Mostrando postagens com marcador Tradições. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tradições. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

A Essência e a Aparência: Serviço e Grupos em Alcoólicos Anônimos

No cenário de Alcoólicos Anônimos no Brasil, observamos uma cultura enraizada de supervalorização do Serviço — o 3º Legado — em detrimento da importância fundamental dos grupos. Essa tendência contraria a lógica prestadora de serviços e apoio que está no cerne da nossa Nona Tradição. Para entender essa dinâmica, precisamos distinguir entre a essência e a aparência de A.A., especialmente no que diz respeito à organização e à representatividade.

A Nona Tradição afirma: "A.A. nunca deve ser organizada; mas podemos criar comissões ou conselhos de serviço diretamente responsáveis perante aqueles a quem servem." Esse princípio deixa claro que, embora existam estruturas organizadas (como comitês, juntas ou conselhos), elas não são a essência de A.A. — são apenas ferramentas de serviço criadas para apoiar os grupos, que são o verdadeiro coração da irmandade.

A Essência: Os Grupos

Os grupos são a base de A.A. Eles são autônomos, independentes e têm um único propósito primordial: levar a mensagem ao alcoólico que ainda sofre (Quinta Tradição). É nos grupos que a magia de A.A. acontece — onde os membros se reúnem, compartilham suas experiências, forças e esperanças, e ajudam uns aos outros a manter a sobriedade. Sem os grupos, A.A. não existiria.

A Aparência: O Serviço Organizado

O Serviço, por sua vez, é uma estrutura organizada que surge das necessidades dos grupos. Comitês, juntas e conselhos são criados para facilitar a comunicação, coordenar eventos, distribuir literatura e garantir que os grupos tenham o apoio necessário para cumprir sua missão. No entanto, essas estruturas são apenas representações de A.A., não a sua essência. Elas existem para servir os grupos, não para governá-los ou substituí-los.

A Dedução Óbvia

Se Alcoólicos Anônimos jamais deve se organizar, mas cria comitês organizados, então, por dedução óbvia, esses comitês, juntas ou conselhos são apenas representatividades de A.A., não a sua essência. Eles são ferramentas úteis, que devem ser combinadas ao propósito primordial da Irmandade. Quando essa distinção se perde entre a essência e a aparência, corremos o risco de supervalorizar o Serviço e negligenciar os grupos, invertendo a lógica que sustenta nossa tradição.

O Desafio Cultural no Brasil

No contexto brasileiro, essa inversão parece estar bastante enraizada. Muitos membros acabam vendo o Serviço como um fim em si mesmo, buscando status, reconhecimento ou poder dentro das estruturas organizadas. Esse comportamento contraria os princípios de coperatividade, igualdade e o serviço ao desgraçad@ que ignora o seu alcolismo e a solução de A.A. Para reverter essa tendência, precisamos reforçar a importância dos grupos e lembrar que o Serviço existe apenas para apoiá-los, nunca para substituí-los.

Conclusão

A essência de Alcoólicos Anônimos está nos grupos, onde a ajuda mútua e o compartilhamento acontecem. O Serviço organizado é apenas uma aparência, uma representatividade criada para facilitar o trabalho dos grupos. Quando entendemos essa distinção, podemos evitar a supervalorização do Serviço e garantir que A.A. continue cumprindo seu propósito primordial: ajudar alcoólico que ainda sofre a encontrar a sobriedade. Afinal, como diz a Nona Tradição, A.A. nunca deve ser organizado — mas pode (e deve) ser servido.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Os livros fundamentais de Alcoólicos Anônimos

 Livro: Os doze passos e as doze tradições de Alcoólicos Anônimos

Salve, salve, companheirada..!

Agradeço ao Companheiro Francisco pelas imagens do nosso acervo intelectual, um tesouro que pertence à humanidade. Esses livros não são apenas papel e tinta; são a diferença entre a vida e a morte para o verdadeiro alcoólico. Eles carregam a sabedoria de quem já caminhou pela escuridão e encontrou a luz. E, no entanto, no Brasil, esse patrimônio inestimável foi sequestrado por uma lógica mercantilista que envergonha os princípios que deveriam nortear nossa irmandade.

JUNAAB e o Poder Legal
Usurparam nosso patrimônio intelectual. Sim, usurparam. Transformaram um bem coletivo, que deveria ser acessível a todos, em uma mercadoria. Enquanto milhares de alcoólicos desesperados lutam para encontrar um sentido para suas vidas, nossos livros fundamentais são vendidos como produtos em prateleiras, inacessíveis para muitos em um país tão desigual como o nosso. Isso não é apenas um desvio de propósito; é uma traição aos princípios de AA.

Nosso desenho original, estabelecido por Bill W. e Dr. Bob, é claro: o autossustento. Recuperamo-nos para, então, assumir a responsabilidade por nossa existência coletiva. Nossa estrutura deve ser mantida por doações voluntárias e anônimas, não pela exploração comercial de um patrimônio que pertence a todos. Taxar esses livros com fins lucrativos é imoral. É elitizar o acesso a uma mensagem que deveria ser universal. É negar esperança a quem mais precisa.

Mas vamos além. Existem dois poderes em AA: o poder legal e o poder tradicional. O poder legal, representado por entidades como a JUNAAB, deve ser subsidiado majoritariamente pelas contribuições voluntárias do poder tradicional — os grupos e seus membros, que são a verdadeira força motriz de nossa irmandade. No entanto, entre 2014 e 2015, o poder legal se instalou em uma propriedade alugada no bairro do Tatuapé, em São Paulo, a um custo que foge completamente da nossa realidade arrecadatória. Uma máquina superestimada, que nos oferece um serviço subestimado. E o resultado? Uma política de preços das nossas obras completamente comprometedora.

A lógica, a grosso modo, é essa: viver de aparências. É como ter um dono de uma Mercedes-Benz na garagem de casa, mas sem poder tirá-la de lá porque o cartão de crédito tem o limite de um trabalhador operário de fábrica. É um absurdo. Enquanto isso, nossos livros, que deveriam ser reproduzidos com um lucro mínimo apenas para garantir sua continuidade e manutenção, são vendidos a preços que excluem aqueles que mais precisam.

E o que fazemos? Nossos livros ficam fechados, negligenciados, esquecidos. A maioria dos veteranos e grupos parece ter se acomodado a essa realidade. Nos últimos dez anos, vimos algumas mudanças, mas são lentas, insuficientes. Em AA, o bom sempre foi inimigo do melhor. E enquanto nos contentamos com o mínimo, a mensagem libertadora dos livros fundamentais — sim, estou falando de "Alcoólicos Anônimos" e "Os Doze Passos e as Doze Tradições", não do "Viver Sóbrio" — continua distante da maioria. A leitura, quando existe, é superficial. A compreensão, débil. E assim seguimos, distantes do ideal que Bill W. vivenciou naquela cozinha humilde, ao lado de seu padrinho Ebby T., que lhe transmitiu a mensagem dos Grupos Oxford. Esse relato histórico, descrito por Bill W. no último parágrafo do primeiro capítulo de "Alcoólicos Anônimos", é um testemunho poderoso de como a recuperação começa com a partilha desinteressada de uma mensagem de esperança.

Mas eu digo: chega. Chega de negligência. Chega de comodismo. Chega de permitir que um patrimônio que é nosso seja explorado por interesses que não são os nossos. É hora de colocar essa locomotiva nos trilhos. Uma nova geração está chegando, cheia de brilho e sede de sentido. Eles merecem mais do que migalhas. Merecem acesso pleno à mensagem que pode salvar suas vidas.

Não se iludam: a mudança começa conosco. Precisamos estudar, compreender e aplicar os livros fundamentais em nossas vidas. Precisamos exigir que nosso patrimônio seja tratado com o respeito que merece. E, acima de tudo, precisamos honrar o legado de nossos precursores, garantindo que a mensagem de AA seja acessível a todos, sem distinção. Porque, no fim das contas, não se trata apenas de livros. Trata-se de vidas. E vidas não têm preço.

sábado, 26 de março de 2022

A Gramática da Sobrevivência: O Significado Linguístico da Unidade em Alcoólicos Anônimos

Um dos botes utilizados pelo grupo Eddie Rickenbacker no Pacifico após a queda B-17

“O nosso bem-estar comum deve vir em primeiro lugar; a recuperação pessoal depende da unidade de AA.”

A literatura de Alcoólicos Anônimos é rica em simbolismos, mas poucas palavras carregam tanto peso e complexidade quanto o termo Unidade. No entanto, uma observação pouco cuidadosa desse conceito frequentemente gera ambiguidades, má compreensão e equívocos teóricos que resultam em uma difusão precarizada do seu real significado. Essa incompreensão não é um mero detalhe acadêmico, mas um problema de extrema gravidade prática. Quando a unidade é mal interpretada, grupos inteiros correm o risco de ruir, seja caindo na armadilha da uniformidade cega — onde o autoritarismo sufoca a individualidade — ou no extremo oposto do isolamento anárquico, onde o egoísmo destrói a coesão coletiva. Compreender as nuances linguísticas da Unidade é, portanto, uma questão de sobrevivência para a irmandade, pois o termo transita intencionalmente por diversas funções gramaticais e papéis literários para sustentar as Doze Tradições.

Em sua análise mais direta, a Unidade se apresenta como um substantivo abstrato. Ela corporifica o conceito e a própria estrutura física e organizacional da irmandade. Quando declarada como um legado, ao lado da Recuperação e do Serviço, ela deixa de ser uma ideia vaga e passa a representar o "corpo" de A.A., a liga que mantém os grupos conectados globalmente. No entanto, o texto literário da comunidade rapidamente expande essa fronteira, conferindo à palavra um claro valor adjetivo. Nesse cenário, a Unidade funciona como uma qualidade essencial e uma virtude a ser praticada pelos membros. Não basta que a associação exista formalmente como substantivo; é vital que os indivíduos ajam de maneira unida, transformando o termo em sinônimo de tolerância, harmonia e mútua cooperação, combatendo justamente a difusão precarizada que ameaça a paz dos grupos.

A transformação linguística mais impactante ocorre quando a Unidade assume o papel de Sujeito da oração nas Doze Tradições. Na Primeira Tradição, por exemplo, o texto afirma categoricamente que a reabilitação pessoal depende da unidade de A.A. Ao ganhar essa posição sintática, a palavra ganha vida própria e passa a agir como uma entidade viva, tornando-se o agente principal que garante a vida de cada membro individualmente. O indivíduo abre mão de sua soberania gramatical e existencial, reconhecendo que o coletivo é o verdadeiro sujeito que sustenta a sua sobriedade. Essa personificação transforma um conceito abstrato no bem supremo e vital daquela comunidade, esvaziando os equívocos gerados por interpretações rasas.

"1ª Tradição de AA nos diz o quanto é importante nos reunirmos em grupo, presencialmente, com objetivo comum; nossa 5ª Tradição. Ademais, todo resto é acessório e nos será acrescentado por graça e obra de Deus. Essa é Sua parte, a maior parte! devo dizer."

Indo mais fundo na semântica textual, a Unidade também atua como um advérbio de modo implícito e como uma metonímia. Como advérbio, ela dita o "como" fazer, orientando que todas as decisões e interações cotidianas dos grupos devem ocorrer obrigatoriamente através do espírito de união. Como metonímia, a palavra substitui o todo pela parte, onde falar em preservar a unidade significa, em última análise, salvaguardar a vida de cada alcoólico que ainda sofre. O termo opera ainda como um imperativo categórico oculto, um mandamento silencioso de desprendimento do ego que ecoa o tempo todo nos ouvidos dos membros: unir-se para não morrer sozinho.

Ao comparar a Unidade com os outros dois legados, percebe-se a perfeita engrenagem conceitual de A.A. Enquanto a Recuperação foca no campo individual e interno do "Eu", e o Serviço se projeta na ação externa em direção ao "Outro", a Unidade surge como a síntese que ampara ambos, estabelecendo a esfera do "Nós". O livro Doze Passos e Doze Tradições deixa claro que essa união não exige uniformidade de pensamento, mas sim a convergência de propósitos. Compreender a Unidade sob a ótica da linguagem revela que ela afasta qualquer interpretação ambígua ou precarizada, mostrando-se como a própria gramática da sobrevivência, uma palavra multifacetada projetada para garantir que o todo seja sempre maior e mais forte do que a soma de suas partes.

sábado, 10 de outubro de 2020

5ª Tradição de Alcoólicos Anônimos

Somos todos a Quinta Tradição em Alcoólicos Anônimos

Somente com uma compreensão vigorosa em razão da lógica de nossos princípios, poderemos extrair um melhor entendimento na construção de nossos destinos como sociedade e como indivíduos superando os insistentes atavismos tão nocivos para o alcance de nosso único objetivo: “cada grupo é animado de um único propósito primordial ─ o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre”.

Vamos partir do pressuposto que tudo se inicia no grupo. Tudo! O tradicional em nossa estrutura é parte espiritual que individualizada nos grupos, tem responsabilidade fim ─ ANIMAR-SE na TRANSMISSÃO de SUA mensagem ao alcoólico que ainda sofre.

Então, confirmamos, a única autoridade na transmissão da mensagem de Alcoólicos Anônimos são os grupos. Essa prerrogativa só cabe a eles, quero dizer, ao tradicional. Lembre-se em ter essa observação muito clara em nossas mentes para prosseguirmos com a leitura e sua conclusão.

ÂNIMO

Animar-se seria o mesmo que estar motivado e consciente do seu papel e responsabilidade em sua comunidade. Se cultivarmos essa prioridade tão explicita em nossos grupos, impregnando seus membros e o ambiente com esta decisão, a intenção que os conduzirá de seus lares aos seus respectivos grupos, para além do encontro fraternal com companheiros de jornada, nada tão legítimo, seria o movimento em proporcionar e facilitar a construção e a permanência de um Comitê Trabalhando com Outros, vivo, em seus espaços. Tal movimento deve ter a maior relevância nos grupos. Estar sempre em primeiro plano.

Mas não! Isso não ocorre invariavelmente.

Dessa maneira poderíamos, eventualmente, nos dar até ao luxo, nesses mesmos espaços, de ceder lugar ao comportamento de Club, com o famigerado bolo e guaraná. Só para quebrar a rotina, sem prejuízos ou desvios de nosso propósito único e primordial. Estaríamos em dia com os nossos deveres e por isso tranquilos.

Isso se deve, a meu ver, pela falta de esforços ─ não digo rigor ─ individuais e coletivos no tratamento de nossas experiências legadas em nossos livros fundamentais. Por que não o rigor? O rigor em nosso caso nos mataria! Mesmo porque, nossas tradições nos advertem que não devemos exigir nada de quem quer que seja.

Somos plenos no exercício da liberdade e responsáveis pelas consequências da mesma. É uma questão de justiça! Aprendemos esta lição desde do primeiro dia que aqui chegamos. Existe uma lógica por trás desta experiência universal fundamentada em nosso meio ─ um valor ─. Esse princípio é norteador em quaisquer circunstâncias ou contexto dentro do A.A. e, mesmo fora, em nossas vidas pessoais. O CTO e suas comissões se submetem a essa mesma lógica Divina. Talvez aqui se justifique o rigor quando absorvemos em nossos corações e mentes o compromisso com outro. Uma revolução!

Tratarei deste assunto com mais propriedade e profundidade num próximo artigo acerca da nossa 1ª tradição. 

Vamos continuar nossa conversa com outra categoria que quando corroborado com a categoria anterior, fecha a questão.

TRANSMISSÃO

A categoria transmissão: atribuir algo a outrem; ato ou efeito de transmitir; contágio: capaz de contagiar, de influir no comportamento de alguém; que se espalha de uma pessoa para outra, de um lugar para outro; inoculação: [Figurado] transmissão, propagação de ideias, opiniões, doutrinas, ideologias...

O processo de recuperação individual e até mesmo coletivo, se dá em longo prazo, amorosamente, pacientemente e com firmeza nas ações. Ora, os 12 passos, nada mais é do que um plano de ação, o nosso método de recuperação do alcoolismo contido no programa de A.A..

Uma atmosfera propícia, isto é, protetora, encorajadora e fraterna, deve reinar em nossos grupos a todo custo e é nesse sentido que há inúmeras recomendações incentivando o silenciar de nossas personalidades em benefício do coletivo. Não quer dizer que não haja divergências, discussões e desacordos. Não é isso! Sabemos que na nossa diversidade reside uma grande força. Contudo, sabemos que os temas particulares ou domésticos não cabem nesses espaços, ou pelo menos, não deveriam ser estimulados por uma maioria de membros recuperados e maduros. São conteúdos altamente explosivos.

“Lembre-se do Irlandês rubicundo ─ aquele das bochechas coradas ─ e a noção de sobriedade vendida por seu padrinho”.

Já as divergências e os debates, até mesmo acalorados, em torno da nossa 5ª tradição, são bem-vindos e positivamente apreciados. É a natureza de um grupo de Alcoólicos Anônimos num movimento genuíno e próprio. Na razão de nossa existência haverá sempre o bom combate objetivando o seu aperfeiçoamento na direção do alcoólico que ainda sofre do alcoolismo. Tudo estará bem e garantido por nosso bom Deus.

Bem, é nesse sentido que a transmissão de nossos princípios e experiências se faz ao enfermiço candidato recuperar-se do alcoolismo e a se tornar um membro consciencioso de suas responsabilidades, ativo na manutenção de nossa chama. Tudo acontece por contágio, por aproximação, persuasão pelo fazer, não mais pela efêmera fala em cabeceira de mesa enaltecendo suas credenciais de tempo e de encargo nos serviços de AA. Não violentamos ninguém impondo nossos valores ou vontades. Expectativas subjetivas de tempo não cabem no processo. O tempo agora é de DEUS.

Cinco, dez anos, e continuaremos sendo recém-chegados. Leva tempo para dar o primeiro passo por inteiro. Então, se apresse, porque caso contrário suas soluções aprendidas no mundo que nos corrompem diariamente naquilo que possuímos de mais humano, nos tornando doentes e apodrecidos, tenderemos importar para o nosso Eldorado acreditando ter inventado a roda, mas na verdade estaremos nos colocando em risco e a alguns outros. Não somos uma corporação, somos a utopia. Não cumprimos metas, não temos um checklist para preencher, regras nem pensar, padrões no agir, pensar e falar, nunca! Não somos profissionais e sim servidores, recuperados no sentido mais profundo, responsáveis e de confiança, contribuindo com aquilo que há de melhor e possível. Sem medalhas ou troféus de chocolate.

Como já havia nos dito o nosso querido Co-fundador Bill W., “tudo em A.A. já foi tentado nos seus primórdios”. Em verdade, a partir de uma compreensão profunda de nossos princípios, deveríamos exportar nossa maneira de viver e existir para o resto do mundo, e não o contrário. Mas esse, Graças a Deus, não é o nosso papel. Importante nos atermos somente às nossas chinelas.

PROPRIEDADE

A categoria seguinte trata-se do pronome possesivo “sua” referindo-se a cada grupo, a posse de uma mensagem própria na sua forma. 

─ Como assim?

─ Vou explicar:

Outra premissa prevista e garantida em nossas tradições, nesse caso a 4ª tradição, é o direito de cada grupo se manifestar como individualidade de um todo. Portanto, sendo assim, reconhecido como uma entidade espiritual que possui seus próprios recursos morais, possíveis e cabíveis, para a transmissão da “sua” mensagem. Ou seja, cada grupo é um conjunto vivo, orgânico, dinâmico, próprio em particularidades, que trabalha na atração do enfermiço de sua comunidade. Nunca falaremos em uniformidade, mas sempre em unidade de diferenças e semelhanças.

É fácil concluir que os grupos não podem ser iguais na sua forma. Os componentes que formam o seu conjunto, condicionalmente, estão atrelados aos aspectos socioculturais e econômicos da sua região e classe. Contudo, não são esses fatores determinantes, caso haja indivíduos que não atendam as mesmas condições da maioria. Não fracassarão em sua reabilitação só porque compartilham do mesmo espaço aparentemente estranho a eles. O problema aqui é o favorecimento através da identificação. Quanto mais pleno for esse quesito preenchido, ou seja, na maioria dos seus aspectos, o resultado será melhor. Há de convir que o conjunto dos elementos constitutivos num grupo de Ipanema não é o mesmo em Cascadura. O mesmo aconteceria a um companheiro esquimó, comedor de foca, lá no sertão da Bahia, por mais genial e acolhedor que seja o povo daquele estado.

A sensação de pertencimento é um valor importantíssimo e facilitador na chegada de qualquer alcoólico num grupo de AA. Esse acolhimento diário é a substância que só o grupo pode proporcionar. Essa sua essência, que não é a forma, é parte da sua natureza e a encontraremos em todos nossos grupos independentemente da sua localização. A identificação com o seu novo grupo é um fator fundamental para promover esse sujeito, adoecido e humilhado, a reiterar o seu compromisso consigo e o retorno no próximo dia a mais uma reunião.

Percebam a lógica em relação a localização de um grupo e o seu trabalho de relações públicas. São estabelecidos limites dentro de um perímetro para sua atuação, determinando sua comunidade como a única base na atração dos prováveis membros, recomendando a não ultrapassar seus limites fronteiriços com outra região. Esse conhecimento vai se consolidando tacitamente através das experiências dos anos e sendo incorporado a nossa estrutura como virtude ou recomendação. Temos que respeitar os esforços desses homens e mulheres que nos antecederam, não é mesmo?

São esses, em parte, os motivos não tão óbvios, que encarregam somente os grupos da responsabilidade de transmitir a recuperação do alcoolismo aos potenciais membros de nossa sociedade.

ESTRUTURA PARALELA

Dentro da estrutura de AA, todo o Serviço, em nosso organismo, subsidia a partir do seu descolamento daquilo que é essencial, os grupos, a formação do conjunto representativo ─ áreas e distritos ─ minimamente organizados e hierarquizados, e o Legal, até chegar na Conferência. Toda essa nossa engenharia da estrutura de serviços formam uma unidade que atende, em última análise, uma única premissa: a da comunicação entre grupos do mundo inteiro. O máximo que essa estrutura paralela se permite, é “levar” a mensagem a todos os cantos mundo. Isso é muito diferente que transmiti-la.

Fique bem claro que os Distritos, as Áreas, os ESLs, a JUNAAB, o Quartel General, em NY, até mesmo, os Comitês de CTO dos Grupos, não tem condições e nem recursos espirituais para efetivar essa transmissão. No máximo, prepararam ou lançam as iscas. É extremamente irresponsável estimular nesses quadros, a presença de recém-chegados sob alegação de qualquer natureza.

Acreditamos que com o passar do tempo, nossa sociedade amadurecida, consolidou por meio das experiências, sua vocação inata. Inicialmente tímida, até mesmo inconsciente, para mais adiante ser consagrada em nossas tradições no seu objetivo único e primeiro: a 5ª Tradição! 

Ficando claro que todo o movimento de Alcoólicos Anônimos objetiva o externo, o lado de fora! Enfim, toda a sociedade! 

Esse é o trabalho: alcançar o alcoólico que ainda sofre! Reiterando uma vigorosa premissa encontrada em nosso método de recuperação - nossos 12 passos. É o coroamento do nosso método! 

A solução de nossos terríveis dilemas e angústias estão no outro: em nossos espelhos que nos tornam cada vez mais humanos... 

O verdadeiro Amor só se realiza quando caminhamos em direção ao Outro. 

Então, sirva! 

É a nossa conclusão!

Aprendi uma dura lição nessa minha curta jornada em Alcoólicos Anônimos: a certeza de ser aquilo que devo ser, e não mais, aquilo que eu desejo ser. 

 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O bom, as vezes, é inimigo do melhor em Alcoólicos Anônimos

Alcoólicos Anônimos e a JUNAAB

Aos Comitês que Trabalham com Outros do país e a quem mais desejar.


Simpósio (em grego: συμπόσιον, transl. sympósion) é um termo que se referia, na Grécia Antiga, a uma festa em que bebidas eram servidas (o verbo grego sympotein significa "beber junto"), geralmente realizada depois de um banquete, e durante a qual eram travados diálogos e conversas intelectuais, enquanto escravos ou empregados faziam apresentações de música e dança. Recentemente, o termo passou a designar qualquer conferência acadêmica ou um estilo de aula ministrada em universidades, que segue um formato abertamente discursivo, e não o tradicional de uma palestra ou de uma aula com perguntas e respostas.
O termo, na sua acepção original, me parece bem apropriado para o caso que trataremos aqui. Infelizmente – ou felizmente –, mais uma vez, nossa análise recorrerá ao tom da crítica. Peço licença aos senhores e senhoras, queridos leitores e companheiros, pelo inconveniente, mas é necessário estabelecer alguns esclarecimentos sobre um comportamento completamente discordante de nossos princípios espirituais e fundamentais. Acreditem: precisamos revisar toda nossa sociedade de Alcoólicos Anônimos, caso contrário, estaremos muito próximos do fim de nossa "SOCIEDADE E SUA MENSAGEM", já que a geração de valorosos servidores veteranos, imbuídos e movidos genuinamente pelo sentimento de zelo e gratidão, está prestes a desaparecer.

Aqui, refiro-me somente aos donos dos "Anéis de Bamba", aos mestres do trabalho e sacrifício. Uma geração anônima que muito realizou, impelida pelo instinto de sobrevivência, e, seguida, mais adiante, por uma geração nova que pouco realizou. Talvez por acreditar que já estivesse tudo pronto. Ledo engano!

Simpósio Nacional para Profissionais - Alcoólicos Anônimos


Quer dizer que Alcoólicos Anônimos no Brasil certifica a participação dos presentes em seu "simpósio"? Então, devo supor que o A.A. do Brasil deixou sua autoridade moral e leiga por uma autoridade magistrada? É isso mesmo? E o pior de tudo: reunimos nomes de pessoas que, em sua maioria, não respondem por Alcoólicos Anônimos, e endossamos, com nosso patrocínio e apoio em gênero, número e grau, suas verdades, teorias, contradições, equívocos, sofismas etc., relacionados a nossa experiência na recuperação de alcoólicos. Quanto à nossa solução, quem falará de Alcoólicos Anônimos aos palestrantes e comensais?

Rasguemos, então, nossas tradições pela falta de fé no alcance da sobriedade? Estamos permitindo que pessoas alheias à nossa sociedade, com suas convicções materialistas, nos desviem de nosso propósito único. Isto é tão fácil de verificar que basta olharmos os temas apresentados para o simpósio, por exemplo. Não há uma única menção ao nosso propósito. Nenhuma! Comportamentos como este vêm ocorrendo há muito tempo. Estamos fazendo política, e não deveríamos, nos envolvendo e nos intrometendo em questões alheias ao nosso propósito único: alcançar o alcoólico que sofre e deseja encontrar uma solução definitiva para seu maior problema..

Reconhecemos em nossas salas, nos dias atuais, inúmeros candidatos à recuperação, os convalecentes,  encharcados de medicações alopáticas e educados por seus próprios médicos, afirmando que sua única saída será procurar um repositório, quero dizer, um clube de A.A. para frequentar diariamente, além de utilizar, agora, indiscriminadamente, a medicação prescrita até o fim de suas vidas! Que merda!!! Onde está a vida útil, íntegra e significativa numa filosofia dessas? A.A. é vida, e VIDA em abundância! Mas tem que se submeter aos princípios. Porém, primeiro, precisamos conhecê-los... Desfazer uma mentalidade como essa é trabalhoso demais. O tratamento do dependente químico pela ciência materialista é considerado, pelas autoridades, como uma verdadeira utopia. Na verdade, eles já desistem antes mesmo de começar.

Nosso Jornal não quer dizer que as pessoas envolvidas no "simpósio" estejam mal-intencionadas, mas sim que talvez estejam sendo inconscientemente conduzidas pela ilusão do prestígio e poder. Estamos bem certos de suas qualidades profissionais e acadêmicas, mas reconheço, tão claro como água de ribeirão, seus interesses pessoais, que, talvez por descuido ou por nos subestimarem ou por não confiarem em nossas experiências de mais de 90 anos no tratamento do alcoólico pelo mundo, usam o A.A. e, como não bastasse, soterram nossos princípios. Na verdade, eu me pergunto: e quanto a nós, membros efetivos de A.A., confiamos ou não confiamos em Alcoólicos Anônimos?

Todavia, conduzir o movimento Alcoólicos Anônimos em direção contrária à solução que A.A. propõe para o alcoólico que sofre do alcoolismo e deseja ajuda, para mim, é ilegal e imoral.

Talvez nossos princípios estejam ultrapassados e precisem de uma reforma ou adequação por conveniência à contemporaneidade. Será? Posso responder, com toda a segurança, que não! Alcoólicos Anônimos ainda está por ser descoberto. Estão reservados ao futuro seus conceitos e integridade. Aqui está nosso grande risco: esse futuro só se dará se seguirmos o que foi sugerido por nossos fiéis cofundadores, em sacrifício de nossas frágeis vontades. Contudo, posso afirmar aos senhores e senhoras: o maior grau de eficiência no tratamento do alcoólico é nosso. Certamente, se nos aproximássemos o máximo possível daquilo que nos foi legado, atingiríamos o mesmo nível em efetividade.
Não atuamos no campo da educação, não promovemos encontro algum para quem quer que seja, não apoiamos e nem combatemos causa alguma, seja ela judiciária, científica, política, socioeconômica, legislativa, publicitária, pedagógica, enfim, nada! Por mais meritório que possam parecer. E não é por arrogância, e sim, por sobrevivência. Jamais polemizamos! 
Um outro exemplo é o termo de cooperação com a Justiça que, a meu ver, é completamente equivocado e contraditório. E não por culpa dos amigos de A.A. que são membros da Justiça, mas pelos trabalhos de informação pública que deveriam ser proativos e não são, bem como pela falta de compromisso e responsabilidade de nossos próprios quadros de servidores, que simplesmente aguardam o bebedor-problema tropeçar em nossos clubes pelo encaminhamento da Justiça, ocasionando, assim, inúmeros conflitos nessa recepção. Mas isso é assunto para um novo artigo.

A conversa do jornalista 'B.B.B." com o fanfarrão jornalista-escritor


Outro dia, assisti por um canal do YouTube um Amigo de A.A. (segundo o próprio) tão simpático e, ao mesmo tempo, tão tolo em seus doces comentários e afirmações, coincidentemente, tão infeliz quanto seu interlocutor, afirmando, em rede nacional, num programa da TV aberta, que nós, os A.A., somos os Santos da Modernidade. Que piada! E pior: disse que podemos frequentar nossas reuniões por esporte. No fundo, no fundo, esse cidadão me cheirava a cachaça, um dos nossos, e dos "brabos". Fatalmente, um companheiro enrustido, que chamamos, por aqui, de bebedor-forte, muito parecido com o verdadeiro alcoólico, só que com uma diferença: um susto o faz parar de beber por completo. Já o verdadeiro alcoólico, meus amigos, está condenado a uma reforma radical de personalidade se quiser sobreviver.

Já vi essa prática de Simpósios para profissionais acontecer aqui no Rio de Janeiro, promovida pelo nosso ESL. Mas, por aqui, a gente até engole por amor aos mesmos. A deficiência de nossos servidores é total na matéria tradições e passos. Pelo que vejo, é uma metástase!

Temas do material apresentado para simpósio patrocinado pela JUNAAB. 

  1.  Alcoolismo no século 21 - Cenários e Perspectivas.
  2.  Ações da Justiça no enfrentamento do alcoolismo.
  3.  Alcoolismo e Sociedade - Formar e informar

Por favor, leiam todas as orações ou frases, como quiserem, da 6ª e 10ª tradições de Alcoólicos Anônimos. Reflitam e, juntos, entendam suas implicações.

Por último, deixarei um singelo recorte, mas com potente clareza, para vocês: "Mais do que nunca percebemos que não poderíamos emprestar o nome de A.A. a qualquer causa que não fosse a nossa."

Graças ao nosso bom Deus, tudo está mudando e para melhor!!! Estamos inaugurando uma nova fase na recuperação das ideias originais de Alcoólicos Anônimos, exatamente igual à origem do termo simpósio. Ideias usurpadas por seus próprios membros, em razão do desejo pessoal de prestígio e grana. O mercado e a indústria da dependência química são dois monstros insaciáveis, funcionam de forma bem parecida a algo que nos é bastante familiar. O problema não é o álcool, e sim, nós, as personalidades. E o A.A. tem a solução completa para esse MAL.

Só por agora, compreendo o significado restrito nesta máxima encontrada em nossos livros fundamentais: "O bom é inimigo do melhor." Agora, só por agora.

Jornal Haja Fígado.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Alcoólicos Anônimos: autossuficiente!?

70 anos de A.A. no Brasil

Nossa 7ª Tradição começa com uma sugestão aparentemente simples: "Todos os grupos de A.A. deverão ser absolutamente autossuficientes, rejeitando quaisquer doações de fora." Essa tradução, presente nas edições brasileiras sob o controle da JUNAAB (Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil), com permissão da AAWS (Alcoholics Anonymous World Services, Inc.), carrega consigo uma palavra que, ao longo dos anos, tem gerado discussões e mal-entendidos: "autossuficiência".

Mas o que realmente significa ser autossuficiente? E, mais especificamente, "absolutamente autossuficiente"? A tradução conjuga o verbo "dever" no futuro, sugerindo uma meta a ser alcançada, enquanto o original em inglês, "ought to be self-supporting", indica uma condição presente, já neste instante, e não mais adiante! Essa pequena diferença temporal pode parecer insignificante, mas reflete uma contradição profunda no significado do termo.

Autossuficiência, em seu sentido mais literal, significa bastar-se a si mesmo. No contexto da 7ª Tradição, ela se refere ao sustento material dos grupos, que deve vir exclusivamente dos próprios recursos de seus membros, sem depender de doações externas, que, consequentemente, esbarra diretamente nas nossas relações humanas com profissionais contempladas na 8ª Tradição, e, indiretamente, na 9ª Tradição. No entanto, essa ideia de autossuficiência, quando mal interpretada, pode se tornar uma armadilha perigosa. Ela sugere uma independência que vai em desencontro aos princípios espirituais de A.A., que pregam justamente o contrário: a dependência de um Deus, na forma em que O concebíamos e o apoio mútuo entre os membros.
"Absolutamente" o advérbio ratifica a recomendação de recusa de quaisquer donativos materiais, mesmo aquelas doações que simulam concessões inofensivas.
Vejamos um exemplo prático. Imagine um grupo de A.A. que aluga um espaço em uma igreja católica por um valor simbólico, digamos, R$ 50,00 mensais, para realizar suas reuniões uma vez por semana. À primeira vista, pode parecer uma solução prática e inofensiva. No entanto, essa prática esbarra em questões delicadas. Primeiro, porque não há um contrato que defina claramente os direitos e deveres das partes envolvidas. Segundo, porque essa proximidade com instituições religiosas pode criar barreiras para aqueles que não se identificam com a fé católica ou com qualquer outra religião. O ideal seria que os grupos de A.A. mantivessem uma distância saudável de igrejas e outras instituições religiosas, garantindo que o programa seja acolhedor para todos, independentemente de suas crenças ou descrenças. ─ Diz a profecia, que: “A verdadeira liderança de A.A. se encontra do lado fora”. ─ Torço para que eu veja essa profecia se realizar ainda nesta vida.

Aqui, é importante ressaltar que o problema não está no valor pago, mas na falta de um contrato e na possibilidade de interpretações equivocadas. A 7ª Tradição não proíbe doações, ─ ou melhor, contribuições ─, mas recomenda que os grupos sejam "absolutamente autossustentáveis", ou seja, que dependam apenas de seus próprios recursos, sem criar vínculos que possam comprometer sua independência e neutralidade.

E é justamente aqui que a tradução da palavra "self-supporting" como "autossuficiência" se mostra inadequada. No original, o termo "self-supporting" significa "autossustentável", ou seja, capaz de se manter com seus próprios recursos. Já "autossuficiência" carrega uma conotação de independência total, uma sutil oportunidade ou brecha que descamba para tendência a seguir nesse nosso artigo, algo que vai contra os princípios de A.A., que pregam a prudência e a dependência de um Deus, na forma em que O concebemos.

No entanto, a má compreensão desse princípio tem levado a práticas ainda mais preocupantes. Aqui na Área 01, no Rio de Janeiro, por exemplo, alguns grupos têm levado a ideia de autossuficiência ao pé da letra, adquirindo propriedades por meio de compra ou construção de um imóvel. Essa tendência, embora bem-intencionada, é um erro colossal. Nossos princípios recomendam maiores cuidados com propriedade, prestígio e poder, melhor seria nos abster desse tipo de empreendimento, e os motivos são óbvios: quem será o dono do imóvel? Em nome de qual membro do grupo ficará registrado? Afinal, somos todos donos, mas não há como dividir legalmente uma propriedade entre todos os membros de um grupo. 
Em A.A., costumamos dizer que a 7ª Tradição é o momento em que o material se une ao espiritual, com o espiritual prevalecendo. A autossustentação financeira dos grupos não é um fim em si mesma, mas um meio para garantir que possamos cumprir nossa missão primordial: levar a mensagem de recuperação ao alcoólico que ainda sofre.
A 5ª Tradição, que nos lembra; mantenhamos o foco em nossa missão primordial. Acaba sendo relegada ao último plano. Em vez de nos concentrarmos em levar a mensagem de recuperação, nos vemos envolvidos em disputas por propriedades, questões legais e administrativas que nada têm a ver com o propósito de um Grupo. Nosso sustento deve vir de contribuições voluntárias e anônimas, e, preferencialmente, estabelecendo contratos de aluguel para nossos espaços de recuperação. Que por sinal, uma atribuição que deveria ser destinada aos ELSs ou Intergrupais em favor dos Grupos.

Caro leitor, caso ainda não tenha se dado por satisfeito; Bill W., cofundador de A.A., foi cuidadoso ao escolher suas palavras. Ele, desejou comunicar-se conosco, evitando, o máximo possível, as dúvidas que as palavras possam promover para o bom funcionamento de toda essa engenharia que Alcoólicos Anônimos verdadeiramente é. No texto do primeiro passo, ele usa o termo "self-sufficiency" (autossuficiência) para descrever como o álcool nos esvazia de toda autossuficiência. Ou seja, ele reconhece que a autossuficiência é uma ilusão para nós, alcoólicos. No entanto, nas Tradições, ele opta por "self-supporting" (autossustentável), um termo que reflete a necessidade de os grupos se manterem financeiramente independentes, mas sempre contando com o apoio mútuo e a orientação de um Deus Amantíssimo. 

Portanto, a correção da tradução da 7ª Tradição não é uma mera questão semântica, mas uma necessidade para preservar a integridade do programa. Onde se lê "autossuficiência", deveria estar escrito "autossustentável", como no original. Essa mudança não apenas evitaria mal-entendidos, mas também reforçaria a ideia de que, em A.A., dependemos uns dos outros e de um Poder Superior, nunca de nós mesmos.
Mesmo que a 7a Tradição só se refira a questões materiais, e pudesse caber a palavra "autossuficiência" para esse aspecto, fica claro, para mim, que nada é mais inapropriado. Na verdade, a autossuficiência para nós, alcoólicos, é perniciosa e vai de encontro aos nossos princípios espirituais.
Só por agora, a autossuficiência, para nós, alcoólicos, é totalmente perniciosa. Ela nos leva a acreditar que podemos vencer a dependência do álcool sozinhos, ignorando a necessidade da ajuda mútua e externa. Pretendemos não mais buscá-la em nossas vidas, individuais ou coletivas, e, por isso mesmo, é que devemos abolir qualquer menção inadequada em nossos textos ou registros. Nos é revelado, por A.A., que existe uma forma de dependência nunca por nós experimentada, e quanto mais dependentes de Deus, mais livres nos tornamos. Esse paradoxo é a essência do programa de A.A., e é por isso que a correção da tradução da 7ª Tradição é tão importante. Este mesmo princípio se estende e é verificado nas nossas relações de serviços com os nossos custódios não alcoólicos, profissionais e amigos de A.A., funcionários, que cumprem seus papéis de grande valor, e, sobretudo, de Deus.

Agora, o que realmente o nosso cofundador quis nos oferecer como princípio em nossas tradições e especialmente nesta? 
─ Para mim, resultado precioso do exercício da humildade junto a responsabilidade, desejando que a 7ª Tradição se manifeste com total sabedoria e força, dizendo:
“Todos os grupos de A.A. devem ser absolutamente AUTOSSUSTENTÁVEIS, rejeitando quaisquer doações de fora."
Estabelecendo por princípio em A.A. a virtude da pobreza, para nós, pobreza coletiva. Algo tão temido e mal compreendido por todos nesse mundo. Ao abraçarmos tal virtude coletivamente — mantendo apenas o necessário para nossa existência e longevidade —, nos libertamos das amarras do materialismo e nos aproximamos de um ideal em nossa irmandade: crescer espiritualmente e ajudar outros a encontrar a sobriedade.

Que lição! 
Não acumulamos, só precisamos de fundo de reserva prudente, ou seja, só o necessário.

Um viva bem sonoro aos 70 anos de A.A no Brasil. Recuperando vidas! 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Grupo de A.A. onde tudo começa e termina! Reuniões-Debate, já!


General Service Conference held in New York City in April, 1965

General Service Conference held in New York City in April, 1965 

Este tipo ou modalidade de reunião consta como primeira sugestão do livreto “O Grupo de A.A.... Onde tudo começa”. Para nossas reuniões nos grupos, o livreto afirma sendo essa a modalidade mais comum, por mais incrível que possa parecer!


Como funcionam as Reuniões de Alcoólicos Anônimos


As nossas vêm se dando da seguinte maneira: utilizamos o livro Alcoólicos Anônimos (o Livro Grande, nosso texto básico) na identificação de nossas próprias histórias com as experiências e afirmativas do livro. Essa reunião acontece toda sexta-feira, às 19h00. Nas quartas-feiras no mesmo horário, os debates se dão a partir do estudo das doze tradições de A.A. Nessa reunião, tentamos consolidar o entendimento e o aprofundamento das ideias sugeridas de como nos relacionar em grupo ou fora dele. Inclusive, esse estudo já nos trouxe alguns resultados positivos em nossa consciência coletiva, tais como; a extinção dos rituais de ingresso para novos membros, a necessidade do anonimato em nossas intenções e ações; a formação de um Comitê Trabalhando com Outros (equipe) no grupo; maior compreensão dos nossos direitos e responsabilidades, e muito mais...

Quanto à reunião das segundas-feiras, também às 19h00, é dedicada ao método sugerido a todo e qualquer candidato à recuperação: os Doze Passos. Aqui esmiuçamos ideias, intenções, comportamentos, esclarecimentos e experiências, como proceder na materialização em nossas vidas a proposta de recuperação de A.A. Desmistificando a impossibilidade de sua prática ou a falsa ideia de que seja algo só para santos, e sim um método para indivíduos desejosos por maturidade e consciência, através de muito esforço e trabalho pessoal.

A regularidade dessas reuniões verifica-se a princípio o poder atrativo e contagiante da modalidade e dos nossos textos. Elas têm um caráter muito próximo ao nosso, anárquico e informal, porém sério e responsável, a verdadeira liberdade que Alcoólicos Anônimos nos propõem. Para mim, é a velha utopia, aquela mesma verificada na cozinha de Bill W. com seu companheiro e amigo Ebby: uma Sociedade fraterna, consciente e madura.


Alcoólicos Anônimos e o futuro de A.A.


Os novos tempos já foram anunciados por nosso co-fundador em 1955 e agora, só por agora, estão diante de nossas portas e nossas cabeças. O que fazer? Estarão as respostas dentro de nossos livros? Quando abriremos os nossos livros verdadeiramente? É apenas um dever? É por isso que o grupo vem viabilizando a 5ª Tradição também desta maneira. Procuramos ser cautelosos quanto às resistências, atuando pelo convencimento e persuasão de forma amorosa, tarefa bem difícil, mas necessária. Os mediadores dessas reuniões se fazem presentes, por dever ao serviço, como participantes nas reuniões dos outros mediadores. São presenças garantidas nas reuniões desta ordem, onde são lidos pequenos trechos dos textos, até que componham uma ideia. É aí que o mediador ou um dos participantes provoca o debate. A palavra é franca e livre o tempo todo, não nos opomos ao direito no uso da palavra, se um companheiro desejar falar do cachorro morto do vizinho, será ouvido com amor e respeito. Mas, logo em seguida retomamos o assunto que nos atrai àquela reunião.

Algumas vezes, uma única palavra inserida em nossos textos garante até duas horas de discussão. Não nos preocupamos com metas de conclusão e nem tempo previsto para cada um dos capítulos, tradições ou passos. É permitido, discordar, fomentar, divergir, esclarecer, perguntar, opinar, interromper, pegar um gancho... Na verdade, é um bate-papo em que às vezes os ânimos se exaltam, então novamente o mediador entra para intervir com bom senso e firmeza no rumo da prosa. Tentamos também evitar conversas paralelas nas reuniões, se alguém fala paralelamente o mediador conduz para que esse assunto ou comentário venha à roda de discussão, já que o formato na arrumação das cadeiras é o californiano, quero dizer, circular.

Não há espaço para melindres ou disputas de pontos de vistas pessoais, um bom entendimento, seguido de excelente argumento, sempre fundamentado em nossos textos, é sempre vencedor (empurramos a responsabilidade sempre para Bill W., foi ele que disse isso ou aquilo, não sou eu quem está dizendo, e sim o livro é quem está afirmando).  É assim que os textos passam a ter vida em nossas almas, trazendo consciência e liberdade.

De minha parte, estou convencido que essa é uma maneira franca, livre e honesta para se tratar as ideias de A.A. e de estimular nossa recuperação individual e coletiva, chega de meias verdades e de tratarmos os assuntos de A.A. na superficialidade, afinal, A.A. não é para os sadios, mas sim para os aflitos. Há um contingente de alcoólatras desejosos por uma saída e sabemos que há solução, façamos a nossa parte sem exigir nada de quem quer que seja. Nós de A.A. só temos a oferecer e isso é AMOR! Abracemos os nossos defeitos e causa, é assim que funciona.

A descrição acima não é um modelo, e sim a experiência de nosso grupo. E faço questão de deixar aqui um convite a todos para essas reuniões, já que são reuniões abertas. Sede todos muito bem-vindos!

Agradeço desde já oportunidade.
Mais vinte quatro horas.

Nossa Sociedade irá, portanto, ater-se prudentemente à sua única finalidade: transmitir a mensagem ao alcoólico que ainda sofre. Vamos resistir à presunçosa suposição de que, só porque Deus nos possibilitou sairmos nos bem em uma área de atuação, estaríamos destinados a ser um canal dispensador da graça salvadora para todo mundo. ” Bill W., co-fundador de A.A., 1955