinha eu marcado meu amigo Edwin como um caso perdido. Mas ele estava em um estado muito evidente de "liberdade", que não pode de forma ser explicada por sua mera associação para um tempo muito curto, com os Grupos Oxford. No entanto, este estado evidente de libertação, tão distinto de sua depressão usual, foi tremendamente convincente. Porque ele era um parceiro de sofrimento, ele poderia se comunicar comigo, sem dúvida, em grande profundidade. Eu soube imediatamente que eu precisava encontrar uma experiência como a dele, ou morreria.
Mais uma vez, voltei aos cuidados do Dr. Silkworth onde pude novamente me tornar sóbrio e assim obter uma visão mais clara da experiência de liberdade do meu amigo, e da abordagem de Rowland H. a ele. 
Desintoxicado novamente do álcool, senti-me terrivelmente deprimido. Isso parecia ser causado pela minha inabilidade de conseguir a menor fé. Edwin T. visitou-me novamente e repetiu as simples fórmulas Grupos Oxford. Logo depois ele me deixou eu me tornei ainda mais deprimido. Em total desespero, clamei: "Se existe um Deus, Ele vai mostrar-se." Há, imediatamente me veio uma iluminação de enorme impacto e dimensão, algo que eu tenho e que tentei descrever no livro "Alcoólicos Anônimos" e em "AA Atinge a Maioridade", textos básicos que eu vos envio a vós.

Minha libertação da obsessão pelo álcool foi imediata. Ao mesmo tempo eu sabia que era um homem livre. Logo após a minha experiência, meu amigo Edwin chegou ao hospital, trazendo-me uma cópia William James '"Variedades da Experiência Religiosa". Este livro me deu a percepção de que a maioria das experiências de conversão, independentemente da sua variedade, têm um denominador comum, um colapso ego em profundidade. O indivíduo enfrenta um dilema impossível. No meu caso, o dilema tinha sido criado pela minha maneira de beber compulsiva e o profundo sentimento de desespero que tinha sido muito aprofundado pelo meu médico. E foi mais aprofundado ainda por meu amigo alcoólatra quando me contou de seu veredicto de desesperança a respeito de Rowland Hazard.
Na sequencia da minha experiência espiritual, veio uma visão de uma sociedade de alcoólatras, cada um identificando-se e transmitindo sua experiência para o próximo - estilo cadeia. Se cada sofredor levasse a notícia da desesperança científica do alcoolismo a cada novo interessado, ele pode ser capaz de colocar todo recém-chegado aberto a uma experiência espiritual transformadora. Este conceito provou ser a base de tal sucesso, como Alcoólicos Anônimos tem alcançado desde então. Isso tem tornado experiências de conversão - quase todas as variedades relatadas por James - disponíveis em uma base quase que por atacado. Nossos recuperações sustentados ao longo do último quarto de século, somam cerca de 300.000. Na América e através do mundo, há hoje 8.000 grupos de AA.
Assim, ao Senhor, ao Dr. Shoemaker dos Grupos Oxford, de William James, e ao meu próprio médico, Dr. Silkworth, nós de AA devemos este enorme beneficiamento. É com mais clareza que o senhor perceberá, esta espantosa cadeia de acontecimentos que realmente começou há muito tempo em seu consultório, e foi diretamente fundada sobre sua própria humildade e profunda percepção.
Muitos do AAs mais atentos estudam seus escritos. Por causa de sua convicção de que o homem é algo mais do que o intelecto, emoção e dois dólares de produtos medicação, o senhor tornou-se encantador especialmente para nós.
Como a nossa sociedade cresceu, desenvolveu suas tradições para a unidade, e estruturou o seu funcionamento, será visto nos textos e panfletos, material que eu vos envio a vós. 

O senhor também vai se interessar em saber que além da "experiência espiritual", muitos AAs relatam uma grande variedade de fenômenos psíquicos, sendo considerável seu peso cumulativo. Outros membros têm - seguindo-se a sua recuperação em AA - e se beneficiando por seus médicos. Alguns poucos tem se intrigado com o "I Ching", e sua notável introdução a esse trabalho.


Por favor, esteja certo de que seu lugar no afeto e na história da Irmandade, é como nenhum outro.
Grato seu, 
William G. W. 

Co-fundador dos Alcoólicos Anônimos

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Documentário Bill W. co-fundador de Alcoólicos Anônimos


alcoolicosanonimos.org.br, aa.org.br, revista vivência, junaab


Bill W. 

Documentário conta a história de William G. Wilson, co-fundador de Alcoólicos Anônimos, um homem incluído na lista da revista TIME como uma das "100 Personalidades mais influentes do Século 20". Entrevistas, recreações e material de arquivo raro revela como Bill Wilson, um bêbado sem salvação à beira da morte por seu alcoolismo, encontrou uma maneira de sair da sua dependência e, em seguida, forjou um caminho para muitos outros a seguir. Com Bill como sua força motriz, A.A. cresceu de um punhado de homens para uma irmandade mundial de mais de 2 milhões de homens e mulheres - um sucesso que fez dele um ícone dentro de AA, mas também um alcoólico incapaz de ser um membro da sociedade que ele havia criado. Um herói relutante, Bill Wilson viveu uma vida de sacrifício e de serviço, e deixou um legado que continua a cada dia em todo o mundo.

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